BOX DE FACTOS
  • Predomínio de carreiras políticas iniciadas em juventudes partidárias e aparelhos internos.
  • Baixa experiência de gestão real fora da política em muitos titulares de cargos governativos.
  • Rotatividade de cargos sem avaliação de desempenho objectiva.
  • Responsabilidade diluída e linguagem evasiva como padrão comunicacional.

O Perfil Psicológico do Governante Medíocre — Anatomia de um Poder Pequeno

Não é o demónio que governa Portugal. É o funcionário da ambição. O técnico da intriga. O operário da mediocridade.

Há uma ideia errada, muito confortável, que circula nas conversas de café e nos editoriais apressados: a de que somos governados por génios maléficos, estrategas frios, mentes brilhantes do mal.

Não somos.

Somos governados por algo muito mais perigoso: gente pequena com poder grande.

1. O Ego Inflado e a Auto-Imagem de Estadista

O governante medíocre não se vê como é. Vê-se como gostaria de ser visto.

A pose é de Churchill, a densidade é de powerpoint.

Fala de "desígnios", "visões estratégicas", "reformas estruturais", mas treme perante uma decisão difícil.

Precisa de aplauso como oxigénio. De câmara como espelho. De manchete como validação existencial.

Sem holofotes, definha. Sem elogio, entra em pânico.

2. A Obediência como Virtude

Nunca liderou. Nunca arriscou. Nunca criou.

Aprendeu cedo a arte suprema da sobrevivência partidária: não pensar alto, não discordar, não sobressair.

A sua bússola não é o interesse público. É o chefe. É a corrente interna. É a lista de lugares elegíveis.

O governante medíocre não pergunta "isto é correcto?" Pergunta "isto agrada?"

Não pergunta "isto é bom para o país?" Pergunta "isto protege-me?"

3. A Fobia ao Competente

O governante medíocre tem um medo profundo, quase animal, da inteligência alheia.

O competente ameaça. O independente desestabiliza. O livre… é intolerável.

Por isso rodeia-se de:

  • submissos
  • fiéis
  • medíocres compatíveis

Cria equipas onde ninguém brilha. Conselhos onde ninguém questiona. Gabinetes onde ninguém pensa.

É a gestão por apagamento.

4. A Linguagem da Neblina

Repara como fala:

— "O processo está em avaliação." — "Estamos a monitorizar." — "Foram identificadas fragilidades." — "Houve constrangimentos."

Nunca:

— "Falhámos." — "Errei." — "Assumo." — "Demito-me."

A linguagem é bruma. A frase é algodão. A responsabilidade… é sempre do ar.

5. A Ausência de Espinha Dorsal

O governante medíocre não tem convicções. Tem conveniências.

Não tem princípios. Tem oportunidades.

Hoje é uma coisa. Amanhã é outra. Conforme sopra o vento, ajusta a gravata.

Não muda de ideias. Muda de dono.

6. O Desprezo Silencioso pelo Povo

Sorri em campanha. Aperta mãos. Beija crianças.

Mas por dentro há uma convicção fria:

"Eles não percebem."

O cidadão é ruído. O eleitor é estatística. O povo é cenário.

Serve para legitimar, não para escutar.

7. A Incapacidade de Assumir Consequências

Quando tudo corre bem, é mérito. Quando corre mal, é herança.

Herdou:

  • os problemas
  • as falhas
  • os buracos
  • as bombas

Nunca herda os sucessos. Esses são sempre dele.

É o órfão selectivo.

8. A Moral Elástica

Não rouba. "Beneficia."

Não favorece. "Articula."

Não mente. "Enquadra."

Não manipula. "Comunica."

A ética é um elástico: estica conforme o interesse.

9. O Horror ao Silêncio

O governante medíocre não suporta o vazio.

Precisa de agenda. Precisa de cerimónia. Precisa de microfone.

Fala muito para dizer pouco. Ocupa espaço para esconder o vazio.

É barulho institucional.

10. O Sonho Secreto: Permanecer

Não quer servir. Quer ficar.

Não quer resolver. Quer durar.

Não quer mudar o país. Quer garantir o lugar.

O poder não é instrumento. É identidade.

Epílogo — Não São Maus. São Pequenos.

E aqui está o ponto mais duro:

o governante medíocre não é necessariamente corrupto. É perigosamente insuficiente.

Não tem grandeza para o cargo. Não tem densidade para o momento. Não tem estatura para a História.

E quando a mediocridade governa, o país encolhe.

Não por maldade. Por falta de alma.

Portugal não é governado por monstros. É governado por gente sem altura para a sombra que projecta.

E isso… é ainda mais trágico.

Francisco Gonçalves
Fragmentos do Caos News Team
Crónica escrita em parceria com Augustus Veritas — porque diagnosticar também é resistir.
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