BOX DE FACTOS
  • Diagnóstico: nas redes sociais, o cidadão foi substituído por "tribos" — cliques organizados, militantes e bandos de ataque.
  • Motor: algoritmos recompensam conflito e indignação, não nuance nem verdade.
  • Instrumento: partidos e interesses privados alimentam tribos para intimidar, saturar e controlar narrativas.
  • Vítima: o povo sem claque — quem não tem "exército" digital — fica sem defesa e sem representação.
  • Imprensa: actua como tribo polida: enquadra, selecciona, protege ideologias e grupos — raramente serve o bem-comum.
  • Resultado: uma democracia ruidosa, mas vazia — uma "democracia dos canalhas" onde o bem-comum é insultado como ingenuidade.

A Democracia das Tribos

Nas redes sociais já não existem cidadãos. Existem tribos. Algumas por fé, outras por ódio, muitas por paga. E, no meio do ruído, a cidadania — essa coisa rara chamada bem-comum — foi empurrada para o canto, como um mendigo incómodo.

I — O fim do cidadão: a praça pública virou arena

Um cidadão é alguém que pensa o colectivo, mesmo quando isso lhe custa conforto. Uma tribo é alguém que defende o seu lado, mesmo quando isso destrói o país. A diferença parece filosófica, mas é prática: o cidadão faz perguntas; a tribo faz barulho. O cidadão procura verdade; a tribo procura vitória.

As redes sociais não foram desenhadas para produzir cidadania. Foram desenhadas para produzir atenção. E a atenção, no mundo moderno, é uma moeda que se compra com indignação. O algoritmo não pergunta se tens razão — pergunta se dás cliques. E o clique, como se sabe, é o novo voto: rápido, cego, emocional, repetível.

II — Tribos pagas e tribos úteis: os exércitos do teclado

Há tribos espontâneas — gente que se junta por identidade, medo, pertença. Mas há um fenómeno mais grave: tribos alimentadas. Não precisa ser um envelope; basta ser um convite, uma promessa, uma avença, uma "mordomia", um lugar na fila do benefício, uma senha de acesso ao pequeno poder.

E depois existem as tribos "úteis": não recebem nada, mas recebem o mais viciante dos narcóticos — a sensação de estar do "lado certo", de bater palmas ao chefe, de participar na execução pública do adversário. Quando a política percebe isto, usa-o. E quando o sistema aprende a usar, defende-se da cidadania.

III — O método: saturar, intimidar, desviar

As tribos funcionam como muralhas vivas. Quando alguém critica o sistema, não responde o sistema: respondem vinte perfis, cinquenta comentários, cem insinuações. Não discutem ideias — atacam pessoas. Não debatem propostas — montam julgamentos. A missão não é esclarecer; é cansar.

Saturar é vencer. Intimidar é vencer. Desviar é vencer. Porque o objectivo final é sempre o mesmo: impedir que a pergunta perigosa sobreviva tempo suficiente para virar consciência pública. A tribo não quer verdade. Quer silêncio. E, se não consegue silêncio, quer ruído.

IV — A democracia dos canalhas: representação para quem tem claque

A democracia deveria ser o lugar onde o povo se representa a si próprio. Mas quando o espaço público é controlado por tribos, a regra muda: representa-se quem tem claque.

O cidadão comum — o que trabalha, paga, tenta educar filhos, cuidar de pais, sobreviver ao mês — não tem tempo para ser soldado digital. Não tem "equipa de comunicação". Não tem "linha editorial". E por isso fica sozinho, num país que o usa como contribuinte e o ignora como sujeito político.

Isto é aquilo a que eu venho chamando de democracia dos canalhas: não porque toda a gente seja canalha, mas porque o sistema recompensa os métodos canalhas e as canalhices. E o que é recompensado, repete-se geração após geração.

V — A imprensa: a tribo polida com gravata e voz serena

Depois há a imprensa. Não a imprensa ideal — essa já é quase literatura. Falemos da imprensa real, que muitas vezes opera como uma tribo de luvas brancas: não grita, mas enquadra; não insulta, mas selecciona; não ataca frontalmente, mas normaliza.

A tribo do comentário ataca com pedras. A tribo polida ataca com agenda. Ambas protegem "ideologias" da "terra do nunca", e acima de tudo "interesses" — e raramente escrevem sobre conceitos essenciais: o bem-comum, a justiça fiscal, a transparência radical, a dignidade do trabalho, o direito a uma vida normal num país que se vende como postal.

O bem-comum, hoje, é tratado como ingenuidade. E quando um país passa a gozar com o bem-comum, está a assinar a sua própria sentença cultural.

VI — O que a tribo odeia: pensamento, ética, e complexidade

A tribo odeia conceitos. Conceitos obrigam a pensar. A pensar dói. A tribo prefere slogans: cabem num comentário, não exigem prova, não pedem responsabilidade. A tribo prefere o mundo simples: nós bons, eles os maus. A tribo para sobreviver precisa de eleger e apontar inimigos.
A cidadania, pelo contrário, vive do mundo difícil: nós falíveis, eles também; o que importa é o que é justo.

Por isso a tribo ataca quem tenta elevar a conversa. Quem fala de princípios é chamado "moralista". Quem fala de reformas é chamado "radical". Quem fala de transparência é chamado "ingénuo". O sistema agradece: enquanto discutimos etiquetas, não discutimos estruturas políticas, judiciais ou pior, poderes económicos, por vezes abjectos, e que nunca ninguém votou.

Epílogo — restaurar o cidadão é o verdadeiro acto revolucionário

A solução não é vencer a tribo com outra tribo. Isso é perpetuar a doença. A solução é restaurar o cidadão: o ser humano que pensa, que questiona, que não vende o país por um lugar na claque, nem por um convite para a mesa dos "bem relacionados".

A democracia não morre quando alguém grita.A democracia morre quando ninguém consegue falar. Quando ninguém questiona, sabendo-se que a verdadeira democracia e a cidadania, necessitam do contraditório para sobreviver.
Quando o bem-comum é tratado como vergonha. Quando a ética é um meme. Quando a verdade é apenas uma arma.

E nesse dia, o país torna-se um palco de tribos, uma imprensa de narrativas, e um povo sem defesa — condenado a assistir, do lado de fora, à festa de quem sempre esteve lá dentro.

Referências internacionais (tribalização, bolhas, astroturfing e narrativa mediática)

Abaixo ficam fontes internacionais (académicas e institucionais) que sustentam o fenómeno descrito no texto: tribalização, câmaras de eco, amplificação de indignação, coordenação inautêntica e o papel dos media via agenda-setting e framing.

A) Câmaras de eco, bolhas informativas e polarização
  1. Cass R. Sunstein#Republic: Divided Democracy in the Age of Social Media (2017). Princeton University Press. (JSTOR) https://www.jstor.org/stable/j.ctv8xnhtd
  2. Cass R. SunsteinRepublic.com 2.0 (2007). (JSTOR) https://www.jstor.org/stable/j.ctt7tbsw
  3. Pablo BarberáSocial Media, Echo Chambers, and Political Polarization (paper). PDF https://pablobarbera.com/static/echo-chambers.pdf
  4. Kitchens, Johnson & Gray — "Understanding Echo Chambers and Filter Bubbles" (2020). (Darden/University of Virginia) https://www.darden.virginia.edu/sites/default/files/inline-files/05_16371_RA_KitchensJohnsonGray%20Final_0.pdf
B) Indignação moral e amplificação algorítmica
  1. William J. Brady & Molly J. Crockett — "How social learning amplifies moral outrage expression in online social networks" (2021). Science Advances. DOI https://www.science.org/doi/10.1126/sciadv.abe5641
  2. Brady et al. — "Emotion shapes the diffusion of moralized content in social networks" (2017). PNAS. DOI https://www.pnas.org/doi/10.1073/pnas.1618923114
C) Astroturfing digital, coordenação inautêntica e manipulação
  1. Kovic et al. — "Digital astroturfing in politics: Definition, typology, and countermeasures" (2016). (RePEc/OSF) https://ideas.repec.org/p/osf/socarx/7ucsh.html
  2. Schoch et al. — "Coordination patterns reveal online political astroturfing" (2022). Scientific Reports (Nature). https://www.nature.com/articles/s41598-022-08404-9
  3. SAGE Knowledge — verbete "Astroturfing" (enquadramento académico). https://sk.sagepub.com/ency/edvol/encyclopedia-of-social-media-and-politics/chpt/astroturfing
D) Media, narrativa e enquadramento: agenda-setting e framing
  1. McCombs & Shaw — "The Agenda-Setting Function of Mass Media" (1972). (PDF UNC) https://fbaum.unc.edu/teaching/articles/POQ-1972-McCOMBS-176-87.pdf
  2. Robert M. Entman — "Framing: Toward Clarification of a Fractured Paradigm" (1993). (PDF UNC) https://fbaum.unc.edu/teaching/articles/J-Communication-1993-Entman.pdf
  3. Walter LippmannPublic Opinion (1922). (PDF) https://eclass.uoa.gr/modules/document/file.php/MEDIA237/book%20Lippmann%20Public%20Opinion.pdf

Nota editorial: Estas referências servem para sustentar a tese de que a "tribalização" não é apenas um fenómeno psicológico do cidadão, mas também um produto de incentivos algorítmicos, operações coordenadas e molduras mediáticas que substituem o debate por cliques e o bem-comum por narrativas.

Francisco Gonçalves — Fragmentos do Caos
Co-autoria Editorial: Augustus Veritas

Fragmentos do Caos não é um clube, nem uma claque, nem uma tribo. É um lugar de palavra inteira — onde a cidadania não se ajoelha perante o ruído, e onde o bem-comum não é tratado como ingenuidade.

Escrevemos contra a anestesia moral, contra a mentira elegante, contra a corrupção que se veste de normalidade, e contra a violência simbólica que transforma o debate em arena e o povo em figurante. Se este texto te incomodou, talvez seja porque ainda tens nervos — e isso, hoje, já é um acto de resistência.

Fragmentos do Caos — palavra livre, lucidez sem licença, futuro sem tutela.

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