O Impossível é um Relógio: Reflexão Pessoal Sobre Obstáculos, Tempo e Elegância

- Ideia central: problemas são obstáculos — não sentenças.
- Tese: quase sempre existe uma solução elegante; o impossível é, muitas vezes, um relógio.
- Tom: reflexão pessoal, íntima, com visão de futuro.
- Data: 17 de Janeiro de 2026.
O Impossível é um Relógio
Houve sempre em mim uma suspeita — quase uma teimosia serena — de que os problemas não são monstros, mas sistemas incompletos. Podem rugir, podem ocupar o horizonte, podem impor a sua sombra sobre o dia, mas raramente são absolutos. O que parecem ser, com frequência, é apenas um conjunto de variáveis que ainda não compreendemos por inteiro.
Aprendi cedo a olhar para os obstáculos como quem olha para um terreno acidentado: não se discute com a montanha, contorna-se; não se vence o vento, ajusta-se a vela. A vida não pede heroísmo teatral — pede persistência inteligente. E quanto mais complexo o problema, mais acredito que existe, algures, uma solução elegante: não necessariamente fácil, mas coerente. Uma solução que, quando finalmente aparece, parece inevitável — como se sempre lá tivesse estado, à espera de ser encontrada.
A elegância não é pressa — é compreensão
Existe uma espécie de mentira subtil no mundo moderno: a ideia de que a rapidez é sinónimo de competência. Mas muitas das respostas mais fortes nascem devagar. A elegância é filha da compreensão, não do ruído. É a diferença entre forçar uma porta e descobrir a chave. Entre acumular esforço e afinar o método.
Talvez por isso eu sempre tenha sentido que os problemas são, no fundo, professores severos: não ensinam com gentileza, mas ensinam com precisão. Mostram-nos onde somos frágeis, onde somos impulsivos, onde ainda não sabemos o suficiente — e empurram-nos para um lugar melhor, desde que não desistamos à primeira tempestade.
O impossível é quase sempre aquilo que não tentámos
O impossível, para mim, raramente foi um "não". Foi um "ainda não". Um "não sabemos como". Um "faltam-nos tentativas", ou falta-nos tempo, ou falta-nos uma ideia que ainda não nasceu. A história humana está cheia de impossíveis que acabaram por caber num bolso. E a história pessoal, essa, está cheia de impossíveis que se tornaram possíveis quando alguém decidiu insistir um pouco mais — sem fanatismo, mas com disciplina.
Por isso gosto de pensar que o impossível não é um muro. É um relógio. Alguns marcam minutos. Outros marcam anos. Alguns pedem uma vida inteira. Mas continuam a ser relógios — não sentenças.
A verdadeira vitória: não ser dominado
Há, contudo, uma nuance essencial: nem sempre precisamos "vencer" o problema. Muitas vezes basta compreendê-lo o suficiente para que deixe de nos dominar. A maturidade talvez seja isso: não viver sem tempestades, mas aprender a navegar com menos medo. Não exigir que o mundo seja simples, mas exigir a nós próprios que sejamos mais lúcidos.
E assim continuo: a tropeçar, a ajustar, a recomeçar. Não por optimismo ingénuo, mas por convicção prática. Porque a vida, no fim, é uma engenharia paciente: diagnóstico, tentativa, melhoria contínua. E quando a solução chega — mesmo depois de muitas noites — ela chega com aquela calma de coisa verdadeira.
E então percebemos: o problema nunca foi o obstáculo. O problema foi acreditar que não havia caminho.
Epílogo
Continuo a acreditar numa regra íntima: se vale a pena, há um caminho. E se o caminho não aparece, talvez seja apenas o universo a pedir-nos mais tempo, mais precisão, mais elegância. O impossível, afinal, não é um "não". É um convite.
Texto de reflexão pessoal — Fragmentos do Caos