BOX DE FACTOS
  • O grotesco já não é metáfora: tornou-se método de governação.
  • O ruído venceu o pensamento: o "atrevimento" passou por competência.
  • A ignorância organiza-se — e veste gravata, farda, slogan e "directo".
  • A inteligência não desapareceu: foi encostada à parede, a pedir licença.
  • O perigo cresce quando a multidão aplaude aquilo que a diminui.

O Grotesco no Poder — A Humanidade com o Cérebro em Off

"Quando a realidade ultrapassa o humor, o palco muda de mãos: os humoristas tornam-se cronistas e os cronistas são acusados de exagero."

Bom dia, 2026. Entraste sem bater à porta — como quem já sabe que a casa está destrancada. E ao olharmos para 2025, apetece dizer uma coisa simples e brutal: a realidade cansou-se de fingir que era razoável.

Houve um tempo em que a sátira era a lupa que ampliava o ridículo. Agora, a sátira anda descalça, a correr atrás da notícia, com a língua de fora e o caderno vazio: não há tinta que chegue para acompanhar a rapidez com que o absurdo se oficializa.

A política como teatro — e o povo como figurante

A política tornou-se um palco onde o argumento não precisa de coerência — precisa de cliques. E o povo, tantas vezes exausto e ferido, aceitou o papel de figurante, aplaudindo com uma mão enquanto com a outra segura o telemóvel, como quem segura uma vela: não para iluminar, mas para filmar.

É aqui que o grotesco ganha força: quando a indignação vira entretenimento e a verdade vira "opinião". O debate transforma-se numa luta livre com gravatas. O slogan substitui a ideia. A fúria substitui o raciocínio. E a ignorância — essa antiga pobreza do espírito — passa a ser tratada como autenticidade.

A era do "cérebro em off"

Há um botão invisível que muitos carregaram sem dar por isso: OFF. Não é que as pessoas tenham deixado de pensar; é pior: começaram a achar que pensar é uma perda de tempo. Pensar dá trabalho. Exige silêncio. Exige dúvida. Exige a coragem de admitir: "posso estar enganado".

Ora, numa época em que a dúvida é vista como fraqueza e o grito é visto como prova, a inteligência torna-se um estorvo. E um estorvo, nas sociedades apressadas, vai para o sótão. Não se mata a inteligência — encosta-se. Ridiculariza-se. Rotula-se. Cansa-se.

E assim se instala a ignorância institucional: não a ignorância ingénua, de quem não teve oportunidade, mas a ignorância armada — aquela que não quer aprender porque já decidiu que saber é uma afronta. A ignorância que se orgulha de não ler. A ignorância que confunde complexidade com conspiração. A ignorância que chama "elite" a quem simplesmente estudou e trabalhou.

Trevas com boa iluminação

As trevas modernas não chegam com candeeiros apagados. Chegam com luzes de estúdio, com grafismos bonitos, com música épica e legendas em rodapé. Chegam com "especialistas" a opinar sem estudar, com líderes a prometer sem medir, com multidões a seguir sem perguntar.

É por isso que o mundo se torna perigoso: não apenas pelos maus — esses sempre existiram — mas porque se normaliza o disparate e se aplaude o autoritarismo embrulhado em "soluções simples". O bom senso não fugiu para parte incerta: foi empurrado. Foi interrompido. Foi gozado. Foi chamado de "ingénuo". E acabou sentado num canto, calado, a ver.

O que fazer quando o grotesco domina?

Há uma saída que não cabe em cartazes: voltar a ligar o cérebro. Voltar ao básico que assusta os preguiçosos do espírito: ler, comparar, verificar, duvidar. Dizer "não sei" sem vergonha. Rejeitar a sedução do atalho. Recusar o prazer fácil de odiar.

E, sobretudo, proteger aquilo que ainda resta de humanidade no meio do ruído: a capacidade de escutar, de pensar devagar, de construir em vez de destruir por impulso. Porque o grotesco alimenta-se de pressa. E a pressa é irmã gémea da manipulação.

Epílogo: uma vela acesa no meio do ridículo

Sim: 2025 parece ter sido escrito por um guionista que perdeu a vergonha e ganhou orçamento. Mas há uma ironia que ainda nos salva: o grotesco, por mais alto que grite, tem medo da lucidez. A lucidez não faz barulho — faz estrada.

E se 2026 tiver de ser o ano de alguma coisa, que seja isto: menos histeria, mais pensamento; menos culto do ignorante atrevido, mais respeito por quem trabalha e estuda; menos trevas com neon, mais luz simples — aquela que nasce quando alguém, no meio do caos, decide não desligar.

Texto de
Francisco Gonçalves
Co-autoria editorial: Augustus Veritas
🌌 Fragmentos do Caos: Blogue Ebooks Carrossel
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