Portugal e a Mediocridade Instalada: Inimiga Figadal da Excelência

- Diagnóstico: a mediocridade tornou-se sistema, cultura e método de sobrevivência.
- Sintoma central: a excelência é tratada como ameaça — não como activo nacional.
- Resultado: quem cria, arrisca e entrega obra real é frequentemente isolado, travado ou empurrado para fora.
- Condenação silenciosa: a emigração deixa de ser escolha e passa a ser evacuação.
- Antídoto: educação exigente, responsabilização e prestígio social para quem constrói — não para quem posa.
Portugal e a Mediocridade Instalada: Inimiga Figadal da Excelência
Em Portugal, a mediocridade não é apenas um acidente. É um habitat. Um ecossistema completo, com regras próprias, guardas de fronteira e um instinto de autopreservação quase perfeito. Não se limita a "existir": organiza-se, reproduz-se, protege-se, premia-se. E, quando necessário, ataca.
A excelência, essa, surge como um animal raro numa aldeia que prefere gado manso. Não porque o povo seja incapaz — longe disso. Mas porque a excelência exige duas coisas que a mediocridade detesta: exigência e responsabilização.
A mediocridade como método
A mediocridade instalada tem um truque antigo e eficaz: confundir cargo com competência, visibilidade com mérito, e discurso com obra. É a república dos "peritos" que não fazem, dos "líderes" que não lideram, e dos "gestores" que nunca construíram coisa alguma a não ser a própria carreira.
A excelência, por contraste, é perigosa porque é uma acusação viva. Ela não precisa de falar: só de existir. Quando alguém entrega resultados, cria valor e resolve problemas, expõe imediatamente a inutilidade dos rituais, dos relatórios vazios e das reuniões que servem apenas para fingir movimento.
O país do "não te estiques"
Há uma frase invisível pendurada em demasiadas paredes: "não te estiques". É o conselho cobarde disfarçado de prudência. É o medo travestido de bom senso. E é o cimento psicológico que torna a mediocridade tão estável.
Quem se "estica" — quem melhora, quem estuda, quem cria — torna-se alvo de uma patrulha de comentários que parece pequena, mas é corrosiva: "Acha-se." "Quer dar nas vistas." "Deve ter cunha." "Isso é complicado." "Aqui nunca se fez assim." Cada frase é um tijolo. No fim, constrói-se uma prisão sem grades.
O assassínio lento do mérito
O mérito não morre de um tiro. Morre por anemia. Morre quando o esforço não é recompensado. Morre quando a competência não é promovida. Morre quando o rigor é tratado como arrogância. Morre, sobretudo, quando o país se habitua ao conforto do medíocre: o suficiente para não cair, insuficiente para subir.
E a mediocridade sabe isto: se todos ficarem "mais ou menos", ninguém a ameaça. A mediocridade não quer adversários. Quer companhia.
A emigração como evacuação
Depois admiram-se — com ar de tragédia nacional — que os melhores emigrem. Mas não é tragédia: é consequência. Não é azar: é lógica. Quando um país trata a excelência como um incómodo, a excelência procura ar.
E há um detalhe cruel: muitos não emigram por dinheiro, apenas. Emigram por espaço. Por respeito. Por ambiente de trabalho onde a competência não é vista como afronta. Emigram para lugares onde a frase "entreguei resultados" não provoca ódio; provoca convite para fazer mais.
A mediocridade como regime
No pós-25 de Abril, instalou-se muitas vezes um teatro onde o essencial é manter o aparelho: promover lealdades, distribuir lugares, garantir a sobrevivência do mecanismo. E, nessa engrenagem, a excelência é um risco — porque exige transparência, mede resultados, faz perguntas difíceis, e recusa o folclore.
A mediocridade instalada é a forma mais barata de governar: basta gerir expectativas, encenar reformas, e garantir que a máquina nunca deixa de girar. O país pode ficar parado — desde que o poder não pare.
O antídoto: educação e honra pública para quem constrói
Se há saída, ela começa como frequentemente tenho escrito por : revolução na educação e na sociedade. Uma educação que forme gente capaz de pensar, discutir, criar, errar e corrigir. E uma sociedade que volte a respeitar quem constrói, em vez de venerar quem se exibe. É o criar uma cultura do " ser em vez de parecer.". O primeiro promete entregar resultados; o segundo basta fingir, e o sucesso está garantido.
A mudança não virá de slogans. Virá de três coisas simples e ferozes: exigência, consequências e prestígio do trabalho bem feito. Quando um país muda os seus heróis, muda o seu destino.
E é bem visivel em Portugal : premieam-se jogadores e treinadores de futebol, fadistas e outeas figuras decorativas, enquanto figuras da cultura ou de realizacoes de comprovada excelência na sociedade civil, têm sido, década apos década, ignoradas, salvo excepções de "amigos" do partidarismo estatizado e medíocre.
Epílogo: o futuro não perdoa
O mundo não espera por quem se contenta com "mais ou menos". A história não condecora burocracias: condecora obra. E o futuro — esse juiz sem compaixão — não perdoa países que desperdiçam os melhores para proteger os piores.
Portugal pode escolher: ou continua a ser um exportador de excelência e importador de desculpas, ou decide, finalmente, fazer da competência uma política de Estado. Porque a mediocridade instalada é confortável… mas a conta chega sempre. E chega com juros.
Fragmentos do Caos
Texto para quem recusa ajoelhar perante o banal. A mediocridade é atrevida e arrogante; a excelência é exigente, questiona e é dificil de suportar", porque incomoda a medíocridade que "tomou conta disto tudo". É a antiga fábula da cobra e do pirilampo Há também estudos cientificos que demonstram bem este paradigma e o princípio mais conhecido é o Efeito Dunning-Kruger, cuja leitura recomendo vivamente.