Portugal: A Democracia de Papel de Embrulho e a República dos Medíocres

- Democracia representativa que funciona por ritual, mas falha por substância.
- Constituição citada em discursos e ignorada na prática quotidiana.
- Educação tratada como custo, quando é o único investimento que cria futuro.
- Economia com dinheiro no topo: evapora; na base: circula e constrói país.
- Mediocridade instalada: unida, defensiva e perita em manter tudo na mesma.
A Democracia de Papel de Embrulho e a República dos Medíocres
I. O Estado de Direito (em teoria) e o Estado de Jeito (na prática)
O Artigo 2.º diz que somos um Estado de direito democrático, com soberania popular, pluralismo, separação de poderes e direitos fundamentais garantidos. É um texto bonito. Tão bonito que, por vezes, parece escrito para turistas constitucionais e excursões escolares.
Porque depois abre-se a porta do dia-a-dia e entra a realidade: a soberania popular reduzida a um voto de quatro em quatro anos, o pluralismo comprimido num corredor estreito onde só passam partidos com cartão de acesso, e a separação de poderes transformada numa elegante coreografia: cada um faz o seu número, todos aplaudem, e ninguém responde quando o palco arde.
A democracia moderna aperfeiçoou uma arte antiga: não precisa de combater quem pensa diferente. Basta ignorar. O silêncio institucional é a mordaça mais eficiente: não deixa marcas, não cria mártires e não dá trabalho à censura.
II. Medíocres e Perigosos: o sindicato da mesma mesmice
Diz-se, com frequência, que a mediocridade é um defeito. Não. Em Portugal, a mediocridade é um sistema de defesa. O medíocre isolado é inofensivo; em grupo, torna-se regime. Não arrisca, não se expõe, não assina, não decide. Vive de adiar, diluir, confundir e chamar "prudência" ao medo.
A mediocridade tem uma virtude operacional: é unida. Não por amor à pátria, mas por amor ao conforto. E quando alguém aparece com ideias, visão ou simples competência, o colectivo reage como o corpo reage a um vírus: tenta expulsar o elemento estranho. Primeiro rotula. Depois ridiculariza. Por fim, arquiva.
É assim que um país se torna um museu vivo: não por falta de talento, mas por excesso de guardas de sala. Guardas que protegem a peça principal: a imobilidade.
III. Educação: o crime perfeito (com recibo e carimbo)
Jean Piaget deixou-nos a chave: o professor não "enche", cria situações para a criança descobrir. Quase um século depois, continuamos a praticar uma pedagogia que parece ter sido desenhada para uma fábrica de 1920: filas, sinetas, silêncio, obediência, cópias e medo do erro.
Depois admiram-se que o cidadão não pense pela própria cabeça, que confunda "esperteza" com inteligência, que aceite a trela como colar, e que chame "realismo" à resignação. Um povo educado para não perguntar não tem ferramentas para exigir. E uma democracia sem cidadãos exigentes é só um teatro com bilhetes baratos.
Uma sociedade que troca mérito por visibilidade, carácter por fama, e pensamento por aplauso rápido, acaba inevitavelmente governada por quem sabe representar, não por quem sabe fazer.
- Francisco Gonçalves
O mais trágico é quando se insinua que o ensino não deve ser gratuito, como se a educação fosse um luxo, um spa intelectual para quem pode pagar. É uma ideia simples: se o povo não aprende a pensar, não incomoda. E se não incomoda, governar torna-se uma actividade relaxante.
E assim se construiu, ao longo das ultimas décadas, uma pedagogia do conformismo. Citando Swift : "Das nossas gentes, o melhor delas, está debaixo da terra, tal como as batatas." Não falo de herança material. Falo de herança mental. De gente que vive do nome, do passado, do apelido, da posição na hierarquia, mas não acrescenta uma única linha à história comum. Daí que os únicos que esta democracia destaca e medalha a todo o momento, são jogadores de futebol e "fadistas". Haverá pior sintoma de mediocridade de toda uma nação, que isto !? Talvez Portugal seja menos conhecido pelo mundo do que Cristiano Ronaldo, e isto é deprimente!
IV. A economia como truque de palco: dinheiro no topo, povo na plateia
Quando o país recebe fundos e milhões, há sempre quem descubra a mesma fórmula milagrosa: distribuir o "prémio" pela rede dos amigos, pela maquilhagem do sistema, pelos consultores de luxo e pelos santos padroeiros do expediente.
Uma alternativa simples (e perigosa para o costume) seria reforçar o rendimento de quem trabalha, subir o salário mínimo de forma séria e atacar a corrupção e a economia de vão de escada. Não por romantismo: por mecânica económica. O euro na base circula, compra, paga impostos, sustenta comércio, alimenta PME. O euro no topo faz turismo fiscal, compra silêncio e estaciona em "velhices" muito confortáveis.
Mas para fazer isto era preciso coragem. E a coragem não dá jeito, dá trabalho. Dá inimigos. Dá responsabilidade. E a mediania instalada prefere o conforto: o país definha, mas o carro é topo de gama e o discurso vem polido.
V. Governação aberta: a liberdade não é um slogan, é um método
A boa notícia (sim, existe) é que há uma forma de liberdade que não precisa de milagres: governação aberta e transparente. Orçamentos legíveis, contratos públicos pesquisáveis, decisões rastreáveis, participação real e acessível, poder local com portas e dados abertos.
Tecnologicamente, isto está ao alcance. O obstáculo não é técnico: é cultural. Um governo aberto obriga quem governa a perder o vício mais antigo do poder: a opacidade. E, em Portugal, a opacidade é um património imaterial com séculos de protecção.
Ainda assim, a liberdade é teimosa: volta sempre. Não volta pela mão dos "prudentíssimos", mas pela insistência dos cidadãos que recusam ser figurantes.
Epílogo: a esperança não é um partido, é um tipo de pessoa
A esperança não está nos cartazes nem nos comícios. Está nas pessoas verdadeiramente livres: as que não se vergam, não se vendem, não se calam, não pedem desculpa por pensar. Essas pessoas são poucas, mas são sementes. E as sementes têm uma vantagem sobre o lodaçal: mesmo enterradas continuam a trabalhar em silêncio.
Portugal não precisa de salvadores. Precisa de cidadãos. E precisa, acima de tudo, de uma escola que ensine a perguntar, de instituições que respeitem a palavra "direito", e de uma economia que se lembre de quem lhe dá sangue: o trabalho.
Crónica para o Fragmentos do Caos — co-autoria editorial com Augustus Veritas.