BOX DE FACTOS
  • Dinheiro não é sinónimo de riqueza: pode ser apenas acumulação estéril.
  • Uma elite que vive da renda tende a travar a inovação: não arrisca, não investe, não constrói.
  • Quando o capital foge para offshores, a economia fica sem músculo: menos indústria, menos ciência, menos futuro.
  • Usura social: salários baixos, consumo caro, lucros altos, investimento baixo.
  • Um país de "endinheirados" é, frequentemente, um país pobre em produtividade e ambição.

A República dos Endinheirados

Em Portugal, há quem confunda cofre com fábrica, saldo com progresso e dinheiro parado com virtude. O resultado é uma nação que conta milhões… e vive a tostões.

Diz-se por aí, com a solenidade dos salões e o hálito do charuto, que Portugal tem ricos. Mentira piedosa. Portugal tem, isso sim, endinheirados: gente com dinheiro em excesso e futuro em défice. Uma espécie de aristocracia contabilística, cuja grande obra civilizacional é a folha Excel e cuja coragem histórica cabe num envelope timbrado.

O rico verdadeiro — esse animal raro — não é o que colecciona propriedades como quem colecciona carimbos. O rico verdadeiro faz acontecer: ergue indústria, financia ciência, arrisca capital, paga bem, cria marca, abre caminho. O endinheirado, pelo contrário, faz outra coisa: faz render. E rende. E rende. E rende. Até que o país, exausto, se torna uma máquina de lavar esperança.

O patriotismo do cofre

Há um tipo de patriotismo que se usa muito: o patriotismo de peito cheio e bolso ausente. Canta-se o hino em feriado, abraça-se a bandeira em finais, e no dia seguinte faz-se o percurso normal :Portugal para ganhar, paraíso fiscal para guardar. O amor à pátria, para alguns, é um sentimento com cláusulas — e com morada fiscal alternativa.

E aqui entra a grande comédia nacional: a deserção fiscal com pose de mérito. Não é fuga, dizem; é "planeamento". Não é evasão, juram; é "optimização". Não é abandono do país, garantem; é "gestão de risco". O risco, claro, é sempre o mesmo: o risco de contribuir para a sociedade que lhes serviu de mina.

A usura moderna: salários anémicos, lucros obesos

O endinheirado português tem um talento peculiar: consegue declarar amor ao empreendedorismo enquanto trata o trabalhador como custo descartável. Quer inovação barata, talento barato, tempo barato, risco barato. Mas quer lucros caros. Muito caros. E, rápidos, se possível, sem impostos, porque os impostos… ai os impostos… esses monstros que financiam coisas desagradáveis como escolas, hospitais, estradas e tribunais.

A fórmula é simples e cruel: paga-se pouco, vende-se caro, exporta-se a conta e importa-se a vaidade. Depois admiram-se que a produtividade seja baixa, que os jovens emigrem, que o país envelheça, que a indústria definhe. É a velha surpresa de quem queima a casa e estranha o cheiro a fumo.

Capital que não circula é sangue que não chega ao cérebro

Um país não se desenvolve com o dinheiro enfiado em colchões dourados. Dinheiro parado não é prudência: é esterilidade económica. É capital a olhar para o tecto, a contar juros, enquanto a realidade conta falências. E depois perguntam: "Mas porque não há indústria tecnológica?" Porque a tecnologia exige aquilo que o endinheirado mais detesta: risco, paciência e visão.

Investir em projectos tecnológicos e numa base industrial competitiva não é caridade, é inteligência. O capital que financia produção, ciência e engenharia multiplica-se — e multiplica o país com ele. Mas isso exigiria uma elite com nervo, com ética, com horizonte. E nós, em muitos casos, temos apenas uma elite com seguro, muitas vezes corrupta e alimentada pelo orçamento de Estado, o dinheiro de todos nós.

A grande ironia: quanto mais dinheiro, menos futuro

Eis o paradoxo português: há gente com muito dinheiro, mas há pouca riqueza. São de facto pobres is nossis ricos! Há luxo, mas não há músculo. Há carros, mas não há laboratórios. Há casas de luxo, jatos particulares, embarcações luxuosas... mas não há fábricas. Há rendas, mas não há rendimentos que venham da criação real de riqueza no país.

E assim se monta o cenário do país cinzentão: uma economia a andar devagar, como quem empurra um carro sem gasolina, enquanto os "vencedores" assistem da varanda, com um copo na mão e uma offshore no coração. A nação, essa, fica a pagar a conta — sempre com juros de humilhação.

Epílogo: a riqueza é um dever

Numa sociedade decente, os que mais podem teriam responsabilidades acrescidas. Não por moralismo, mas por matemática: sem compromisso dos fortes, os fracos carregam tudo — e caem. E quando o país cai, cai com todos: com o pobre e com o endinheirado, com o estudante e com o herdeiro, com o trabalhador e com o accionista.

Portugal não precisa de mais endinheirados, que se pavoneiam todos os anos, em revistas com o ranking dis "Mais ricos de Portugal". Precisa de ricos: gente que compreenda que o dinheiro, sozinho, é apenas uma moeda fria. Riqueza é outra coisa: é obra, é produção, é emprego digno, é ciência, é indústria, é futuro. E futuro, meu caro país e políticos subservientes, não se compra — constrói-se.

Referências e Leituras de Suporte

Fontes e relatórios (metodologia, dados e enquadramento internacional) que sustentam os temas abordados na crónica: offshore, evasão/abuso fiscal, deslocação de lucros, desigualdade e impacto macroeconómico.

  1. EU Tax Observatory — "Who owns the wealth in tax havens? Macro evidence and implications for global inequality" (síntese e repositório).
    https://www.taxobservatory.eu/repository/who-owns-the-wealth-in-tax-havens-macro-evidence-and-implications-for-global-inequality/
  2. IMF – Finance & Development — "Offshore tax havens and inequality" (nota com base em estimativas de riqueza offshore a nível global).
    https://www.imf.org/-/media/files/publications/fandd/article/2019/september/offshore-tax-havens-and-inequality-picture.pdf
  3. Tax Justice NetworkState of Tax Justice 2024 (perdas fiscais globais, offshore wealth e enquadramento do abuso fiscal).
    https://taxjustice.net/wp-content/uploads/2024/11/State-of-Tax-Justice-2024-English-Tax-Justice-Network.pdf
  4. Tax Justice Network — Nota metodológica do State of Tax Justice 2024 (como são estimadas componentes ligadas a riqueza offshore).
    https://taxjustice.net/wp-content/uploads/2024/11/sotj2024_methodology_offshoreWealth.pdf
  5. Atlas of the Offshore World — Dataset interactivo de estimativas de riqueza financeira offshore por país (séries e downloads).
    https://atlas-offshore-world.org/dataset/offshore-financial-wealth
  6. OECD — "Harmful Tax Practices: 2024 Peer Review… (Portugal)" (transparência e troca de informação sobre tax rulings).
    https://www.oecd.org/en/publications/harmful-tax-practices-2024-peer-review-reports-on-the-exchange-of-information-on-tax-rulings_c069a357-en/full-report/portugal_f3a00657.html
  7. OECDOECD Economic Surveys: Portugal 2026 (recomendações macro: investimento, produtividade, estrutura económica).
    https://www.oecd.org/en/publications/oecd-economic-surveys-portugal-2026_025b3445-en.html
  8. Banco de Portugal — Estatísticas e comunicados sobre International Investment Position (enquadramento da posição externa e fluxos).
    https://www.bportugal.pt/en/comunicado/statistical-press-release-international-investment-position-march-2020
  9. PwC – Worldwide Tax Summaries (Portugal) — medidas BEPS e enquadramento fiscal corporativo (visão de síntese técnica).
    https://taxsummaries.pwc.com/portugal/corporate/other-issues
  10. Bank of England (workshop paper) — trabalho académico amplamente citado sobre riqueza offshore e distribuição por grupos.
    https://www.bankofengland.co.uk/-/media/boe/files/events/2022/june/workshop-hf-and-alstadsaeter-paper.pdf
Nota editorial: as estimativas de riqueza offshore variam com a metodologia (fontes macro, entrevistas, leaks, dados bancários, etc.).

Referências — Fugas Fiscais, Evasão de Capitais e Paraísos Fiscais (Portugal)

Leituras e fontes oficiais/institucionais que sustentam o enquadramento do artigo: legislação portuguesa sobre "regimes claramente mais favoráveis", relatórios públicos de combate à fraude/evasão, e estatísticas sobre investimento e posição externa (incluindo componentes associadas a centros offshore).

  1. Diário da República — Portaria que actualiza a lista portuguesa de "regimes de tributação claramente mais favorável"
    Portaria n.º 292/2025/1 (05-09-2025)
    https://diariodarepublica.pt/dr/detalhe/portaria/292-2025-934278891
  2. Diário da República — Base legal para o relatório anual de combate à fraude e evasão
    Lei Geral Tributária (Artigo 64.º-B — "Combate à fraude e à evasão fiscais")
    https://diariodarepublica.pt/dr/legislacao-consolidada/decreto-lei/1998-34438775-108042209
  3. Assembleia da República / AT / IGF — Relatório sobre o Combate à Fraude e Evasão Fiscais e Aduaneiras
    Relatório RCFEFA 2024 (PDF, publicado em 2025)
    https://app.parlamento.pt/webutils/docs/doc.pdf?Inline=true&fich=RCFEFA+2024_VFSEAF.pdf&path=3x3hrKU2EkxTbuXV6HXVzMhVBQT%2FFWvhxdm7XkRFbfYUZIOjxlJYR2OgEMPl1V5T4BLo99Chl5KZFg2H3gP5Q%2F6ClZdBGlIZOej0jRidsYtVSloP9zGP6nkn1l7uSIi4bcsalGhAQHwevVRAbAJBqUu6zrZeYtwro8pd0NuHdStnVyYhpIl0Fz2I9wWi5%2Fjs9dJqiOgMT%2FFv%2F0kj2khe2C3LoU7p2rXb6NyO4ViQnPc9zByCJWD9M218jOMlZ4xwTd0r9k7jk0YsDwjTvZaqCLVMYYEr1V928d0FhOt4E8Nd0HXj3ALkg6D2FBDKjua4jgSzPIcu8xvNbX5O93seSjRGOok5WLzA0cKhOSYaKzgT7uA5pG5nz4FwjJYcmPzTYn5tgBrb%2FfF01UWVxZ5rGsSa2vblZ0XyrtFWlkXbWslCeoKEgFuRik%2FJfZ%2BsJrveXSCRKosRF%2Bw1S8HoHUygV3AvLZnbvbeaAbppclAPVV3HBVNzj8uQImGtMtR%2BZd5IXJBpVINLjuKqXs9Ql8NpNLMNrfXtrFMXH5GLgvQ4AzszwZ1qJQqJlRUBX9t1%2FHIQX7DS%2FkJgCM1Md7bSFNpfGzV6ncFge5%2BrTWmHp4tbuGS70qCurv8XdxuSJxEp6EO0nZtqNI5xNTrRDfcNL6iaqw%3D%3D
  4. Banco de Portugal (BPstat) — Posição de Investimento Internacional (PII)
    Portal BPstat — domínio PII (séries e downloads)
    https://bpstat.bportugal.pt/dominios/4
  5. Banco de Portugal (BPstat) — Investimento directo de Portugal em países off-shore
    Série BPstat (indicador específico "países off-shore")
    https://bpstat.bportugal.pt/serie/12572299
  6. Banco de Portugal — Nota estatística sobre Investimento Directo (inclui enquadramento e leitura de fluxos)
    "Investimento direto: nota de informação estatística de junho de 2025"
    https://www.bportugal.pt/comunicado/investimento-direto-nota-de-informacao-estatistica-de-junho-de-2025
  7. Tax Justice Network — Estado Atual da Justiça Fiscal 2024 (PDF, em português)
    Perdas, abuso fiscal e enquadramento global (inclui metodologia e comparações internacionais)
    https://taxjustice.net/wp-content/uploads/2024/11/State-of-Tax-Justice-2024-Portuguese-Tax-Justice-Network.pdf
  8. Tax Justice Network — Corporate Tax Haven Index (perfil de Portugal)
    Indicadores de facilitação de abuso fiscal corporativo (versão 2025/actualizações)
    https://cthi.taxjustice.net/countries/pt
  9. EU Tax Observatory — "Who owns the wealth in tax havens?"
    Evidência macro sobre riqueza offshore e concentração no topo; implicações para desigualdade
    https://www.taxobservatory.eu/repository/who-owns-the-wealth-in-tax-havens-macro-evidence-and-implications-for-global-inequality/
  10. Documentação metodológica (BPstat) — para leitura rigorosa das séries
    Notas metodológicas e definições oficiais usadas nas estatísticas
    https://bpstat.bportugal.pt/documentacao-metodologica
Nota editorial: "Fuga de capitais", "evasão fiscal", "elisão/planeamento abusivo" e "investimento via centros offshore" não são sinónimos. Por isso, a secção combina fontes legais (lista oficial e dever de relatório), fontes operacionais (relatórios AT/IGF) e fontes estatísticas (Banco de Portugal), complementadas por relatórios internacionais (TJ Network / EU Tax Observatory) para enquadramento comparativo.
Francisco Gonçalves
Co-autoria editorial: Augustus Veritas — Fragmentos do Caos News Team

A República da Mediocridade - "O Portugal que se vende em PowerPoints."
Um país embalado em slides bonitos, com setas ascendentes, gráficos coloridos e palavras mágicas — resiliência, transição, bazuca, hub, startups — enquanto, fora do projector, a realidade range como uma fábrica abandonada. Vendemos Portugal em apresentações, mas vivemos Portugal em prestações.
- Francisco Gonçalves
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