BOX DE FACTOS
  • Liberdade sem leitura séria é apenas um cartaz bonito colado numa parede húmida.
  • Diplomas podem certificar técnica; raramente certificam cultura, carácter ou visão.
  • O exame substituiu o pensamento: treina-se a resposta, não a compreensão.
  • Resultado: elites funcionais, mas intelectualmente desarmadas — e um país governado por reflexos.

A Liberdade dos Analfabetos Certificados: Um País a Fingir Que Pensa

Um povo pode votar livremente e, ainda assim, viver preso: preso à ignorância, ao impulso, ao slogan, ao ruído. A liberdade sem cultura é uma chave de ouro… para uma porta que não existe.

Há uma pergunta que devia assombrar qualquer sociedade que se proclame livre: como é que se constrói liberdade com cabeças vazias? Não vazias de inteligência — que isso seria insulto barato — mas vazias de leitura, de referências, de gramática interior. Vazias de mundo.

Porque é isso que vemos: jovens que atravessam o secundário e a universidade como quem atravessa um túnel com o telemóvel na mão, e saem do outro lado com um diploma e uma espécie de sorriso automático, como quem diz: "Pronto, já sou alguém". Ler? Ler a sério? Filosofia, sociologia, literatura, ciência — não em excertos de três linhas, mas em páginas que exigem silêncio e permanência? Não, isso é "pesado". Isso "não dá para a vida". A vida, pelos vistos, é um feed e a realidade virtual!

A escola do atalho: formar gente rápida, não gente funda

O nosso sistema educativo (e cultural) fez uma troca que parece moderna, mas é simplesmente trágica: trocou profundidade por velocidade. O aluno aprende a passar, não a compreender. Aprende a responder, não a pensar. Aprende a "dar conta", não a "dar sentido".

A leitura séria é lenta. Exige fricção. E fricção hoje é crime. O tempo da mente foi confiscado por notificações, vídeos curtos, urgências artificiais. A atenção tornou-se um animal em vias de extinção. E sem atenção não há leitura; sem leitura não há linguagem robusta; sem linguagem robusta não há pensamento complexo. Há apenas reacção, euforia, indignação instantânea — essa religião moderna do "eu sinto, logo é verdade".

E depois… chegam a médicos, advogados, políticos

O espanto maior é este: mesmo assim, chegam. Chegam a médicos, advogados, professores, políticos, governantes. E chegariam a pilotos de nave espacial, se o país tivesse naves e não apenas promessas. Chegam porque o sistema permite. Porque o sistema avalia a técnica, não a cultura. Avalia a conformidade, não a maturidade. Avalia o "cumprir", não o "entender".

E eis o paradoxo delicioso (no sentido em que uma pedra no sapato pode ser deliciosa): temos profissionais altamente certificadosne, ao mesmo tempo, assustadoramente frágeis no pensamento geral. Sabem muito do seu "tubo" — um órgão, um código, uma norma, um procedimento — mas têm pouco mapa do mundo. Especialização sem cultura é poder sem bússola.

Um médico sem cultura geral pode tratar o corpo e falhar a pessoa. Um advogado pode conhecer a lei e nunca tocar a justiça. Um político pode decorar discursos e nunca compreender o país. Um governante pode gerir folhas de cálculo e falhar o futuro. E depois admiramo-nos que a coisa descambe para o espectáculo, para a propaganda, para o improviso, para a incompetência bem vestida.

A democracia dos slogans: votar sem compreender

Uma sociedade livre pressupõe cidadãos capazes de ler, pensar e discutir com densidade. Caso contrário, a liberdade reduz-se a isto: escolher entre embalagens. E quem domina as embalagens domina o destino. A política torna-se marketing, o debate torna-se gritaria, e o país torna-se um palco onde os mais ruidosos parecem os mais sábios — por simples falta de contraditório interno.

O resultado é uma "democracia" em que se decide o futuro com o instrumento intelectual do momento: o reflexo. A indignação. O medo. A tribo. A frase curta. O meme. O "vi num vídeo". E depois chamamos a isso "opinião informada". Claro. Também se pode chamar "vinho" à água com corante.

O que falta? Falta aquilo que dá trabalho

Falta uma coisa simples e brutal: leitura aturada. Não como adorno. Não como romantismo de biblioteca. Mas como disciplina central de cidadania. Ler autores difíceis. Ler ideias que incomodam. Ler contra as nossas certezas. Ler para aprender a argumentar, para aprender a duvidar, para aprender a sustentar uma conclusão sem insulto nem histeria.

Filosofia para distinguir argumento de truque. Sociologia para perceber estruturas e poder. Literatura para treinar empatia e nuance humana. Ciência para aprender método e humildade perante a realidade. Sem isto, não há liberdade — há apenas circulação. Como um carro sem direcção: anda, faz barulho, mas não sabe para onde vai.

Epílogo duro: um país sem leitura é um país sem futuro

O futuro constrói-se com visão longa. E visão longa exige memória, linguagem, cultura, pensamento. Um país que forma elites com meia dúzia de livros lidos (se tanto) não está a construir liberdade: está a construir obedientes bem treinados, prontos para repetir frases bonitas e aceitar soluções fáceis para problemas intrincados.

E depois perguntamos: "Que sociedade, que país, que futuro estamos a construir?" Estamos a construir um país onde a ignorância veste fato, fala com convicção e exige aplauso. Um país onde o saber profundo é considerado arrogância, e o pensamento crítico é tratado como mau feitio, de "trato dificil", "gosta de complicar", etc. Um país onde a liberdade é proclamada… mas raramente é compreendida.

Há saída? Há. Mas dá trabalho. E a nossa época, como se sabe, prefere soluções rápidas. A leitura, essa velha rebeldia silenciosa, continua à espera — como uma porta que só abre por dentro.

Referências (iliteracia, literacia e competências em Portugal)

FONTES INTERNACIONAIS (alta credibilidade)
FONTES PORTUGUESAS (institucionais e estudos credíveis)
LITERACIA (inclui literacia em saúde — um ângulo muito revelador)
Nota curta para enquadramento:
"Analfabetismo" (não saber ler/escrever) é apenas a parte visível. A iliteracia funcional e a baixa literacia (compreender, interpretar, argumentar, usar informação com rigor) são o subterrâneo — e é aí que a democracia começa a tremer.
Artigo de opinião de : Francisco Gonçalves
com co-autoria Editorial de Augustus Veritas — porque a liberdade não se herda: conquista-se, página a página.
🌌 Fragmentos do Caos: Blogue Ebooks Carrossel
👁️ Esta página foi visitada ... vezes.