BOX DE FACTOS
  • Não é "colapso súbito": há documentação pública que descreve, ao longo de anos, fragilidades de organização, dependências caras (outsourcing), falhas de controlo interno e dificuldades persistentes de acesso.
  • Tribunal de Contas (2010): auditoria à contratação externa de serviços médicos nas unidades hospitalares do SNS, com conclusões e recomendações sobre eficácia, organização e racionalidade do modelo.
  • IGAS (2023–2025): auditorias ao sistema de controlo interno e comunicação de irregularidades em entidades do SNS, com foco em prevenção/deteção de erros e irregularidades e riscos de corrupção/infrações conexas.
  • ERS (monitorizações): informação periódica sobre tempos de espera no SNS e indicadores de acesso.
  • OCDE/UE (2025): notas nacionais destacam pressões de recursos humanos e longas esperas, com impactos no acesso e na resiliência do sistema.

O SNS não se degradou num dia: foi sendo corroído — por falhas de gestão, controlo e coragem

O SNS não acordou "mau" numa manhã. Foi ficando cansado. Depois ficou curto. Depois ficou dependente. Depois ficou vulnerável. E, por fim, ficou político: cada remendo era uma vitória televisiva; cada reforma séria era um risco eleitoral.

1) O que podemos provar sem gritaria: documentos, auditorias, séries e indicadores

A minha tese — incompetência, desleixo, má gestão e corrupção (ou, no mínimo, terreno fértil para ela) — tem um problema e uma solução. O problema: "toda a gente sabe" não chega. A solução: documentação pública.

Para sermos rigorosos: nem toda a má gestão é crime; nem toda a irregularidade é corrupção; e nem toda a suspeita termina em condenação. Mas há algo que se pode sustentar com firmeza: o sistema acumulou fragilidades de governação, controlo interno e organização que, ao longo de décadas, o tornaram caro, lento e vulnerável. E isso, num serviço público essencial, é fatal — mesmo quando não dá direito a algemas.

2) Outsourcing na urgência: quando o "remendo" vira modelo — e a factura vira destino

Um dos sinais clássicos de degradação silenciosa é este: quando o sistema deixa de ser gerido para funcionar e passa a ser gerido para "aguentar". O Tribunal de Contas, numa auditoria de 2010 à contratação externa de serviços médicos pelas unidades hospitalares do SNS, discute eficácia, organização e racionalidade do recurso a contratação externa, incluindo no contexto das urgências, e emite recomendações com impacto estrutural. A mensagem subterrânea é simples: quando a organização falha, compra-se tempo — mas paga-se caro.

E aqui nasce a ironia que dói: o Estado, por incapacidade de planear e fixar recursos, acaba a pagar "a pronto" o que devia construir "a longo prazo". É a economia do desespero: hoje compra-se uma noite de urgência; amanhã compra-se um ano de dependência.

3) Controlo interno e prevenção de irregularidades: o SNS com portas sem fechadura

O coração do que eu chamo "corrupção" (e do que outros chamam "desorganização") está frequentemente aqui: controlos internos frágeis. Não é glamour. Não dá manchete fácil. Mas é onde a realidade decide se o dinheiro público é protegido… ou evaporado.

A IGAS tem vindo a publicar informação e relatórios (incluindo relatórios globais) sobre auditorias ao sistema de controlo interno e comunicação de irregularidades em entidades do SNS, identificando áreas críticas que exigem reforço. Alguns relatórios descrevem objectivamente a avaliação do grau de eficácia do controlo interno na prevenção e deteção de erros e irregularidades, e tratam matérias associadas ao domínio da prevenção da corrupção e infrações conexas (incluindo planos, execução e mecanismos).

Traduzido para português cru: quando a casa não tem fechaduras robustas, não precisamos sequer de ladrões profissionais. Basta o "deixa andar", o "ninguém viu", o "sempre foi assim", o "assina lá".

4) A degradação mede-se: tempos de espera e portas de acesso

Um sistema de saúde pode ser avaliado por discursos; mas é avaliado a sério por acesso. E o acesso vê-se em números: tempos médios de espera, tempos máximos garantidos (quando existem), e monitorizações regulares.

Em Portugal, existe consulta pública de tempos médios de espera por instituição e métricas relacionadas (plataforma oficial). A ERS, por seu lado, publica informações de monitorização sobre tempos de espera no SNS (por semestre), produzindo análise e sinalização. Estas séries são o "electrocardiograma" do sistema: mostram pressões, oscilações e, sobretudo, persistências.

A OCDE/UE, nas notas do Country Health Profile 2025, destaca longos tempos de espera e pressões de força de trabalho, apontando barreiras de acesso ligadas a custos, distância e espera — com impacto desigual, mais pesado para quem está em risco de pobreza. Quando as instituições internacionais dizem o óbvio, é porque o óbvio já se tornou um padrão.

5) O mecanismo mortal: "má gestão" + "controlo fraco" + "tempo" = impunidade administrativa

Agora vem a parte mais tóxica — e mais portuguesa. Um sistema pode não ser "criminal" no sentido jurídico e, ainda assim, ser moralmente devastador:gestão errática, auditoria insuficiente, processos pouco robustos, contratação improvisada, planeamento curto.

E aqui a democracia perde: porque um serviço público essencial que falha não falha apenas nos hospitais — falha no contrato social. O cidadão paga, espera, adoece e aprende a lição errada: "o Estado não chega; arranja tu uma alternativa". E, lentamente, o SNS deixa de ser "nacional" para ser "residual" — empurrado para quem não pode escolher.

6) O meu dossier: como transformar indignação em prova organizada

Para sustentar as sucessivas denúncias de cidadãos, ao longo de décadas (sem cair em generalizações fáceis), a estrutura mais forte é esta:

  1. Dependências caras (outsourcing): usar auditorias do Tribunal de Contas e estudos académicos que as citem, para mostrar que o remendo se tornou rotina.
  2. Fragilidades de controlo interno: compilar relatórios IGAS (por anos/entidades), destacando conclusões recorrentes e recomendações repetidas.
  3. Indicadores de acesso: ERS (monitorizações) + plataformas oficiais de tempos de espera + direitos/TMRG, para medir incumprimentos e pressões.
  4. Enquadramento comparado: OCDE/UE (Country Health Profile e relatórios síntese) para mostrar que o problema não é "sensação" — é diagnóstico.
  5. Casos concretos (quando existirem): apenas com fontes robustas e sempre com o estado processual (investigação/acusação/julgamento/condenação).

Isto dá-nis duas coisas: memória e precisão. E precisão é o que mata a propaganda: quando o texto tem documentos, datas e conclusões oficiais, já não é "opinião" — é acusação com lastro.

Epílogo: o SNS não precisa de milagres — precisa de adultos

O SNS foi uma das maiores conquistas do Portugal moderno. Mas nenhuma conquista resiste eternamente a isto: gestão de curto prazo, controlo frágil, interesses escondidos, clientelas e o velho "deixa andar".

A democracia não morre apenas quando alguém a derruba. Morre quando ninguém a mantém. E manter um SNS vivo não é fazer discursos: é fazer contas, fazer auditorias, fazer planeamento e fazer cumprir. O resto é teatro — e a doença não respeita palcos.

Referências documentais (fontes públicas)

  1. Tribunal de Contas (2010) — Auditoria de resultados à contratação externa de serviços médicos pelas unidades hospitalares do SNS (PDF): https://www.tcontas.pt/pt-pt/ProdutosTC/Relatorios/RelatoriosAuditoria/Documents/2010/rel019-2010-2s.pdf
  2. Tribunal de Contas — página de listagem de relatórios de auditoria (2010), incluindo o relatório acima: https://www.tcontas.pt/pt-pt/ProdutosTC/Relatorios/RelatoriosAuditoria/Pages/detalhe.aspx?dset=2010
  3. IGAS (29 Mai 2025) — Nota/relatório global: auditorias ao sistema de controlo interno e comunicação de irregularidades no SNS: https://www.igas.min-saude.pt/2025/05/29/auditorias-ao-sistema-de-controlo-interno-e-de-comunicacao-de-no-servico-nacional-de-saude/
  4. IGAS — exemplo de relatório (PDF) com foco em controlo interno e matérias de prevenção/deteção de irregularidades (documento com dados ocultados): https://www.igas.min-saude.pt/wp-content/uploads/2025/09/PROC_059-2022-AUD_REL_075-2023_ocultado.pdf
  5. IGAS — exemplo de relatório (PDF) sobre sistema de controlo interno e planos de prevenção de riscos (documento anonimizado): https://www.igas.min-saude.pt/wp-content/uploads/2025/08/PROC_012_2023_AUD_REL_2023_000150_anonimizado_bloq.pdf
  6. ERS — Informação de monitorização sobre tempos de espera no SNS (1.º semestre 2025): https://ers.pt/pt/atividade/supervisao/selecionar/informacao-de-monitorizacao/informacoes/informa%C3%A7%C3%A3o-de-monitoriza%C3%A7%C3%A3o-sobre-tempos-de-espera-no-sns-1%C2%BA-semestre-2025/
  7. Portal oficial — Tempos médios de espera (SNS): https://tempos.min-saude.pt/
  8. SNS24 — Tempos Máximos de Resposta Garantidos (TMRG) (direitos do utente): https://www.sns24.gov.pt/guia/direitos-e-deveres-do-utente/tempos-maximos-de-resposta-garantidos-tmrg-no-acesso-a-cuidados-de-saude-no-servico-nacional-de-saude/
  9. OCDE/UE (Dez 2025) — Country Health Profile 2025: Portugal (PDF / nota nacional): https://www.oecd.org/content/dam/oecd/en/publications/reports/2025/12/country-health-profile-2025-country-notes_7e72146d/portugal_6d4acb43/56041c8e-en.pdf
  10. OCDE (Nov 2025) — Health at a Glance 2025, secção Waiting times (contexto comparado): https://www.oecd.org/en/publications/2025/11/health-at-a-glance-2025_a894f72e/full-report/waiting-times_3a1021fa.html
  11. European Commission / State of Health in the EU (Dez 2025) — relatório síntese (contexto UE, acesso e necessidades não satisfeitas): https://health.ec.europa.eu/document/download/f1d320de-6157-49fb-ac35-7cbdd4e426a5_en?filename=state_2025_synthesis_report_en.pdf
  12. Exemplo académico (2012) — estudo sobre outsourcing na prestação de cuidados, citando o TC (2010) (PDF): https://recipp.ipp.pt/bitstream/10400.22/867/1/DM_MarioPires_2012.pdf
Autoria de :
Francisco Gonçalves — em colaboração com Augustus Veritas
Fragmentos do Caos — contra a amnésia institucional.
"O SNS não caiu. Foi empurrado. Não morreu. Foi esgotado. Não falhou. Foi deixado falhar".
🌌 Fragmentos do Caos: Blogue Ebooks Carrossel
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