Portugal: a Casa de Madeira que o Estado Não Quer Ver — Sustentável, Rápida, Acessível

- Problema real: habitação cara, escassa e fora do alcance de grande parte dos portugueses.
- Solução técnica subaproveitada: construção em madeira (industrializada/modular) com bom desempenho térmico e rapidez de execução.
- Travão principal: licenciamento, solo, burocracia e "economia do hábito" (betão como religião nacional).
- O que falta: uma via verde e um catálogo nacional de tipologias pré-aprovadas, com fiscalização séria e metas públicas.
- O que ganhávamos: tempo, custo, sustentabilidade e uma resposta prática para milhares de famílias.
Portugal: a Casa de Madeira que o Estado Não Quer Ver
Portugal vive uma crise de habitação com a serenidade falsa de quem já se habituou ao absurdo. Faltam casas. As que existem custam demasiado. E, no meio do naufrágio, o Estado comporta-se como um capitão que discute a cor do leme enquanto o porão enche de água.
Entretanto, há uma pergunta simples, quase ofensiva pela sua evidência: porque é que Portugal não cria regras claras, rápidas e sustentáveis para construção em madeira — industrializada, modular, eficiente — capaz de reduzir custos e encurtar prazos?
A Madeira Moderna Não É a "Cabana" do Medo
A casa em madeira, hoje, não é uma nostalgia romântica nem uma barraca de férias. É engenharia. É industrialização. É precisão. Em muitos países, é normal: paredes e estruturas concebidas para desempenho térmico, acústico, estrutural e resistência ao fogo, com projectos certificados e controlo de qualidade.
Em Portugal, porém, a madeira carrega um estigma: "arde", "não dura", "é fraca". Como se o país ainda estivesse preso ao século XIX, a conversar com o fantasma de uma fogueira mal feita. O problema não está no material. Está na falta de cadeia industrial, na falta de processos públicos simples, e no pânico administrativo de tudo o que foge ao molde.
O Verdadeiro Inimigo: Solo e Licenciamento
O gargalo não é apenas "construir". É onde se pode construir, como se pode construir, e quanto tempo se espera por um "sim" que chega quando já não interessa. Uma casa modular, se é habitação e está ligada ao solo, cai no mesmo túnel: regras dispersas, interpretações variáveis, demora crónica.
E aqui nasce a ironia: o Estado não tem pressa para libertar as famílias do sufoco — mas tem pressa para criar programas, slogans e anúncios. O país transforma a emergência em ritual: muito papel, pouca casa.
A Economia do Hábito: Betão como Dogma
O betão não é apenas um material: é um ecossistema de interesses, hábitos, margens e rotinas. E tudo o que mexe nisso encontra resistência — não porque seja errado, mas porque obriga a mudar. Mudar é perigoso para quem vive bem com o velho "normal".
A madeira exige outra lógica: produção em série, projectos-tipo, certificação, equipas treinadas, logística. Exige uma visão de país que prefira solução a narrativa. E isso, em Portugal, é pedir a um relógio avariado que marque a hora certa por convicção.
O Que o Governo Podia Fazer Amanhã (E Não Faz)
Se houvesse coragem política — não a coragem teatral das conferências, mas a coragem prática de governar — bastavam medidas simples, com começo, meio e fim:
- Via verde nacional para habitação industrializada (madeira incluída), com prazos obrigatórios e silêncio positivo.
- Catálogo de tipologias (T1 a T3) pré-aprovadas: desempenho térmico, acústico e fogo comprovados; preços-teto realistas.
- Compras em lote por municípios/Estado: quando se compra em série, o custo desce e a entrega acelera.
- Incentivo fiscal ligado a pegada carbónica e eficiência energética, com auditoria séria (sem "subsidiozinho" de fachada).
- Formação acelerada para projectistas, fiscalização e montadores — para eliminar improviso e garantir qualidade.
Nada disto é ficção científica. É gestão pública com método. É engenharia aplicada à vida real. É aquilo que se faz quando se quer resolver, em vez de administrar a dor.
Portugal Não Precisa de Milagres. Precisa de Regras Claras.
Num país com clima relativamente moderado e sem catástrofes climatéricas constantes, a madeira pode ser uma resposta sensata para milhares de famílias — com rapidez de montagem, menor peso, boa eficiência térmica e potencial de industrialização.
Mas para isso é preciso uma coisa rara por cá: Estado com coluna vertebral. Um Estado que corte o labirinto, que imponha prazos, que defina padrões, que fiscalize com rigor — e que escolha a casa possível em vez da promessa eterna.
A crise da habitação não se resolve com retórica. Resolve-se com casas. E a madeira, se for tratada como tecnologia e não como superstição, pode ser uma das chaves. A pergunta fica no ar, como um satélite à espera de autorização para entrar em órbita: vamos continuar a construir discursos, ou vamos começar a construir vidas?
Referências e enquadramento
- Eurocódigo 5 (Estruturas de madeira) — enquadramento técnico europeu para projecto estrutural em madeira.
- LNEC / publicações técnicas sobre comportamento ao fogo e desempenho de estruturas em madeira.
- RJUE e instrumentos de gestão territorial (PDM/RJIGT) — base para licenciamento e uso do solo.
- Lei n.º 56/2023 (Mais Habitação) — enquadramento recente de medidas públicas na habitação.
- Exemplos internacionais (países nórdicos, Canadá, Alemanha) — industrialização modular e construção em madeira em escala.
Fragmentos do Caos — crónica crítica, técnica e humana.
Co-autoria editorial: Augustus Veritas.