Portugal- 60 mil euros para restaurantes: o país que subsidia a sobrevivência e penaliza o futuro

- Medida: apoio até 60.000€ para restaurantes; 70% reembolsável; 30% pode ser a fundo perdido mediante resultados.
- Justificação oficial: empresas ainda a pagar custos/linhas da pandemia; alongamento de prazos e reestruturação via Turismo de Portugal.
- Promessa política: entrada em vigor/operacionalização em Fevereiro de 2026 (segundo declarações públicas).
- O problema de fundo: um país que subsidia o consumo e trata a produtividade como um capricho.
60 mil euros para restaurantes: o país que subsidia a sobrevivência e penaliza o futuro
Há notícias que não são notícias: são radiografias. Esta é uma delas. O anúncio de mais um apoio à restauração — com um tecto simpático e uma percentagem sedutora "a fundo perdido" — não é apenas uma medida económica. É um retrato íntimo, quase confessional, de um país que continua a confundir movimento com progresso.
Não tenho nada contra restaurantes. Contra quem trabalha, nunca. A crítica não é ao homem que lava pratos, nem à mulher que serve à chuva, nem ao pequeno empresário que tenta manter portas abertas com a renda na garganta. A crítica é ao modelo mental do Estado — esse velho senhor de bigode burocrático, que acorda todos os dias, toma o café e decide que o futuro se faz com "mais do mesmo, mas com um carimbo novo".
O culto nacional da sobrevivência
"Para se manterem em pé", diz-se. A frase é bonita: parece humana. Mas tem um veneno discreto. Porque, quando a política pública se organiza para manter sectores "em pé", sem exigir transformação estrutural, está a criar uma economia de andadores. E andadores não fazem maratonas.
Um país a sério usa crises para subir de nível: moderniza processos, reforça produtividade, injecta tecnologia, treina pessoas, escala exportações, cria propriedade intelectual. Um país viciado em remendos usa crises para repetir o ritual: apoia, prolonga, renegocia, adia — e no fim chama "resiliência" ao que, na prática, é dependência.
O Estado que não distingue investimento de esmola
O drama português é simples e devastador: o Estado tem dificuldade em distinguir investimento de despesa. E, quando não se distingue, escolhe-se por instinto — e o instinto de um sistema envelhecido prefere o que já conhece: turismo, restauração, "eventos", "dinamização", "animação", "experiências".
Em Portugal, uma empresa que quer automatizar, exportar software, criar um produto escalável, desenvolver IA prática, fazer indústria transformadora, não encontra "dinamização". Encontra um labirinto: formulários, siglas, balcões, prazos, exigências contraditórias, fiscalizações selectivas e a eterna sensação de que a excelência é um incómodo administrativo.
E depois vem o insulto silencioso: o país subsidia com urgência aquilo que o mantém pequeno — e pede paciência a quem o podia tornar grande.
O negócio mais antigo: comprar silêncio
Há uma realidade que poucos dizem em voz alta: a economia de subsídios é, muitas vezes, uma economia de silêncio. Quem depende do apoio não pode levantar demasiado a voz. Quem vive de prolongamentos aprende a agradecer. E um país que agradece demasiado acaba por aceitar tudo: impostos sobre o ar, serviços públicos anémicos, elites medíocres, decisões sem estratégia e a eterna propaganda do "estamos no bom caminho".
A incompetência, em Portugal, não é um acidente — é um ecossistema. Porque a competência exige métricas, exige responsabilidade, exige resultados, exige confronto com a realidade. E a realidade, essa senhora insolente, não aceita slogans.
O país que tem medo do futuro
O futuro chama-se produtividade. Chama-se ciência aplicada. Chama-se energia inteligente. Chama-se indústria. Chama-se software exportável. Chama-se formação séria. Chama-se meritocracia real, não aquela caricatura de PowerPoint.
Mas o futuro também chama-se uma coisa perigosa para sistemas frágeis: liberdade. E por isso o sistema prefere o que é domesticável: o que não escala, o que não incomoda, o que não cria autonomia.
A restauração é essencial para o turismo — certo. Mas o turismo não é uma estratégia nacional: é um sector de anemia e sustentação de país subdesenvolvido. Transformá-lo em eixo civilizacional é o equivalente económico de construir uma casa inteira em cima de uma varanda: pode ser bonita… até ao primeiro sismo.
A pergunta que não querem ouvir
A pergunta certa nunca é "quanto apoio damos?". A pergunta certa é: que país queremos ter daqui a 10 anos?
Um país onde a juventude mais capaz emigra e a competência envelhece em silêncio? Um país onde se abre o 9.º restaurante no mesmo quarteirão e se fecha a 3.ª empresa tecnológica por falta de oxigénio? Um país onde se aplaude a sobrevivência e se desconfia do génio?
O apoio pode salvar um negócio — e isso é bom. Mas o país não se salva com "manter em pé". O país salva-se com erguer. E erguer exige visão. Exige coragem. Exige gente capaz. Exige Estado competente.
E se hoje continuamos a preferir o remendo à arquitectura, não é por falta de dinheiro. É por falta de espírito. E um país sem espírito não é pobre: é apenas curto.
Fontes e referências
- ECO — "Restaurantes vão ter apoio 'para se manterem em pé'. 30% pode ser a fundo perdido" (21/01/2026): https://eco.sapo.pt/2026/01/21/restaurantes-vao-ter-apoio-para-se-manterem-em-pe-30-pode-ser-a-fundo-perdido/
- SÁBADO — "Governo anuncia apoio à restauração. Ajuda será de 60 mil euros, 30% a fundo perdido" (21/01/2026): https://www.sabado.pt/dinheiro/amp/governo-anuncia-apoio-a-restauracao-ajuda-sera-de-60-mil-euros-30-a-fundo-perdido
- Portal do Governo — Comunicado sobre "apoios a fundo perdido" e limites por território (30/07/2025): https://www.portugal.gov.pt/pt/gc25/comunicacao/comunicado?i=apoios-a-fundo-perdido-ate-50-apenas-para-empresas-de-territorios-de-baixa-densidade
Um país que subsidia o que não escala e complica o que cria valor não está a governar a economia — está a governar o medo. E o medo, em política, é sempre o início da estupidez.