O presidente de Portugal, Marcelo citou Eça — e esqueceu o espelho

- O gesto: citar Eça no Ano Novo dá verniz literário ao ritual.
- O silêncio: omite-se a lâmina de Eça contra o compadrio e o país governado ao acaso.
- O padrão: Portugal adora palavras polidas e teme escolhas com custo político.
- A ironia: invoca-se o escritor, mas foge-se ao espelho que ele segurava.
- A pergunta: quantos Anos Novos mais precisamos até trocar "dicção" por "decisão"?
Marcelo citou Eça — e esqueceu o espelho
Há uma arte nacional que não consta nos currículos: a coreografia do "dizer bonito". O país reúne-se, endireita a gravata, afina o sorriso e distribui palavras como quem lança confetti — leve, brilhante, inofensivo. E no centro do palco, o Presidente faz aquilo que Portugal gosta: pede elevação, chama a "união", pede "esperança", e — para dar gravitas — convoca um clássico.
O presidente Marcelo citou Eça de Queiroz. Eça, esse inconveniente de bigode afiado, que escrevia com a elegância de um alfaiate e cortava com a precisão de uma lâmina. Só que, no nosso teatro, preferimos a moldura ao retrato: o nome do autor serve como incenso; o conteúdo, esse, fica no armário — ao lado das reformas adiadas e das responsabilidades "difusas".
O Eça que dá jeito — e o Eça que incomoda
Há um Eça "de salão", domesticado, que cabe bem num discurso institucional: o estilista da língua, o homem das frases impecáveis, o património nacional que não dá chatices. E depois há o outro: o Eça que descreve, com crueldade lúcida, a inércia, o compadrio, a política de expediente, a vaidade travestida de serviço público. Esse é o Eça que não se cita por inteiro, porque estraga o ambiente. É como convidar um cirurgião para um jantar e ficar ofendido quando ele repara na gangrena.
O problema não é a citação. O problema é a selecção moral da citação: escolhe-se a parte que soa bem ao ouvido, rejeita-se a parte que dói na consciência. É uma técnica antiga: chamar "realismo" a tudo o que descreve a miséria, mas chamar "radicalismo" a tudo o que a tenta resolver.
A República do Verniz
Portugal tem uma relação afectiva com o verniz. O verniz brilha, protege, disfarça. E, como todo o verniz, não cura a madeira apodrecida — apenas faz de conta que a casa está sólida. Há décadas que vivemos nisto: planos estratégicos com nomes épicos, comissões com títulos solenes, painéis com pessoas sempre muito "competentes" — e, no fim, a realidade insiste em ser a mesma criatura teimosa, a mesma factura, o mesmo atraso, o mesmo "vamos ver".
Se Eça estivesse vivo, talvez se surpreendesse apenas com uma coisa: a velocidade da Internet. De resto, reconheceria tudo. Reconheceria a substituição do trabalho pela retórica, do mérito pelo cartão de visita, da coragem pela prudência calculada. E notaria, com um sorriso tristemente divertido, que o país conseguiu modernizar-se na forma e manter-se arcaico no essencial: a responsabilidade continua a ser um boato.
O discurso como acto de higiene
Os discursos de Ano Novo são, em teoria, um momento de direcção. Em Portugal, são muitas vezes um momento de higiene: lavam-se as mãos com palavras. É tudo tão bem escrito, tão civilizado, tão "equilibrado", que parece até que o país está a ser governado — quando, na verdade, está a ser narrado.
E quando a política vira literatura (da má), o cidadão vira personagem secundária: serve para bater palmas, pagar impostos e ouvir que "temos de fazer a nossa parte". A parte do poder, essa, continua a ser escolhida com delicadeza: não incomodar ninguém que possa incomodar de volta.
O país que confunde dicção com destino
A frase de Eça — a verdadeira, a inteira — tem uma crueldade que deveria ser obrigatória em horário nobre, não por maldade, mas por profilaxia. Ela lembra-nos que há gente muito capaz de brilhar em inaugurações, muito capaz de sorrir para fotografias, muito capaz de falar como se a realidade fosse um parágrafo que se edita. E depois… depois vem a crise, vem a decisão, vem a escolha difícil — e o Estado revela a sua fragilidade crónica: um gigante de papel, com voz de ouro e músculos de areia.
Marcelo citou Eça, mas esqueceu a crítica social dele. Talvez por lapso. Talvez por instinto. Talvez por um pudor institucional: afinal, é incómodo dizer ao país, num brinde televisivo, que a nossa grande tradição é a gestão do acaso.
Epílogo: citem-nos o espelho, não o perfume
O país não precisa de mais citações. Precisa de mais consequências. Se querem citar Eça, citem-no como ele era: um homem que escrevia para expor, não para embalar. Um homem que não fazia literatura para decorar o poder — fazia literatura para o incomodar.
Porque a verdade é simples e pouco cerimoniosa: enquanto continuarmos a preferir a frase bem dita à decisão bem feita, teremos sempre muitos "estadistas" de microfone e poucos estadistas de obra. E no próximo Ano Novo voltaremos ao ritual: uma citação, um sorriso, um país inteiro a prometer mudanças com a voz… enquanto muda apenas o canal.
"Ordinariamente todos os ministros são inteligentes, escrevem bem, discursam com cortesia e pura dicção, vão a faustosas inaugurações e são excelentes convivas. Porém, são nulos a resolver crises. Não têm a austeridade, nem a concepção, nem o instinto político, nem a experiência que faz o Estadista. É assim que há muito tempo em Portugal são regidos os destinos políticos. Política de acaso, política de compadrio, política de expediente. País governado ao acaso, governado por vaidades e por interesses, por especulação e corrupção, por privilégio e influência de camarilha, será possível conservar a sua independência?"
— Eça de Queiroz
Nota: in "O distrito de Évora" (1867) Fonte: Extraido de site Citacoes.in