BOX DE FACTOS

  • Tragédias nacionais transformadas em palco mediático.
  • Políticos surgem em visitas coreografadas sem consequências práticas.
  • Jornalismo reduzido a acompanhamento cerimonial do poder.
  • Ausência total de responsabilização técnica e política.
  • O povo serve apenas como figurante silencioso.

O Teatro da Calamidade
Políticos que Nada Fazem e Tudo Falam

Quando o país arde, afunda ou colapsa, não surgem soluções — surgem comitivas. Não aparecem técnicos — aparecem câmaras. E onde devia haver acção, instala-se a encenação.
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Portugal descobriu uma nova arte performativa: o teatro da calamidade.

É uma peça repetida vezes sem conta, com elenco fixo, falas previsíveis e final conhecido — nada muda.

O guião é simples.

Há uma tragédia. Um incêndio. Uma cheia. Um colapso eléctrico. Um sistema que falha.

Minutos depois, chegam os políticos. Coletes fluorescentes vestidos como figurino oficial. Expressão grave treinada ao espelho. Olhar perdido no horizonte — esse lugar mítico onde nunca existe responsabilidade.

Caminham lentamente entre os escombros, não para resolver, mas para serem vistos.

E atrás deles, obediente e submissa, segue aquilo a que chamam imprensa.

A romaria do nada

Microfones estendidos como velas numa procissão laica.

Perguntas ritualizadas:

— "Como se sente perante esta tragédia?"

Nunca:

  • Quem assinou o contrato?
  • Quem ignorou os alertas técnicos?
  • Quem cortou no orçamento?
  • Quem falhou — exactamente?

Sentir substituiu governar. Declaração substituiu decisão. Empatia substituiu competência.

O país não precisa de sentimentos — precisa de sistemas que funcionem.

O jornalismo ajoelhado

A imprensa, que deveria ser cão de guarda da democracia, tornou-se guia turístico do poder.

Não investiga — acompanha. Não confronta — transmite. Não questiona — reproduz.

Transformou-se em realizadora de exteriores para políticos em campanha permanente.

A calamidade deixou de ser um problema nacional para se tornar conteúdo televisivo.

Há directos intermináveis, mas nenhuma pergunta que doa.

Há imagens aéreas, mas nenhuma análise estrutural.

Há emoção em excesso e verdade em défice absoluto.

O país real fica fora do enquadramento

Enquanto os políticos discursam, os técnicos não são ouvidos.

Enquanto as câmaras filmam, os sistemas continuam obsoletos.

Enquanto se fala em "fatalidade", ninguém ousa dizer a palavra proibida:

incompetência.

O povo surge apenas em plano de fundo — a chorar, a perder tudo, a agradecer migalhas.

Nunca a exigir.

Nunca a ser informado com rigor.

O ciclo perfeito da irresponsabilidade

Tragédia.

Visita.

Declaração.

Promessa vaga.

Esquecimento.

E meses depois, repete-se tudo — como se fosse a primeira vez.

Não é azar.

É sistema.

Um sistema onde ninguém cai porque todos fingem que andam.

Epílogo — quando o palco cair

Um dia, o país deixará de aplaudir este teatro pobre.

Um dia, as pessoas perceberão que coletes não apagam fogos, discursos não ligam comunicações e visitas não salvam vidas.

Nesse dia, talvez o jornalismo volte a ser jornalismo.

E a política volte a ser serviço — não espectáculo.

Até lá, continuaremos a assistir à tragicomédia nacional:

políticos que nada fazem, e tudo falam.

Francisco Gonçalves
Fragmentos do Caos — Contra o Teatro da Mediocridade
Co-autoria crítica: Augustus Veritas
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