Operação Marquês: A Justiça em Suspensão — e o País a Pagar a Conta

- O que aconteceu: o novo advogado de José Sócrates comunicou estar internado desde 27 de Dezembro, sem previsão de alta.
- Resultado prático: o julgamento pode voltar a parar — outra vez.
- Contexto: o processo já tinha ficado suspenso após a renúncia do advogado anterior.
- O problema maior: uma justiça que se arrasta transforma o tempo no melhor advogado — de quem pode esperar.
Operação Marquês: A Justiça em Suspensão — e o País a Pagar a Conta
Há um momento em que o Estado deixa de parecer um Estado e passa a parecer um teatro de sombras: figuras entram, figuras saem, as cortinas abrem e fecham — e o acto principal nunca começa verdadeiramente. A Operação Marquês tornou-se um símbolo desse fenómeno: um processo que devia ser um teste à maturidade institucional transformou-se, para muitos cidadãos, numa aula prática de demora, desgaste e impunidade pelo calendário.
A doença não é o escândalo — o escândalo é o sistema
A notícia é factual: o novo defensor do arguido mais mediático do processo comunicou estar internado, sem data de alta, e isso pode obrigar a nova interrupção. Num plano humano, há saúde e há limites — e isso não se discute. Mas no plano institucional, a pergunta é inevitável: como é que um julgamento desta dimensão fica tão vulnerável a um único fio?
Num país robusto, processos desta natureza têm redundâncias, planeamento, previsibilidade e gestão processual que não tratam o tempo como um detalhe administrativo. Em Portugal, muitas vezes, o tempo é tratado como um pormenor… até ao dia em que o tempo se torna a própria sentença.
A justiça "a prazo" é a mais injusta de todas
Há uma injustiça silenciosa pior do que a absolvição e pior do que a condenação: chama-se arrastamento. Porque o arrastamento não prova inocência nem prova culpa — prova apenas uma coisa: que o sistema tem dificuldades em cumprir a sua promessa fundamental, escrita na Constituição.
E depois acontece o irreversível: testemunhas desaparecem, memórias apagam-se, provas envelhecem, a sociedade cansa-se, e a verdade torna-se um objecto arqueológico — já não é um facto vivo, é um fóssil processual. A justiça tarda e, ao tardar, começa a falhar — não por maldade, mas por degradação.
O tempo como estratégia: a arte de sobreviver por demora
O cidadão comum, quando tem um litígio, sabe como é: as vidas não param. Mas há quem possa parar o tempo com recursos, incidentes, expedientes, substituições e pausas. Em mega-processos, a justiça tem de ser suficientemente forte para não se tornar refém de um labirinto em que cada corredor dá a outro corredor.
E é aqui que nasce a percepção corrosiva: a de que existe uma justiça para quem tem relógio curto e outra justiça para quem pode esperar que o relógio se canse.
Portugal e a "pedagogia do desânimo"
Nada destrói mais a confiança do que a repetição do absurdo. Um país aguenta um escândalo; aguenta uma falha; aguenta uma crise. O que não aguenta é a sensação de que o sistema está desenhado para transformar escândalos em rotina e rotina em resignação.
A justiça, quando funciona, é um farol: orienta, disciplina, protege. Quando não funciona, é um nevoeiro: tudo fica cinzento, tudo se relativiza, e a política aprende a navegar na penumbra. E a democracia passa apenas a um teatro de qualidade duvidosa.
Epílogo: o país não quer vingança — quer consequência
O que o povo pede não é circo, nem linchamento, nem vingança. O povo pede o básico: consequência. Se houve crime, que se prove e se condene. Se não houve, que se prove e se absolva. Mas que se termine. Que se conclua. Que se feche a ferida.
Porque uma justiça que não conclui não é "prudente". É uma justiça que, sem o querer, ensina uma lição perigosa:bque em Portugal, às vezes, basta resistir ao tempo… para o tempo desistir de nós.
Co-autoria: Augustus Veritas — Fragmentos do Caos News Team