BOX DE FACTOS
  • A censura contemporânea raramente precisa de polícia política: actua por pressão social, custos reputacionais e penalização económica.
  • O espaço público tende a ser moldado por incentivos: dependências institucionais, precariedade e medo de exclusão.
  • Quando o debate se reduz a "tribos", o pensamento crítico é tratado como ameaça e não como serviço público.
  • Sem cidadania activa e sem jornalismo independente, a democracia degrada-se em ritual: voto, ruído, e obediência.

A Censura Moderna: Algema Invisível, Boca Fechada

No regime anterior a censura era bruta, assumida, com o Estado policial como músculo do sistema. Hoje, a censura aprendeu a sorrir: não tortura, asfixia.

Portugal está a viver uma metamorfose perigosa: trocou-se a violência explícita pela disciplina invisível. Antes, o medo vinha do uniformizado e do carimbo. Hoje, o medo vem do olhar colectivo, da turba moralista, do corredor de influência, do "não digas isso", do "não escrevas assim", do "vais ter problemas".

A censura que já não precisa de polícia

A censura modernizou-se. Não precisa de uma polícia política com gabardine e dossiers. Precisa apenas de um ecossistema onde dizer a verdade custa caro: perde-se relações, perde-se oportunidades, perde-se trabalho, perde-se paz. Não há tortura no sentido clássico — há o sufoco sofisticado do cancelamento social e da retaliação económica.

E essa é a genialidade sombria do novo mecanismo: quem cala, "é sensato". Quem fala, "é extremista". Quem questiona, "está a criar instabilidade". Assim se protege o conforto do sistema: não pelo argumento, mas pela punição.

O politicamente correcto como ferramenta de domesticação

O politicamente correcto, quando deixa de ser urbanidade e se transforma em doutrina, torna-se o novo bastão. Não se discute para compreender: discute-se para etiquetar. E a etiqueta é a sentença — social, profissional, simbólica. Um país assim começa a respirar em modo assistido: pensa pouco, repete muito, indigna-se por reflexo, e chama a isso virtude.

O pensamento próprio passa a ser crime de lesa-tribo. A dúvida é vista como traição. A nuance é tratada como fraqueza. E, lentamente, o debate público vira uma passadeira rolante: leva tudo para o mesmo sítio, com as mesmas palavras, os mesmos medos, a mesma obediência.

Jornalismo domesticado, cidadania ausente

Sem imprensa livre, a sociedade perde o espelho e fica apenas com o eco. O jornalista, quando vive cercado por precariedade, dependências, agendas e castigos subtis, aprende a sobreviver: escolhe temas "seguros", evita feridas "sensíveis", e troca investigação por ruído.

E o povo — cansado, ocupado, esmagado — desiste da cidadania. A cidadania exige tempo, leitura, confronto, coragem. Mas um povo em sobrevivência raramente tem forças para fiscalizar. E é precisamente aí que o sistema prospera: quando o cidadão se converte em espectador e o espectador é educado a aplaudir.

O novo fascismo do século XXI: pensamento único e obediência cega.

O "fascismo" contemporâneo nem sempre vem com botas. Muitas vezes vem com hashtags. Não precisa de proclamações — precisa de consenso forçado. Precisa de medo de exclusão. Precisa de um mundo onde a liberdade não é proibida por lei, mas por custo: "podes falar… mas vais pagar."

E então a política deixa de ser coisa do povo. Passa a ser coisa dos partidos, das máquinas, das carreiras, de quem se submeteu social, económica e intelectualmente. Ao povo fica o destino do costume: ser governado, ser estorquido, e chamar a isso "normalidade", como se a submissão fosse uma categoria de maturidade.

Epílogo: "É isto a democracia?"

Quando a verdade é punida e a conformidade recompensada, a democracia já não é governo do povo: é gestão do silêncio. E um povo sem voz, sem imprensa livre e sem cidadania activa é facilmente reprimido — não pela força, mas pelo hábito.

Como diria José Saramago: "É isto a democracia?" Se aceitarmos esta asfixia como preço inevitável da paz social, então já não vivemos em liberdade — vivemos numa versão polida da servidão moderna.

Artigo de opinião de : Francisco Gonçalves
Crónica para Fragmentos do Caos — onde a lucidez não pede licença.
Co-autoria conceptual: Augustus Veritas

Referências (estudos sociais e índices recentes)

  • V-Dem Institute — Democracy Report 2025 (tendências de erosão democrática e "autocratização"). [fonte]
  • World Justice Project — Rule of Law Index 2024 (Estado de direito, justiça e constrangimentos ao poder). [fonte]
  • Reporters Without Borders (RSF) — World Press Freedom Index 2024/2025 (liberdade de imprensa e condições do jornalismo). [fonte]
  • OECD — Drivers of Trust in Public Institutions (2024) (confiança, percepção de integridade e funcionamento do Estado). [fonte]
  • Freedom House — Freedom in the World 2025 (direitos políticos, liberdades civis, tendências comparadas). [fonte]
  • Edelman — Trust Barometer 2025 (crise de confiança, fractura social e percepção de elites). [fonte]
  • Pew Research Center — estudos globais recentes sobre satisfação com a democracia e confiança em instituições (2024/2025). [fonte]
"Tudo se discute neste mundo, menos uma única coisa que não se discute: não se discute a democracia." — José Saramago
🌌 Fragmentos do Caos: Blogue Ebooks Carrossel
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