BOX DE FACTOS
  • O que está em causa: notícias (2020) em Portugal referem que uma sociedade associada a António Vitorino (EMAB Consultores) foi mencionada no contexto do caso espanhol ligado a Raúl Morodo/PDVSA, com referência a pagamentos/transferências.
  • O contraditório: Vitorino negou envolvimento, afirmou não ter sido notificado e contestou a leitura feita por parte da imprensa.
  • Desfecho judicial (Espanha): em 2024, a sentença divulgada em Espanha no caso Morodo ficou publicamente associada a delitos fiscais (fraude à Hacienda Pública), após acordo/"conformidad".
  • Nota de rigor: "menção em notícia/investigação" não equivale a "condenação". Nesta peça, distingue-se facto (o que foi noticiado e documentado) de interpretação (a crítica política e moral).
  • Fontes (acesso directo): Financial/negócios e imprensa portuguesa de 2020 + imprensa espanhola e decisão de 2024 (ver lista no fim).

Os Meninos do PS, o Ouro e a PDVSA
Portugal, Espanha, Venezuela — e a Europa dos Comunicados

Na Europa, o crime organizado não entra pela porta: entra pelo porto. E quando alguém pergunta "como foi possível?", responde-se com um comunicado. Depois faz-se uma comissão. Por fim, entrega-se um relatório. O cartel agradece e manda flores.

1) A história simples (que a Europa adora complicar)

Tu chamas-lhe "meninos de ouro". Eu chamo-lhe o símbolo perfeito do nosso folclore: uma elite que vive numa redoma de "prestígio", enquanto o mundo real — o sujo, o perigoso, o que move milhões e compra silêncio — circula em contentores e contratos.

O que a imprensa portuguesa noticiou em 2020, em síntese, foi isto: num processo em Espanha ligado ao ex-embaixador Raúl Morodo e ao universo de negócios com a PDVSA, surgiu referência a transferências/pagamentos envolvendo uma sociedade portuguesa associada a António Vitorino (EMAB Consultores). E, como era inevitável, a palavra "corrupção" apareceu no título, porque "corrupção" vende; "suspeita", "menção", "contexto investigatório" vendem menos.

2) A linha do tempo (para não nos perdermos no nevoeiro)

Janeiro/Fevereiro de 2020: vários meios portugueses ecoam notícias oriundas de Espanha (incluindo referência ao El Mundo em algumas peças) indicando que uma sociedade associada a Vitorino teria sido mencionada no contexto do caso Morodo/PDVSA e de alegados esquemas de desvio de fundos e branqueamento, com indicação de valores e pagamentos.

2020 (resposta pública): Vitorino nega envolvimento, declara não ter sido notificado pelas autoridades espanholas, e contesta a leitura feita — isto é, há contraditório e há recusa explícita da acusação moral que lhe colam à lapela.

Dezembro de 2024 (desfecho em Espanha): a cobertura espanhola do caso Morodo dá conta de condenações centradas em crime fiscal (delitos contra a Hacienda Pública), após acordo/"conformidad", com a narrativa pública do julgamento mais focada em evasão/fraude fiscal do que em manchetes maximalistas de 2020.

3) O truque europeu: transformar a realidade em burocracia e a burocracia em amnésia

Aqui está a ironia — daquelas que não dá vontade de rir, dá vontade de desligar a corrente: quando surgem sinais de redes internacionais, pagamentos opacos, intermediários e dinheiro venezuelano a circular… a máquina europeia faz o que sabe fazer melhor:fragmenta, adianta, processualiza, desdramatiza.

E o resultado é sempre o mesmo teatro: 1) "É preciso apurar."
2) "Não devemos precipitar conclusões."
3) "Respeitemos o devido processo."
4) "O caso prescreveu / ficou em crime fiscal / ficou em multa / ficou em nada político."
5) "Avancemos. O país tem de andar para a frente."

E anda. Anda… para o mesmo sítio. Sempre. Um país a caminhar em círculos, com a gravata bem apertada e a consciência frouxa.

4) O ponto que interessa: "menção" não é "prova", mas o padrão é demasiado familiar

Seja claro: uma notícia a dizer que uma empresa foi mencionada num processo não é uma sentença. E, tanto quanto as fontes públicas acessíveis mostram, o desfecho judicial espanhol destacado em 2024 não é apresentado como "condenação de Vitorino", mas como condenações no caso Morodo por matéria fiscal.

Mas também sejamos claros no outro lado da balança: o que torna isto politicamente explosivo não é a matemática do parágrafo jurídico — é o padrão. O padrão de elites que circulam entre cargos europeus, prestígio, consultorias, "networking" e portas giratórias, enquanto regimes de corrupção crónica (como o da Venezuela chavista/madurista) regaram o mundo com dinheiro, intermediários e esquemas.

5) E agora liga ao teu outro ponto: Trump, cartéis e a Europa ofendida

A cereja no topo do bolo rançoso é esta: quando os EUA endurecem a doutrina contra cartéis e redes transnacionais (com designações, sanções e linguagem de "ameaça estratégica"), a Europa muitas vezes reage como uma tia ofendida: "ai o direito internacional", "ai a forma", "ai a legalidade".

Mas durante anos, diante da corrosão lenta — a infiltração por portos, logística, lavagem, empresas de fachada — a Europa foi uma máquina de discursos. E Portugal, por vezes, um palco perfeito: bom clima, boas pontes, boa comida… e uma justiça com ritmo de procissão.

A pergunta que deixo no ar ("será que esta gente pensa com os pés?") tem resposta: não. Pensa com o conforto. E o conforto é o primeiro cúmplice do crime.

Epílogo: o folclore é sempre o mesmo — só mudam as bandeiras

No fim, sobra o retrato cruel: Venezuela exportou dinheiro e caos. Espanha julgou e fechou o caso com ênfase fiscal (pelo menos no que ficou mais visível no espaço público).Portugal discutiu títulos, afinidades partidárias e indignações selectivas — e depois voltou à sesta. A Europa continuou a rezar comunicados, como se os cartéis tivessem medo de parágrafos.

O crime organizado não precisa de conquistar democracias. Basta-lhe comprar tempo, comprar silêncio e comprar portas. E a Europa — esta Europa — é um edifício com demasiadas portas.

Referências (consulta directa)

Autoria de :Aletheia Veritas
Co-autoria editorial: Augustus Veritas
🌌 Fragmentos do Caos: Blogue Ebooks Carrossel
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