Petróleo, Pernil e Protocolos: a Diplomacia do Nevoeiro

- Contexto: acordos e "missões" com a Venezuela foram vendidos como salvação durante anos de crise.
- Modelo: exportações e contratos "pagos" por petróleo, com engenharia financeira e promessas políticas.
- Casos emblemáticos: casas pré-fabricadas, Magalhães, obras públicas, e o pernil que virou rei… até faltar o pagamento.
- Risco: cliente-Estado, moeda em queda, sanções e instabilidade — o pior cocktail para contratos longos.
- O ponto moral: quando a transparência falha, o país não cresce — apodrece devagarinho, em silêncio burocrático.
Petróleo, Pernil e Protocolos: a Diplomacia do Nevoeiro
Vamos ser claros, para não sermos apenas furiosos: entre a diplomacia económica e a corrupção existe uma zona cinzenta onde Portugal gosta de fazer campismo. Não é a cor do partido — é a cor do método. E o método, tantas vezes, é simples: um Estado abre portas, um punhado de empresas entra, uma narrativa épica é escrita, e quando a realidade bate à porta… ninguém atende. A campainha toca, mas o país está em "reunião".
A amizade entre líderes: a chave que abre cofres… e apaga recibos
A política adora romances. Quando dois líderes se tratam por nomes próprios e se riem para as câmaras, nasce logo o mito do "grande entendimento". E com o mito, surge o contrato — muitas vezes anunciado com euforia e cifrões a brilhar. O problema é que o contrato vive no papel, mas a contabilidade vive no mundo, e o mundo é menos fotogénico.
O Estado-cliente: quando o risco não é um detalhe, é o coração do problema
Fazer negócios com um Estado que compra, paga e manda — sobretudo quando esse Estado está preso à volatilidade do petróleo, a controlos cambiais e a turbulência política — é como construir uma casa em cima de areia com promessa de maré baixa eterna. Pode aguentar um Verão. Um dia. Um mandato. Mas a maré volta sempre.
Do Magalhães às casas: a grande ópera do "vai correr bem"
Houve projectos que foram apresentados como símbolo de modernidade, exportação de talento, "marca Portugal" e até diplomacia educativa. E houve obras e habitação social anunciadas como epopeias construtivas. Algumas coisas avançaram, outras ficaram aquém, e outras ficaram no limbo — aquele lugar onde a política arquiva incómodos com um sorriso.
E aqui entra o ponto que dá comichão: quando surgem relatórios, comissões, suspeitas, investigações, a resposta institucional raramente é "vamos esclarecer tudo até ao último cêntimo". É mais "vamos gerir a comunicação até ao último minuto". É o país do parecer, com alergia ao ser.
O pernil: a metáfora perfeita do país
O pernil foi rei — e isto não é poesia, é ironia histórica: um produto natalício a subir a exportação principal para um mercado que, de repente, deixa de pagar. E então? Então o milagre transforma-se em lamento. O problema não é vender pernil. O problema é vender futuro com a mesma lógica com que se vende um folheto de supermercado: "promoção limitada ao stock e à boa vontade do regime".
O truque mais antigo: quando dá certo, é génio; quando dá errado, é azar
Se corre bem, há conferências, palmas, cartazes e auto-elogio patriótico. Se corre mal, aparece a palavra mágica: "contexto". E o contexto, em Portugal, é uma espécie de oceano onde se afogam responsabilidades. "Contexto" é o nosso detergente moral. Lava tudo. Menos a consciência de quem paga.
Isto prova corrupção?
Provar, prova-se em tribunal, com factos, contraditório e sentença. E isso é importante dizer com honestidade. Mas há outra pergunta — e essa é política e civilizacional: isto é sério? Um país sério não vive de euforias, nem confunde diplomacia com opacidade, nem aceita que "milhões por executar" sejam apenas um parágrafo num artigo.
Epílogo: a factura não desaparece — muda apenas de bolso
No fim, a história raramente tem o dramatismo cinematográfico que desejamos. Não há sirenes, não há grandes confissões, não há a catarse moral do "agora sim". Há apenas a vida real: empresas com contas por receber, projectos suspensos, promessas arquivadas, e um país que aprende pouco, porque tem medo de aprender a sério — aprender implica reformar, e reformar implica tocar em gente que não gosta de ser tocada.
E assim vamos: entre o petróleo que "pagava", os protocolos que "garantiam", e a transparência que "logo se vê". O problema de Portugal não é ter comércio com o mundo. É ter nevoeiro como política pública. E no nevoeiro, os vigaristas não precisam de correr: basta-lhes caminhar devagar, que ninguém os vê.
Fragmentos do Caos — crónica editorial
Co-autoria: Augustus Veritas (Assistente IA) — revisão, estrutura e afinação estilística