BOX DE FACTOS
  • Contexto: Segundo mandato de Donald Trump e rutura com o multilateralismo clássico.
  • Sinais de alarme: hostilização da Europa, ameaças comerciais, desprezo pela ONU.
  • Deriva interna: polarização extrema, violência política localizada, erosão da confiança institucional.
  • Risco central: os EUA não colapsarem — mas tornarem-se irreconhecíveis.
  • Questão-chave: quanto pode um império sobreviver quando se declara em guerra consigo próprio?

O Império e o Espelho Partido

Há impérios que caem por invasão. Outros caem por exaustão. E há aqueles — os mais trágicos — que se desmoronam enquanto se aplaudem ao espelho.

A pergunta deixou de ser se os Estados Unidos conseguem "suportar" Donald Trump. A pergunta verdadeira é outra:

quanto tempo consegue uma democracia sobreviver quando transforma o ruído em método de governo?

Os Estados Unidos não são frágeis. Têm instituições antigas, tribunais poderosos, Estados federados quase soberanos, universidades que pensam o futuro e uma economia ainda colossal.

Mas também têm algo novo — e perigosíssimo:

uma política que trata a instabilidade como virtude.

A violência que já não choca

Quando a polícia mata cidadãos e metade do país pergunta primeiro "de que lado estava", algo se partiu.

Quando manifestações são vistas como ameaças existenciais e não como expressão democrática, algo se corroeu.

E quando a violência política deixa de ser tabu para se tornar possibilidade discutida em talk-shows, a democracia entra numa zona crepuscular.

Não é guerra civil — ainda.

É pior: é normalização do abismo.

O presidente que governa por impulso

Trump não governa com estratégia. Governa com ressentimento.

Confunde diplomacia com humilhação pública. Confunde liderança com espetáculo. Confunde alianças com subserviência.

Hostiliza a Europa — o mais antigo aliado estratégico dos EUA. Despreza tratados. Ameaça tarifas como quem atira cadeiras num bar.

E, no gesto mais simbólico de todos, brinca com a ideia de criar uma "ONU alternativa" — como se a ordem internacional fosse um franchise pessoal.

A História conhece bem este tipo de líder:

o homem que acredita que pode substituir instituições por vontade.

Nunca termina bem.

A estranha indulgência com Putin

Há algo profundamente inquietante nesta "solidariedade tácita" com a Rússia de Putin.

Enquanto a Europa tenta defender fronteiras, direito internacional e soberania, Washington oscila entre silêncio cúmplice e ambiguidade calculada.

Não é ingenuidade. É cálculo político interno.

Mas o mundo não espera pelas eleições americanas.

Cada hesitação dos EUA é interpretada como fraqueza. Cada gesto errático é explorado por autocratas.

A liderança global não admite caprichos.

O império não cai — isola-se

Os Estados Unidos não vão "despenhar-se" amanhã.

O risco é outro — mais subtil, mais letal:

ficarem sozinhos.

Não por derrota militar, mas por perda de confiança.

Aliados começam a preparar planos B. A Europa fala em autonomia estratégica. O Japão reforça defesa. O Canadá afasta-se discretamente.

Quando todos se preparam para viver sem ti, o império já não lidera — apenas ocupa espaço.

A democracia como espectáculo decadente

A maior tragédia americana não é Trump.

É metade do país acreditar que destruir o sistema é a única forma de ser ouvido.

Quando a política deixa de oferecer futuro, as pessoas escolhem o incêndio.

E Trump é isso:

um fósforo numa sala cheia de frustração.

Epílogo — quando a idiotice vira doutrina

A idiotice não tem fim quando é recompensada.

Termina apenas quando encontra limites.

Limites judiciais. Limites económicos. Limites sociais.

Se esses limites resistirem, os EUA sobreviverão — feridos, mas inteiros.

Se caírem, não haverá colapso imediato. Haverá algo pior:

uma democracia poderosa transformada numa caricatura de si própria.

E quando o maior farol do século XX começa a piscar erraticamente, não é apenas a América que entra na noite.

É o mundo inteiro que perde orientação.

Francisco Gonçalves
Fragmentos do Caos — Crónica internacional
(Os impérios não morrem quando perdem guerras. Morrem quando perdem juízo.)
🌌 Fragmentos do Caos: Blogue Ebooks Carrossel
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