Portugal: Impostos de País Rico, Serviços Públicos Degradados — e um Verão em Chamas

- Economia frágil e dependente de turismo e serviços de baixo valor acrescentado.
- Impostos ao nível de países ricos; serviços públicos com sinais de degradação.
- Pobreza persistente, salários baixos e precariedade como horizonte para muitos.
- Sem-abrigo em crescimento; urgência social a disputar oxigénio com a propaganda.
- Contradição anual: discursos globais sobre clima e, no Verão, o país entregue ao fogo.
Portugal: Impostos de País Rico, Serviços Públicos Degradados — e um Verão em Chamas
Portugal é um país pobre, com uma economia frágil, maioritariamente centrada no turismo — esse motor altamente volátil que sorri ao sol e tosse à primeira sombra — e em serviços de baixo valor acrescentado. O resultado é uma espécie de prosperidade em cartão: bonita à vista, mole ao toque, e incapaz de aguentar a chuva.
A fuga a impostos e a evasão para paraísos fiscais, aliadas a uma corrupção alta e teimosa, ajudam a empurrar o país para taxas de pobreza que envergonham qualquer discurso oficial. E, enquanto isso, o quotidiano vai-se fazendo de salários de miséria e empregos precários, como se a instabilidade fosse um desígnio nacional e não um fracasso político.
O imposto como luxo — o serviço como esmola
O paradoxo é de uma crueldade silenciosa: pagam-se impostos dignos de países ricos e recebe-se, demasiadas vezes, uma prestação de saúde e educação degradada, remendada, congestionada, por vezes capturada por interesses, e quase sempre entregue à resignação como método de gestão. O SNS e a escola pública vão envelhecendo com o país — mas sem a dignidade da velhice: envelhecem com filas, com roturas, com desgaste, com a sensação de que a normalidade passou a ser a excepção.
E, no meio desta paisagem social, há um dado que é um murro sem metáfora: mais de 14.000 pessoas vivem sem tecto e sem abrigo, e em menos de 10 anos esse número duplicou. Isto não é um "fenómeno". Não é uma "tendência". É o retrato de um Estado que se habituou a perder gente pelo caminho — e a chamar a isso "complexidade".
Elites de costas voltadas — e o país a pedir licença para existir
Perante este cenário dantesco e um futuro humilhante, governantes e elites dedicam-se, muitas vezes, a escrever — com ar grave e sobrancelha bem treinada — sobre causas longínquas, slogans globais e agendas que não tocam a vida concreta de quem acorda cedo para ganhar pouco, pagar muito e esperar o resto em fila.
Não se trata de negar o mundo. Trata-se de não abandonar o país. Porque há um ponto em que a retórica, quando ignora o chão, deixa de ser visão: passa a ser fuga.
Alterações climáticas — e o ritual anual do fogo
Para cúmulo, exibe-se preocupação diária com as alterações climáticas mundiais, ao mesmo tempo que, no Verão, se deixa o país arder profusamente — como se o fogo fosse um detalhe administrativo, e não um colapso repetido. A cada estação quente, Portugal transforma-se num altar de cinzas, frequentemente entre as maiores áreas ardidas da Europa, num padrão tão previsível que quase dá para marcar no calendário: Junho, Julho, Agosto — e o resto é fumo.
E aqui nasce a pergunta que ninguém gosta de ouvir porque cheira a verdade: se isto não é um sinal de insanidade — ou de uma ineficácia que já não cabe no vocabulário — então o que será? Talvez seja só o nome antigo do nosso maior vício: a normalização do desastre e a pobreza que se entranha pela inépsia e incompetência medíocre.
O futuro não se decreta — constrói-se
Um país não se salva com comunicados, nem com relatórios que parecem romances longos sem enredo. Salva-se com competência, continuidade, financiamento sério, fiscalização real, e uma coragem rara: a de enfrentar interesses instalados. O futuro não é um palco para elites discursarem. É uma oficina — e nela não há lugar para mãos limpas de trabalho.
Portugal pode ser mais do que esta soma de contradições. Mas terá de escolher: ou a lucidez que reforma, a coragem que resolve a complexidade instalada, ou então o hábito que incendeia e normaliza a pobreza e hipoteca o futuro da nação.
Co-autoria editorial: Augustus Veritas