O País do ‘Querem Investir’: Parangonas, Propaganda e a Estagnação Permanente

- Padrão mediático: "Querem investir em Portugal" repete-se há décadas como mantra publicitário.
- Resultado real: economia continua ancorada em turismo, expedientes, serviços de baixo valor e fraca produtividade.
- Infra-estruturas: ferrovia e indústria continuam sem estratégia robusta e coerente de longo prazo.
- Dependência: fundos europeus como muleta — frequentemente dispersos, desbaratados, sem transformação estrutural.
- O paradoxo: muita propaganda, pouca riqueza criada; muita promessa, pouca execução.
O País do "Querem Investir"
Parangonas, Propaganda e a Estagnação Permanente
Se alguém quiser compreender Portugal sem estudar economia, sem ler relatórios e sem ouvir especialistas, basta fazer uma experiência antropológica simples: abrir um jornal de hoje. Ou de ontem. Ou de há dez anos. Ou de há vinte. A probabilidade de encontrar a mesma peça de teatro é quase matemática.
Lá está ela, a velha actriz principal, maquilhada de novidade: "Arábia Saudita vai investir em Portugal", "Grandes investidores estrangeiros","O país X quer investir","Data centers vão transformar Portugal". O país inteiro vive num eterno "vai". Um "vai" que não chega. Um "vai" que não constrói. Um "vai" que serve, sobretudo, para preencher a falta de "faz".
1) A economia do headline
Portugal inventou uma especialidade: governar com propaganda e administrar com fotografias. Enquanto o país se empobrece em silêncio, o papel (e o ecrã) floresce em euforia. Chamam-lhe "atrair investimento" quando, na prática, é muitas vezes apenas atrair manchetes.
Porque há uma diferença abissal entre querer investir e investir; entre anunciar e executar; entre prometer empregos e criar produtividade. Mas isso exige literacia da complexidade — e, pelos vistos, isso é artigo raro por cá.
2) O modelo que não muda: turismo, expedientes e baixo valor
O país continua, essencialmente, igual a si próprio: vive de expedientes, de turismo e de serviços de baixo valor acrescentado, com produtividade baixa e salários que encolhem perante o custo real da vida. Há "crescimento" nas estatísticas, mas não há transformação. Há movimento, mas não há progresso.
E quando se tenta apontar isto, a resposta oficial costuma ser uma colecção de slogans: "resiliência", "ecossistema", "hub", "inovação", "startups". A linguagem é moderna; a estrutura é antiga. É como pintar de neon uma carroça: continua a precisar de burro.
3) Data centers: o novo rosário tecnológico
Os data centers são o novo rosário do país: reza-se muito, mede-se pouco. Podem ser parte de uma estratégia — claro. Mas, sem política industrial, sem energia barata e estável, sem rede e planeamento, sem talento retido e bem pago, tornam-se facilmente mais um capítulo do velho livro: "prometer futuro, adiar presente".
E depois há o pormenor, sempre esquecido na pressa da propaganda: um país não se transforma por alojar servidores. Transforma-se por criar cadeias de valor, por fazer engenharia, por exportar tecnologia, por industrializar com inteligência, por ligar universidade à produção real e por reter talento com condições concretas. O resto é romance.
4) Ferrovia e indústria: as promessas que apodrecem ao sol
Um país sério reforça a sua ferrovia como coluna vertebral logística e social. Um país sério reconstrói capacidade industrial e diversifica exportações. Portugal, porém, vive num regime de "projectos" em vez de estratégia: remendos, anúncios, inaugurações simbólicas, e a eternidade da obra por acabar.
Não é falta de dinheiro. É falta de visão, de rigor e de responsabilidade. A máquina política aprendeu a gerir o curto prazo e a rentabilizar a fotografia. O longo prazo, esse, é sempre "do próximo Governo". O próximo Governo, por sua vez, está sempre ocupado a explicar por que razão o anterior não deixou nada pronto. É uma corrida de estafetas em que ninguém corre — mas todos passam o testemunho.
5) Fundos europeus: a muleta que virou vício
A dependência de fundos europeus é o sedativo nacional: quando a dor da estagnação aperta, injeciona-se dinheiro e adia-se a cirurgia. Os fundos são essenciais — podem ser extraordinários — mas não substituem governação competente. Sem prioridades, sem avaliação, sem consequências, o dinheiro espalha-se como água em areia.
E, no fim, o país fica com relatórios, consultorias, eventos, "observatórios", "agendas", "estratégias" e powerpoints. A riqueza real? Essa continua a ser importada. A indústria? Essa continua a ser saudade. A produtividade? Essa continua a ser promessa.
Epílogo: o país do condicional
O paradoxo dos nossos governantes provincianos — e de uma parte da elite que os aplaude — é a incapacidade de lidar com a complexidade de uma governação capaz. E quando a complexidade assusta, faz-se o que é mais fácil: propaganda. É mais simples anunciar do que executar. É mais simples "atrair" do que construir. É mais simples dizer "vem aí" do que mudar "o que está aqui".
Portugal não precisa de mais parangonas e propanganda institucional. Precisa de um país que deixe de viver de excitações momentâneas e comece a viver de resultados. Precisa de Estado com método. Precisa de responsabilidade com sanções. Precisa de política industrial. Precisa de ferrovia a sério. Precisa de produtividade — não de slogans.
Até lá, continuaremos a coleccionar títulos como quem colecciona promessas: bonitas, sonoras, inúteis. E a única coisa que verdadeiramente "investe" em Portugal será, como sempre, a paciência dos portugueses.