BOX DE FACTOS
  • O provincianismo não é geográfico — é mental.
  • A lealdade é frequentemente usada como substituto da competência.
  • Em Portugal, o medo de ser ultrapassado é estrutural.
  • A mediocridade prefere espelhos a janelas.
  • O talento é tolerado apenas enquanto não brilha demais.

O Provincianismo Indígena e a Pequena Tirania da Lealdade

"Prefiro pessoas leais a pessoas competentes." — Acta notarial da mediocridade lusitana.
Há países pequenos. E há países pequenos por dentro. Portugal pertence perigosamente à segunda categoria. O provincianismo indígena não se mede em quilómetros — mede-se em horizontes. E por cá, o horizonte é curto. Curto, baixo e desconfiado. O provinciano indígena não teme o erro. Teme o brilho alheio. É a fábula da cobra e do pirilampo, no seu pleno.
Não teme falhar. Teme ser comparado.

A Psicologia do Pequeno Chefe

O pequeno chefe português não quer liderar. Quer reinar em miniatura. Não quer equipas. Quer séquitos. Não quer colaboradores. Quer vassalos emocionais. E quando diz "lealdade", não fala de ética — fala de submissão. Fala de gente que não questiona, não contraria, não ultrapassa. A lealdade, neste contexto, é o nome bonito do medo.

O Horror ao Talento

Em Portugal, o talento é recebido com a mesma simpatia com que se recebe uma infiltração de água no tecto. Primeiro nega-se. Depois minimiza-se. Depois desvaloriza-se. E por fim… tenta-se expulsar. Porque o talento incomoda. Obriga a subir a fasquia. Expõe preguiças. Revela fraquezas. E isso é insuportável para o provinciano indígena, que vive bem no seu aquário morno de auto-importância.

A Estética da Mediocridade

O provincianismo indígena adora títulos. Cargos. Placas na porta. Assinaturas longas no email. É uma civilização de crachás. Uma religião de organigramas. Onde a forma substitui o conteúdo e o estatuto tenta disfarçar o vazio. Aqui não se pergunta "o que fez?". Pergunta-se "quem é?". E se for "dos nossos", está perdoado. Se for bom demais, está condenado.

A Carneirada Aplaudidora

Nenhum provincianismo sobrevive sem plateia. E Portugal é pródigo em claques. Há sempre a carneirada diligente:
  • os que aplaudem para serem vistos,
  • os que concordam para serem aceites,
  • os que se calam para não serem riscados.
É a sociologia do rebanho em versão corporate. Não se pensa. Alinha-se. Não se questiona. Repete-se. Não se cresce. Adapta-se.

Porque o País Não Anda

Depois perguntam-se, com ar ingénuo: — "Porque é que isto não avança?" — "Porque é que não inovamos?" — "Porque é que os bons vão embora?" A resposta é simples, brutal e desconfortável: Porque este país tem alergia à grandeza. A grandeza obriga a crescer. E crescer dói. Obriga a mudar hábitos, a abandonar privilégios, a enfrentar espelhos. E o provincianismo indígena prefere:
  • a segurança da mediocridade,
  • o conforto do compadrio,
  • o calor do rebanho.

Epílogo: O País Bonsai

Portugal tornou-se, em demasiados sectores, um país bonsai: pequeno por escolha, podado por medo, limitado por inveja. Um país onde se cortam as raízes para ninguém crescer demais. Um país onde se prefere gente moldável a gente capaz. Um país onde se confunde lealdade com virtude e competência com ameaça. É triste. É cómico. É trágico. E é profundamente nosso. Mas há uma boa notícia. A realidade não é provinciana. O mundo não espera. E o tempo não respeita pequenezas. E quando a História passa, passa por cima. Sem lealdades. Sem títulos. Sem desculpas. Só com resultados.
Artigo de : Francisco Gonçalves Fragmentos do Caos News Team Crónica em co-autoria simbólica com Augustus — porque a lucidez também é um acto de resistência e porque a mediocridade em Portugal assusta. São rebanhos deles!
Nota do autor :

Durante toda a minha longa carreira profissional coordenei variadas equipes em áreas tecnológicas de IT, e se há algo que nunca pedi a nenhum dos colaboradores, foi a "indigna" lealdade.

A contrário, desafiava-os a desafiarem-me, a serem eles próprios, a superarem-se e a superar-me. A arriscarem e a terem pensamento divergente. Só assim foi possivel ter colaboradores de excepção e excelência, de que ainda hoje me orgulho pessoalmente. Sim, fui exigente com eles sempre, mas nunca lhes exigi nada, que eu não tivesse exigido de mim próprio.

Se há algo que me afecta, do ponto de vista profissional, e ao nivel deste país, é a pequenez mesquinha e a mediocridade absurda de quem supostamente se diz gestor ou lider.

- Francisco Gonçalves [2025]

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