BOX DE FACTOS
  • Reciclagem política: carreiras eternas vendidas como "experiência".
  • Falhanço promovido: quem falha não sai — reaparece com novo slogan.
  • Populismo de gravata: condena o populismo alheio, mas vive do mesmo instinto.
  • Ventura como espelho: não é preciso defendê-lo para ver a hipocrisia dos "respeitáveis".
  • Antídoto: memória, método, factos e consequência pública.

Os Recicláveis do Regime: Populismo de Gravata, Falhanço de Carreira

Há políticos que envelhecem, mas recusam a ideia simples de que o tempo não é um direito adquirido. Chamam "serviço público" ao vício do palco. E "experiência" ao rasto de estragos.

Portugal tornou-se um país onde a política é, demasiadas vezes, uma feira de reciclagem: entram falhados, saem "reconvertidos"; entram incompetentes, saem "estadistas"; entram com promessas, regressam com justificações. E no fim, o povo — esse — paga o bilhete para assistir ao mesmo espectáculo, com actores diferentes a dizerem as mesmas falas.

1) Velhos "recicláveis": a teimosia como programa

Há governantes que já deviam estar a escrever memórias ou a cuidar do jardim da paciência — mas insistem em ser "recicláveis". Não por grandeza. Por hábito. Confundem longevidade com competência, e presença com utilidade. É a política como carreira vitalícia: um corredor sem fim, onde se corre sem chegar a lado nenhum.

E quando são confrontados com o desastre acumulado, respondem com a cantilena de sempre: "complexidade", "contexto", "difícil", "herdámos". Como se um país pudesse ser eternamente desculpável, e nunca responsabilizável.

2) Falhados e incompetentes: o milagre português da promoção

Numa sociedade minimamente exigente, o falhanço repetido gera afastamento. Aqui, gera promoção, comentário televisivo, consultoria, e — em certos casos — um pedestal com vista para o futuro alheio. A incompetência aprende cedo a falar com voz grave, a usar palavras grandes, e a sorrir como quem "está a gerir".

O mais extraordinário é a normalização: como se fosse natural destruir e voltar para tentar de novo, com o mesmo método que já falhou. O país vira laboratório — mas o rato de experiência é sempre o cidadão.

3) Populistas dos sete costados: a diferença é só a embalagem

Criticam Ventura — e eu percebo porquê. Há ali material suficiente para alimentar anos de indignação. Mas há um ponto que não pode ser varrido para debaixo do tapete: muitos dos que o denunciam passaram décadas a semear o terreno onde ele cresce.

Há um populismo de rua e um populismo de gabinete. Um berra; o outro sussurra com ar de doutor. Um vende slogans simples; o outro vende "narrativas responsáveis". Mas ambos pescam no mesmo lago: medo, ressentimento, cansaço, desespero.

O populismo não é só o tom. É a falta de verdade. É prometer o que não se pode cumprir, é dizer hoje o contrário do que se fez ontem, é moralizar em público e negociar na sombra. E nisso, Portugal tem uma longa tradição — com ou sem megafone.

4) A hipocrisia selectiva: condenar o espelho para salvar a cara

O problema não é criticar Ventura. O problema é fazê-lo como se o sistema que o antecede fosse puro, competente e virtuoso. Como se não tivesse havido décadas de promessas falhadas, reformas cosméticas, compadrios, e um país empurrado para a exaustão.

Criticar o "populista" serve, muitas vezes, para limpar a própria biografia política: "Nós somos os adultos na sala." Só que a sala está em ruínas, e foram eles que estiveram com as chaves durante anos.

5) O país cansado: a matéria-prima perfeita para o embuste

Os escroques — os de gravata e os de palanque — precisam de um país cansado. Um país que não tem tempo para ler, nem força para exigir, nem espaço mental para perseguir factos até ao fim. Porque quando a vida é sobrevivência, a cidadania parece luxo — e a democracia torna-se uma palavra bonita, mas oca.

E é aí que o teatro ganha: no ponto exacto em que o cidadão deixa de acreditar que a verdade interessa. Quando a indignação se torna rotina, e a rotina se torna resignação.

Epílogo: a saída não é um salvador — é consequência

Não é preciso defender ninguém para denunciar a podridão. Não é preciso alinhar com extremos para recusar a mentira. A saída não é um "homem providencial". É um povo com memória e método: nomes, datas, decisões, consequências.

Um país sério não recicla falhados como se fossem ouro. Um país sério não confunde ruído com obra. Um país sério não vive de moralismos selectivos — vive de responsabilidade.

E quando a política voltar a temer a pergunta simples — "o que fizeste, com que resultados, e quem pagou?" — então talvez Portugal deixe de ser o palco onde os mesmos actores envelhecem… e ainda exigem aplauso.

Francisco Gonçalves
Fragmentos do Caos News Team — texto em coautoria com Augustus Veritas
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