BOX DE FACTOS
  • Grande parte dos sectores económicos depende estruturalmente de subsídios.
  • Persistem empresas inviáveis mantidas artificialmente por fundos públicos.
  • A economia produtiva é substituída por mecanismos de sobrevivência.
  • Portugal tornou-se dependente crónico de transferências da União Europeia.
  • O Estado deixou de ser motor e passou a ser suporte vital.

O País a Soro: Portugal e a Economia da Dependência

Quando um país vive de subsídios, já não governa o seu destino — limita-se a prolongar a sua agonia.

I. A economia do vício

Em Portugal, o subsídio deixou de ser instrumento transitório e tornou-se modo de vida. Agricultores dependentes há décadas, empresas incapazes de sobreviver sem ajuda pública, negócios criados à sombra do poder político — todos ligados à mesma veia artificial.

Não se investe para crescer; pede-se para continuar. Não se cria riqueza; redistribui-se escassez. O país não planeia o futuro — negocia o próximo adiantamento.

II. Empresas zombies e a liturgia da salvação

Multiplicam-se empresas que já morreram economicamente mas continuam a respirar por aparelhos. Não produzem valor, não inovam, não competem — apenas aguardam.

Aguardam a "linha de apoio". Aguardam a "medida extraordinária". Aguardam a "salvação amiga".

E enquanto aguardam, consomem recursos que nunca chegam a quem poderia realmente criar futuro. É a economia do atraso institucionalizado.

III. O Estado como distribuidor de oxigénio

O Estado deixou de ser árbitro para se tornar enfermeiro. Distribui oxigénio financeiro a uma economia em falência crónica, mantendo-a viva apenas o suficiente para não morrer — mas nunca para recuperar.

Cada nova crise é tratada como emergência. Cada emergência como oportunidade política. E cada oportunidade termina em dívida.

Governa-se já não para transformar, mas para adiar o colapso seguinte.

IV. A União Europeia como bengala permanente

Portugal tornou-se especialista numa arte subtil: a da mendicidade sofisticada. Não pede esmola — pede "fundos estruturais".

Tranches chegam, discursos inflam-se, placas inauguram-se. Mas o tecido produtivo continua frágil, dependente, curto.

O dinheiro europeu não criou soberania económica —apenas prolongou a ilusão de que ela ainda existe.

V. Uma sociedade em modo sobrevivência

Economias moldam consciências. E uma economia de sobrevivência produz cidadãos exaustos.

Jovens partem. A classe média encolhe. A sociedade civil definha.

Cada ano lê menos, questiona menos, participa menos. Não por ignorância — por cansaço.

VI. A mediocridade como sistema de governo

Onde não há exigência, floresce a mediocridade. Onde não há consequência, instala-se a impunidade.

Lugares de conforto multiplicam-se. Estruturas intermédias vivem protegidas. A competência é tolerada apenas enquanto não ameaça o equilíbrio instalado.

O país não é governado para avançar — é gerido para não incomodar.

VII. Apagar fogos com gasolina

Cada problema estrutural é tratado com medidas conjunturais. Cada incêndio económico recebe gasolina legislativa.

Cria-se dependência para resolver dependências. Endivida-se o futuro para salvar o presente. E chama-se a isso "responsabilidade".

VIII. Um país mantido a soro

Portugal não está morto — mas também não está vivo. Está mantido.

Mantido por fundos.Mantido por dívida.Mantido por silêncio. Mantido por mentiras piedosas que agradam a todos.

Um país ligado a tubos, incapaz de se levantar sozinho, enquanto se convence diariamente de que "as coisas podiam ser piores".

Epílogo — O dia em que o soro acabar

Nenhum soro dura para sempre. Nenhuma economia vive eternamente de transfusões.

Ou Portugal decide voltar a produzir, investir, criar e exigir — ou continuará a sobreviver… até deixar de conseguir.

Porque países não morrem de crise. Morrem quando se habituam à dependência.

Francisco Gonçalves
com Augustus Veritas — crónica da lucidez em tempo de anestesia, no país que vive de fundos e fundações.
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