BOX DE FACTOS
  • Rússia acusa a Ucrânia de um ataque com drones na passagem de ano, alegando dezenas de vítimas.
  • Moscovo classifica-o como "crime de guerra" — e fá-lo com uma serenidade digna de manual de propaganda.
  • O problema não é só a morte (que já é o abismo): é a transformação da morte em argumento de palco.
  • Num conflito prolongado, a verdade sofre sempre o primeiro bombardeamento — e a retórica vem logo a seguir, em segunda vaga.

O Incendiário a Clamar por Água

Quando o mundo já não distingue teatro de relatório, o cínico sobe ao palco, aponta o dedo, e pede silêncio para anunciar a sua "indignação".

Há frases que chegam embrulhadas em gelo moral, como se viessem do Ártico da consciência: "crime de guerra", dito por quem passa anos a ensinar ao planeta a gramática do terror. Se a ironia fosse combustível, esta notícia iluminava uma cidade inteira — e ainda sobrava para o gerador do cinismo.

O que se pede ao leitor não é que escolha um lado como quem escolhe um clube. É que não aceite a inversão dos espelhos: o incendiário a clamar por água, o autor do estrondo a exigir respeito pelo silêncio, o arquitecto do caos a distribuir certificados de civilidade.

A morte de civis, em qualquer latitude, não é estatística — é colapso. E é precisamente por isso que o uso da morte como instrumento retórico é obsceno. A tragédia não é uma conferência de imprensa: é um funeral. E há funerais onde o microfone devia ser proibido por decência.

A inflação moral: quando a palavra perde o peso

"Crime de guerra" é uma expressão com gravidade própria. Mas a gravidade, quando usada como piada recorrente, vira confete. E o mundo, cansado, começa a aceitar que tudo é "crime" — e portanto nada é. O resultado é simples e brutal: a linguagem deixa de proteger a vida.

Num conflito onde a verificação independente é difícil e a propaganda trabalha em turnos, a verdade aparece sempre com atraso — se aparecer. Entretanto, a máquina segue, alimentada por indignações selectivas e pela velha arte de transformar dor em munição narrativa.

O século do megafone

Antigamente, mentia-se com vergonha. Hoje, mente-se com design: título, subtítulo, vídeo curto, indignação pronta a consumir. A humanidade, de telemóvel na mão, foi promovida a jurado permanente — sem instrução, sem processo, sem provas. E o tribunal chama-se "feed".

O mais perigoso não é a acusação em si — é a normalidade com que ela é debitada por quem já normalizou o impensável. Como se a história fosse um quadro branco que se apaga com um comunicado.

Epílogo: um pedido indecente

Há um pedido mínimo que se faz a qualquer potência que clama por moral: coerência. E, quando não há coerência, pede-se pelo menos pudor. Se nem isso existe, fica-nos uma obrigação: não aceitar que o cinismo seja a nova forma de diplomacia.

Porque quando o terrorista de Estado começa a falar como fiscal da humanidade, o risco não é apenas a mentira. É a habituação. E a habituação é a antecâmara de todas as trevas.

Francisco Gonçalves
Nota de co-autoria editorial: Augustus Veritas
🌌 Fragmentos do Caos: Blogue Ebooks Carrossel
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