O Novo Analfabetismo: Doutorados sem Literacia da Complexidade

- Paradoxo: há diplomas, há doutoramentos, mas falta literacia para lidar com complexidade real.
- Sintoma: debate público reduzido a slogans, certezas rápidas e moralismo de bancada.
- Causa provável: ensino orientado a reprodução e validação, não a pensamento sistémico e incerteza.
- Consequência: decisões pobres em política pública, gestão e economia — com efeitos secundários ignorados.
- Proposta: formar cidadãos (e elites) capazes de modelar problemas, medir trade-offs e prestar contas.
O Novo Analfabetismo
Doutorados sem Literacia da Complexidade
Há um problema de literacia em Portugal que quase ninguém ousa nomear, porque fere susceptibilidades e derruba pedestais: a iliteracia da complexidade — precisamente entre quem tem formação superior, e até doutoramentos.
Não estou a falar de ignorância clássica, daquela que se cura com livros e curiosidade. Estou a falar de outra espécie, mais elegante e perigosa: a incapacidade de pensar em arquiteturas de sistemas, de lidar com incerteza, de reconhecer consequências indirectas, atrasos no tempo, efeitos colaterais, e o velho mecanismo invisível que move o mundo: interesses.
1) O diploma como escudo — e não como bússola
Em demasiados casos, o diploma serve como escudo: "eu sei, porque tenho o grau". Mas um grau não é uma lente universal. Pode ser apenas uma especialização estreita, afinada para um corredor muito específico do conhecimento. E quando a realidade aparece com mil variáveis, a resposta vira reflexo: autoridade em vez de análise.
2) A simplificação infantil e a retórica de cátedra
Quando o mundo exige pensamento complexo, o debate português tende a cair em dois buracos: a simplificação infantil ("é só fazer X") e a retórica de cátedra ("eu explico-vos como é"), muitas vezes com frases grandes e números sem contexto. A complexidade, porém, não se derrota com frases. Derrota-se com método, muito estudo, investigação e prática concreta.
E método significa: definir o problema, mapear actores, medir restrições, testar hipóteses, avaliar custos e benefícios, prever efeitos secundários, e aceitar — com humildade — que há sempre algo que não sabemos.
3) A incapacidade de viver com incerteza
A literacia da complexidade inclui uma virtude rara: conforto com a incerteza. Não é indecisão; é maturidade intelectual. É conseguir dizer: "isto depende", "falta-nos dados", "vamos testar", "podemos estar errados".
Portugal, pelo contrário, adora certezas: são rápidas, dão palco e poupam trabalho. Mas as certezas fáceis são o combustível perfeito para o desastre lento.
4) A complexidade não é ornamento — é condição do século XXI
Energia, habitação, saúde, imigração, justiça, escola, produtividade, IA, corrupção sistémica: nada disto cabe em slogans. São problemas com camadas, feedback loops, incentivos perversos, atrasos, e impactos que se propagam como ondas. Ignorar a complexidade é governar por instinto — e depois chamar "fatalidade" ao que foi apenas incompetência.
5) O que é, então, literacia da complexidade?
É saber separar sinal de ruído. É compreender que decisões têm trade-offs. É usar dados sem idolatrar números. É questionar incentivos, mapear interesses, prever comportamentos. É conseguir fazer a pergunta que assusta o sistema e a vaidade: "E se eu estiver errado?"
Um doutoramento que não ensina isto pode produzir erudição — mas não produz lucidez. Pode produzir artigos — mas não produz soluções. Pode produzir estatuto — mas não produz futuro.
Epílogo: a medalha e o mapa
O país não está a ser devorado apenas pela corrupção e pela mediocridade. Está a ser devorado por uma coisa mais subtil: a incapacidade de uma parte das suas elites de ler a realidade.
Há diplomas que são medalhas. Bonitas. Brilhantes. Fotogénicas. Mas a vida não se atravessa com medalhas ao peito — atravessa-se com um mapa. E a literacia da complexidade é precisamente isso: o mapa.
Se não aprendermos a pensar em sistemas, continuaremos a discutir sombras na parede — e a chamar "debate" ao ruído.