Portugal em Realidade Alternativa: quando a urgência morre à espera

- Contexto: Notícias e relatos públicos recentes sobre demoras na resposta do INEM e consequências fatais.
- Casos noticiados: Morte no Seixal após quase três horas de espera por socorro (6 de Janeiro de 2026). 0
- Outras ocorrências na mesma semana: ECO reporta três mortes na mesma semana associadas a esperas por meios de socorro, incluindo Tavira (mais de uma hora) e novo caso no Seixal (44 minutos). 1
- Nota essencial: O debate público centra-se em triagem, falta de meios, retenção de macas e coordenação operacional. 2
Portugal em Realidade Alternativa: quando a urgência morre à espera
O país real não se governa por conferência de imprensa. Governa-se por resposta — e resposta, na emergência médica, chama-se tempo. Quando a assistência demora entre uma e três horas, o tempo deixa de ser apenas um número: torna-se um juiz. E o juiz, quando chega tarde, já não julga — assina óbitos.
A bolha: o Portugal que fala como se o país fosse um slide
O que mais inquieta não é apenas a falha operacional — é a sensação de que, do lado do poder, se vive numa espécie de país "bilha": um Portugal de gabinete, onde tudo é "monitorizado", "avaliado", "em articulação", "em revisão". Um Portugal onde a palavra "amanhã" é sempre uma promessa vaga, e nunca um compromisso com sangue e osso.
E quando um responsável não consegue explicar com segurança, simplicidade e rigor como se garante a resposta de emergência — nem assegurar aos cidadãos que a repetição imediata será evitada — o problema deixa de ser comunicação. Passa a ser governação: porque governar é, antes de tudo, saber como funciona o motor quando o carro está a arder.
O país real: o relógio, a chamada e o silêncio
Um homem de 78 anos morreu no Seixal depois de quase três horas à espera de socorro — um caso noticiado com detalhe, com "fita do tempo", com prioridades, com intervalos que, vistos no papel, parecem administrativos; vistos na vida, são irreversíveis. 3
E não se trata de um episódio isolado perdido na neblina das estatísticas. O ECO reportou, nesta mesma semana, outros casos fatais associados a esperas por meios de socorro — incluindo Tavira e novo caso no Seixal. 4
Aqui, o que se ouve nas casas não é o som da política. É o som da ansiedade: "já vem?", "estão a caminho?", "disseram quanto tempo?", "fazemos o quê?". E depois, por vezes, o som mais pesado de todos: a ausência — quando o país chega tarde.
Quando o Estado falha no essencial, tudo o resto é retórica
Um Estado pode falhar em projectos. Pode falhar em reformas. Pode falhar em metas. Mas quando falha na resposta a uma urgência vital, falha no "contrato" mais antigo entre sociedade e poder: eu pago, eu cumpro, eu confio — e tu apareces quando a vida está por um fio.
E não: isto não se resolve com frases de espuma. "Vamos abrir um inquérito" é útil, mas não ressuscita. "Vamos auditar" é necessário, mas não chega. O cidadão não quer poesia burocrática; quer uma garantia simples: se eu cair amanhã, alguém vem.
A anatomia da irresponsabilidade: o país das médias
Há uma velha técnica portuguesa para anestesiar tragédias: diluí-las. Em vez de "uma pessoa morreu à espera", diz-se "o tempo médio está dentro do esperado". Em vez de "faltaram meios", diz-se "a procura aumentou". Em vez de "a cadeia falhou", diz-se "o sistema é complexo".
Mas uma morte não é uma média. Uma família não é uma percentagem. E uma hora de espera, numa paragem cardiorrespiratória, não é "pressão" — é sentença.
O que seria normal num país normal
Num país minimamente sério, depois de sucessivas ocorrências graves, haveria três respostas imediatas, sem teatro:
- Transparência operacional diária: tempos reais por região, falhas, indisponibilidades, e medidas activas no mesmo dia.
- Comando e responsabilidade: quem decide a triagem, quem gere a frota, quem articula com bombeiros, quem responde publicamente com factos — e não com neblina.
- Plano de contingência "de verdade": reforço temporário de meios onde o risco é maior, protocolos de activação automática e redundância (porque a vida não espera pela próxima reunião).
E, sobretudo, haveria uma coisa raríssima: humildade. A humildade de dizer: "Falhámos. Aqui está o que mudou hoje. E amanhã não será igual."
Epílogo: o Portugal que pede licença para existir
Há um Portugal que vive em realidade alternativa, onde tudo "está a ser acompanhado". E há o outro Portugal — o que não tem porta giratória, nem assessor, nem tempo para esperar. E assim tudo falha e ninguém é responsabilizado. Um Portugal que, quando liga, não pede favor: pede o mínimo civilizacional.
Quando o Estado não consegue garantir o básico, não estamos perante "um problema do sector". Estamos perante um espelho: e o espelho diz-nos, sem piedade, que a distância entre governar e administrar tornou-se abismo.
O país real não precisa de mais discursos. Precisa de presença. Precisa de resposta. Precisa de um Estado que saiba, finalmente, que Portugal não é uma bolha — é gente.
Crónica crítica — escrita no país real, onde o relógio não perdoa.
Co-autoria editorial: Augustus Veritas (assistente IA).
— RTP: Caso do Seixal e explicação do novo sistema de triagem. 5
— ECO: "Três mortes na mesma semana à espera do INEM". 6