BOX DE FACTOS
  • O que é público: não existe uma lista completa de "todos os processos" por evasão/fraude fiscal (muitos estão em segredo de justiça). O que existe são casos divulgados por entidades oficiais.
  • Este dossier agrega casos públicos divulgados pelo DCIAP (destaques e acusações) onde surge fraude fiscal / fraude fiscal qualificada (muitas vezes com branqueamento, burla, corrupção, etc.).
  • Ideia central: quando a economia fragiliza, a tentação do "atalho" cresce — e a justiça lenta transforma o país numa sala de espera onde o futuro perde o autocarro.

O País do Carimbo
Quando a Economia treme, a Fraude ganha espaço — e a Justiça chega tarde

Há países onde a lei é coluna vertebral. Em Portugal, demasiadas vezes, a lei parece uma cortina: muda-se o pano, muda-se o discurso, e o palco continua o mesmo. E quando o palco é grande e o Estado é pesado… a conta paga-se em silêncio: empresas que fecham, famílias que apertam, e um investimento sério que prefere viver onde as regras não dançam.

A economia portuguesa é frágil, o Estado é volumoso, a legislação mexe-se como areia ao vento e a burocracia continua a funcionar como imposto invisível. Ora, num país onde o custo de contexto é alto e a previsibilidade é baixa, há duas reacções clássicas: as empresas prudentes travam (investimento, contratação, expansão) e as empresas desesperadas tentam atalhos.

Quando se fala em "evasão fiscal", convém manter a cabeça fria: muitos processos estão em inquérito e sujeitos a segredo de justiça. O que podemos mapear com rigor é o que é publicamente divulgado por fontes oficiais — e aqui o DCIAP é uma referência porque publica acusações e notas em casos seleccionados. Não é "tudo". Mas é um espelho suficientemente nítido para percebermos o padrão: quando a economia aperta, os crimes económico-financeiros tendem a aparecer mais à superfície.

Dossier público (DCIAP): casos divulgados com referência a fraude/evasão fiscal

2025
  • 06-11-2025 — Venda dos Aproveitamentos Hidroeléctricos (Miranda/Picote/Bemposta): destaque do DCIAP com referência a fraude fiscal qualificada. Fonte (DCIAP)
  • 18-11-2025 — Operação "Voo TP789": referência a fraude fiscal qualificada e fraude à Segurança Social qualificada. Fonte (DCIAP)
  • 15-09-2025 — Associação criminosa / burla informática / branqueamento / fraude fiscal: medidas de coacção divulgadas. Fonte (DCIAP)
  • 06-06-2025 — Operação "Abatedouro" (Lisboa): nota pública com referência a fraude fiscal (entre outros ilícitos). Fonte (DCIAP)
  • 21-05-2025 — Operação "Voo Cego": nota pública com referência a fraude fiscal qualificada (e outros crimes). Fonte (DCIAP)
  • 16-04-2025 — Caso "Ferry": destaque do DCIAP relativo a fraude fiscal qualificada. Fonte (DCIAP)
  • 24-02-2025 — Universo Espírito Santo: destaque do DCIAP sobre pronúncia em matéria de fraude fiscal qualificada. Fonte (DCIAP)
  • 05-05-2025 — Operação "Coriscos": referência a fraude fiscal em nota sobre diligências e prisão preventiva. Fonte (DCIAP)
  • Processo "Rota do Atlântico": acusação com referência a fraude fiscal qualificada. Fonte (DCIAP)
  • Acusações (catálogo): página agregadora do DCIAP com itens onde surge "fraude fiscal qualificada". Fonte (DCIAP)
2024
  • 12-07-2024 — Fraude fiscal qualificada: destaque do DCIAP com acusação. Fonte (DCIAP)
  • 15-10-2024 — Corrupção (âmbito desportivo) + fraude fiscal qualificada: destaque do DCIAP relativo a acusação. Fonte (DCIAP)
  • 11-07-2024 — Fraude na obtenção de subsídio + fraude fiscal qualificada + branqueamento: destaque do DCIAP (nota pública do inquérito). Fonte (DCIAP)
  • 17-01-2024 — Universo Espírito Santo (processo autónomo): acusação com referência a fraude fiscal qualificada. Fonte (DCIAP)

O ponto negro: justiça lenta num país de economia curta

O problema português não é apenas haver crime. Crime há em todo o lado. O problema é o ambiente: um Estado que muda regras com frequência, uma teia burocrática que devora tempo e uma justiça que, por vezes, chega quando a factura já foi paga por quem menos podia.

Num país saudável, o risco jurídico é um dado. Em Portugal, o risco jurídico é uma névoa. E a névoa tem um efeito brutal: quando não se vê o caminho, ninguém acelera — e o investimento produtivo, que exige horizonte, prefere outra estrada.

Epílogo: não basta "combater". É preciso não criar terreno fértil.

Sim, investigar e acusar é essencial. Mas o combate real começa antes: na clareza das regras, na estabilidade da lei, na redução do custo de contexto, e numa justiça que decide em tempo útil. Caso contrário, ficamos no ritual nacional: o país sofre, o país anuncia, o país processa… e o país continua a empurrar o futuro com um carimbo na mão.

Francisco Gonçalves
Crónica crítica • Fragmentos do Caos
Coautoria editorial de Augustus Veritas).

Referências e metodologia

  • DCIAP — índice de acusações: https://dciap.ministeriopublico.pt/acusacoes-dciap
  • DCIAP — destaques/actividade: páginas de "Destaque" consultadas para recolher casos com referência a fraude fiscal / fraude fiscal qualificada. (Ver links nos itens do dossier.)
  • Nota: esta lista reúne apenas casos tornados públicos pelo DCIAP; não pretende (nem pode) representar "todos os processos" existentes, por razões legais e processuais (segredo de justiça, fases de inquérito e julgamento, etc.).

UM ESPELHO INCÓMODO (ANTÓNIO LOBO ANTUNES)

Na democracia invisível, o poder não precisa de botas — basta-lhe o conforto. A mediocridade não governa por génio, governa por anestesia. E há quem a descreva com uma precisão que dói.

"A sociedade necessita de medíocres que não ponham em questão os princípios fundamentais e eles aí estão. Eles dirigem os países, as grandes empresas, os ministérios, etc. Eu oiço-os falar e pasmo não haver praticamente um único líder que não seja pateta, um único discurso que não seja um rol de lugares comuns. (...)"

"Gostamos dos idiotas porque não nos colocam em causa. (...) Eu faria um único teste aos políticos, aos administradores, a essa gentinha. Um teste ao seu sentido de humor. Apontem-me um que o tenha. Um só. Uma criatura sem humor é um ser horrível."

— António Lobo Antunes, excerto da crónica "10.6.17 (dia da morte do meu Pai)", VISÃO, 27 de Julho de 2017.

O resto — os painéis, as comissões, as promessas com laço — são coreografias. A máquina pede silêncio e chama-lhe "responsabilidade". E quem se recusa a adormecer passa a ser "radical". Como se ver fosse extremismo.

🌌 Fragmentos do Caos: Blogue Ebooks Carrossel
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