O Mundo em Roda Livre: O Regresso dos Impérios (Sem Bandeira e Sem Vergonha)

- O "novo imperialismo" raramente chega de tanque: chega de dívida, energia, tecnologia, dados e narrativas.
- As nações pequenas tornam-se corredores, tampões ou moeda de troca num tabuleiro que não controlam.
- Multipolaridade significa mais centros de poder — e mais fricção simultânea.
- Armas invisíveis (ciberataques, desinformação, dependências) podem ser tão eficazes como ocupações.
- O risco maior é a amnésia: quando a memória do horror desaparece, a tentação do horror regressa.
O Mundo em Roda Livre: O Regresso dos Impérios (Sem Bandeira e Sem Vergonha)
Há dias em que o mundo parece um veículo sem travões, descendo uma encosta de nevoeiro: não se vê o fim, mas sente-se a aceleração. E o mais inquietante não é a velocidade — é a normalidade com que a aceitamos. Como se a História fosse um ruído de fundo, e não um animal vivo, com dentes.
Dizem-nos, com ar de gente séria e gravata bem apertada, que "a ordem internacional" existe. Sim, existe — como existe uma cadeira quando já lhe tiraram duas pernas: pode aguentar um segundo… até cair com estrondo. O planeta está em roda livre, e as nações mais fracas voltaram a ser aquilo que os impérios sempre preferiram: matéria-prima, corredor, peão, sacrifício.
Impérios sem hino, mas com contrato
O imperialismo moderno não precisa de marchas. Prefere assinaturas. Não pede licença com botas; entra com juros. Não levanta bandeiras; levanta "parcerias estratégicas". E quando uma nação percebe, já não decide: apenas reage. A soberania fica reduzida a um folheto turístico — bonito, mas inútil.
Há países que não são invadidos: são capturados. Capturados por dependências energéticas, por cadeias logísticas, por tecnologia que não dominam, por dados que não controlam, por narrativas fabricadas à medida do medo. E o medo, como sabemos, é um excelente ministro do interior: fecha portas, fecha mentes, fecha futuros.
Mais perigoso do que o pós-guerra
No pós-guerra havia horror recente. Havia um trauma tão fresco que até os mais cínicos tinham o cuidado de fingir prudência. Havia linhas vermelhas não escritas, e um instinto básico de sobrevivência colectiva. Hoje, a memória esbateu-se. Troca-se História por entretenimento e, depois, admira-se que a realidade volte a morder.
A multipolaridade actual é um puzzle com peças que não encaixam: demasiadas ambições, demasiadas feridas, demasiada propaganda, demasiada ganância. E demasiada facilidade em transformar o outro em inimigo — porque o inimigo é útil: une tribos, distrai populações, justifica falhas.
A guerra que não se vê
Há uma guerra que não precisa de explosões para existir: a guerra do ruído. Ciberataques, sabotagem, desinformação, manipulação emocional, polarização. É uma guerra que entra em casa pelo ecrã, senta-se no sofá e começa a reescrever a realidade, frase a frase, até a pessoa já não saber se pensa ou se repete.
E no meio disto surge uma ironia sombria: temos mais ciência do que nunca, mais poder do que nunca, mais capacidade de produzir abundância do que nunca — e, ainda assim, agimos como se a civilização fosse um castelo de areia à beira-mar, sempre à espera da próxima onda para se desfazer.
As nações pequenas e a arte de não serem devoradas
Para as nações pequenas, a pergunta não é "quem manda?", mas "quem paga?" — e, sobretudo, "quem decide?". Porque um país pode manter eleições e parlamento, e mesmo assim perder a alma política: quando as escolhas são impostas por dependência, chamam-lhe "realismo". É um realismo curioso: sempre realista para o fraco, sempre "visão estratégica" para o forte.
O futuro pertence a quem constrói valor próprio: conhecimento, tecnologia, energia, educação séria, instituições decentes. O resto é conversa. E conversa é exactamente aquilo de que os impérios gostam: enquanto se fala, eles assinam.
Epílogo: quando pensar volta a ser resistência
Talvez este seja o ponto central: o mundo não está apenas perigoso — está distraído. E a distração é a antecâmara da servidão. O novo imperialismo não quer apenas território; quer resignação. Quer que as pessoas acreditem que nada pode mudar.
Mas a História tem um pequeno vício: por vezes, dá razão aos teimosos. Aos que não aceitam o inevitável. Aos que insistem em pensar, quando todos pedem silêncio. E é por isso que, mesmo neste tempo de roda livre, há uma esperança dura e simples: enquanto houver lucidez, ainda há travões possíveis.