BOX DE FACTOS
  • Diagnóstico: "O Ocidente morreu" — não por explosão súbita, mas por erosão lenta de confiança e coesão.
  • Base empírica: inquérito global do European Council on Foreign Relations (ECFR), com ~26.000 inquiridos em 21 países.
  • Ideia-força: a lógica "America First" é percepcionada, em muitos países, como factor que beneficia a China mais do que reforça a liderança americana.
  • Europa: cresce o cepticismo sobre a fiabilidade dos EUA e o apoio a reforço de defesa e autonomia estratégica.
  • Frase cruel: o "Ocidente" não foi abatido — adoeceu e foi-se habituando à febre.

O Ocidente faleceu de doença prolongada

Não houve funeral. Houve rotina. Houve cansaço. Houve a substituição da confiança por "transacções", da aliança por "conveniências", do ideal por "gestão de danos". E, enquanto o Atlântico se enchia de nevoeiro, a China foi avançando — sem pressa, sem dramatismos, com a paciência de quem sabe que o tempo é uma arma.

1) A doença: quando a confiança deixa de ser cimento

Um império não cai apenas por perder batalhas. Cai quando perde crédito. A confiança é a moeda invisível do sistema internacional — e quando essa moeda desvaloriza, cada tratado passa a ser visto como papel molhado, cada promessa como ruído de campanha, cada "amizade" como um contrato com letras minúsculas.

O inquérito do ECFR aponta precisamente para isso: um mundo onde a América continua a "contar", mas onde poucos acreditam que ganhe influência; e onde muitos esperam que a influência chinesa cresça na próxima década. A imagem dos EUA como âncora de previsibilidade torna-se, para demasiados, a imagem de uma potência impulsiva, transaccional, intermitente.

2) A febre transatlântica: Europa entre o medo e a maturidade

A Europa vive uma contradição: quer a protecção americana, mas começa a desconfiar do protector. Quer a NATO, mas pressente que a palavra "aliança" está a ser substituída por "factura". E, quando a base emocional de uma aliança se rompe, sobra a matemática: quanto custa depender?

Daí o "divórcio atlântico" como metáfora de época: não significa necessariamente separação formal, mas sim a normalização do pensamento europeu em torno de uma ideia antes impensável:defender-se mais por si, planear como pólo, agir como pólo — ou ser irrelevante entre pólos.

3) O grande beneficiário: Pequim e a arte de ganhar sem gritar

A China beneficia de um fenómeno simples: quando o "Ocidente" se apresenta como instável, fracturado, moralmente errático e politicamente barulhento, Pequim pode vender a sua narrativa favorita: continuidade, planeamento, interesse nacional de longo prazo.

Não é que o mundo se tenha tornado "chinês" por convicção ética. É, muitas vezes, uma escolha de sobrevivência e conveniência: países que querem comércio, investimentos, tecnologia e margem de manobra — e que já não acreditam num alinhamento exclusivo com Washington como garantia automática de prosperidade e segurança.

4) O pós-Ocidente: o tempo das alianças "à la carte"

A palavra "Ocidente" sempre foi mais do que geografia: foi um mito operativo. Uma ideia de destino comum, de valores, de coordenação, de previsibilidade. Esse mito está a desfazer-se. O que o substitui é um mundo "à la carte": coopero aqui, rivalizo ali, compro-te isto, sanciono-te aquilo, abraço-te hoje, ignoro-te amanhã.

E quando a política externa se torna menu, os valores tornam-se decoração do restaurante: bonitos para fotografia, dispensáveis na cozinha.

Epílogo: o Ocidente não "morreu" — deixou-se morrer

A morte do Ocidente, se a frase tiver utilidade, não é um evento: é um hábito. Hábito de adiar reformas, de tratar a coesão como garantida, de trocar visão por polémica, de reduzir a democracia a espectáculo e a estratégia a improviso.

O mundo não espera. O mundo substitui. E, se a Europa não quiser ser apenas um rodapé numa história escrita por outros, terá de trocar lamentos por estrutura: defesa, energia, indústria, tecnologia, diplomacia — e coragem. Não a coragem do discurso, mas a coragem do custo.

REFERÊNCIAS
  • ECFR (Policy Brief, Jan 2026) — How Trump is making China great again—and what it means for Europe
    Link (PDF): https://ecfr.eu/wp-content/uploads/2026/01/How-Trump-is-making-China-great-again%E2%80%94and-what-it-means-for-Europe.pdf
  • ECFR (página da publicação) — autores: Timothy Garton Ash, Ivan Krastev, Mark Leonard
    Link: https://ecfr.eu/publication/how-trump-is-making-china-great-again-and-what-it-means-for-europe/
  • The Guardian (14 Jan 2026) — cobertura do inquérito e leituras sobre a deriva transatlântica
    Link: https://www.theguardian.com/us-news/2026/jan/14/global-survey-suggests-trump-is-making-china-not-america-great-again
  • PÚBLICO (14 Jan 2026) — "O Ocidente morreu", e a "América primeiro" de Trump aproximou o mundo da China (pode estar protegido por assinatura)
    Link: https://www.publico.pt/2026/01/14/mundo/noticia/ocidente-morreu-america-trump-aproximou-mundo-china-2161158
"Para permanecermos livres, temos de ser temidos", sublinhou. "Para sermos temidos, temos de ser poderosos." Macron, Presidente Francês in 15 jan 2026
Francisco Gonçalves
Co-autoria: Augustus Veritas — entre a bruma e a lucidez, a escrever contra a anestesia.
🌌 Fragmentos do Caos: Blogue Ebooks Carrossel
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