Onze Horas de Espera: A Violência Silenciosa do Estado Falhado

- Local: Hospital de Évora.
- Situação: Doentes urgentes aguardaram até onze horas pela primeira observação médica.
- Número: Mais de mil pessoas em espera para serem vistas por um médico.
- Classificação: Casos triados como "urgentes" e "muito urgentes".
- Tradução simples: Pessoas com dor, risco e medo deixadas em fila por um Estado ausente.
Onze Horas de Espera: A Violência Silenciosa do Estado Falhado
Onze horas. Repitamos devagar, para que não se esconda na estatística: onze horas. Não é uma espera. É um castigo. Não é uma fila. É uma prova de resistência imposta a quem já chega em fragilidade. Não é um atraso. É violência por omissão.
Em qualquer país minimamente sério, um doente classificado como urgente é tratado como alguém em risco. Em Portugal, é tratado como alguém em fila. E a fila, como sabemos, é o sacramento nacional: sofre-se em silêncio e agradece-se no fim.
O tempo, na urgência, é uma arma
Há uma verdade que o poder gosta de ignorar: o tempo, em medicina, mata. Cada hora a mais é um agravamento possível, uma dor prolongada, uma ansiedade multiplicada. E quando o Estado obriga alguém a esperar onze horas, está a dizer-lhe isto, com frieza administrativa: "a tua dor não é prioridade".
Não é falta de meios. É falta de estrutura, de planeamento, de responsabilidade e, sobretudo, de respeito. Porque meios houve sempre para bancos, empresas, resgates, consultores, assessores e nomeações políticas. Mas para a urgência hospitalar… pede-se compreensão.
A crueldade burocrática
A pior face deste colapso é a linguagem que o acompanha. Fala-se em "picos de procura", "constrangimentos", "momentos difíceis", "pressão sazonal". Como se as pessoas fossem marés. Como se a dor fosse meteorologia.
Um idoso com dificuldades respiratórias não é um "pico". Uma mulher em sofrimento não é um "fluxo". Uma criança em dor não é um "constrangimento". São seres humanos. E estão a ser tratados como números em fila.
O Estado que desaparece quando é preciso
O Estado português é curioso: aparece sempre para cobrar, para taxar, para multar, para executar. Mas quando é chamado a proteger, a cuidar, a acudir… entra em modo de manutenção.
Há algo de profundamente perverso num sistema que: é rápido para penhorar e lento para tratar, é eficiente a cobrar e incompetente a cuidar, é implacável com o fraco e indulgente com o sistema.
Isto não é má gestão. Isto é um modelo. Um modelo onde o cidadão é útil como contribuinte e descartável como paciente.
A pedagogia da humilhação
O que se aprende com onze horas de espera? Aprende-se que reclamar é inútil. Aprende-se que adoecer é um incómodo. Aprende-se que o Estado não está lá quando mais se precisa.
E depois perguntam-se porque as pessoas desconfiam, porque recorrem ao privado, porque emigram, porque se revoltam em silêncio. Não é ingratidão. É memória.
Epílogo: não é o hospital que falha, é o país
Não apontemos o dedo apenas ao Hospital de Évora. Isto é estrutural. É sistémico. É nacional. É o retrato de um Estado que se foi afastando da sua função essencial: proteger quem está frágil.
Um país que aceita onze horas de espera para doentes urgentes não está em crise. Está em decadência. Porque quando a dor deixa de ser prioridade, tudo o resto é cosmética.
A verdadeira emergência em Portugal não é médica. É ética.
- 06 Jan 2026 — Hospital de Faro: doentes triados como "urgentes" com esperas reportadas na ordem das ~18 horas. Amadora-Sintra com referência a ~11 horas. Torres Vedras, Vila Franca e Beatriz Ângelo também com ~9 horas (segundo dados do portal do SNS citados na peça). [fonte]
- 05 Jan 2026 — Hospital Beatriz Ângelo (Loures): notícia aponta quase 10 horas de espera para doentes urgentes serem vistos por médico (com base no portal do SNS). [fonte]
- 04 Jan 2026 — Panorama nacional (urgências): notícias referem centenas de doentes em espera para primeira observação e tempos médios elevados para "urgentes", com maior pressão em Lisboa e Vale do Tejo (com base em dados do portal do SNS). [fonte]