BOX DE FACTOS
  • O paradoxo: investimos em longevidade, mas expulsamos quem a vive com lucidez e competência.
  • O vício dos RH: filtros automáticos e "cultura" como eufemismo para obediência.
  • O medo real: autonomia moral e memória institucional — não "falta de energia".
  • A disrupção verdadeira: só existe quando há conhecimento das engrenagens do sistema.
  • O desperdício social: vinte anos de experiência encostada ao silêncio administrativo.

O Etarismo é o Novo Nome da Mediocridade

Esticámos a vida com biotecnologia e, no exacto minuto em que a experiência começa a render juros, o mercado decide que a pessoa "já não encaixa". A pergunta não é "quem tem energia"; é "quem tem espinha dorsal".

Há qualquer coisa de obsceno na forma como a nossa civilização gere o tempo. A ciência abre-nos a porta de mais duas décadas de lucidez e potência — e o mercado responde com um gesto seco, como quem aponta para uma prateleira poeirenta no armazém dos "inadequados". Não é o envelhecimento que assusta: é a permanência do pensamento.

O etarismo não é um erro: é um método

No discurso público, tudo se mascara com palavras perfumadas: "dinamismo", "fit cultural", "espírito crítico", "mindset". Mas por baixo do verniz, a máquina procura outra coisa — procura permeabilidade. Procura alguém que se dobre. A juventude, pela sua própria natureza de início e prova, é mais fácil de moldar; a maturidade, por ter atravessado tempestades, torna-se menos susceptível ao teatro e às ordens embaladas em frases bonitas.

Um profissional sénior chega com memória — e a memória é perigosa. A memória recorda o que falhou, denuncia modas repetidas, reconhece o padrão do charlatão. Para um gestor inseguro, isto não é recurso: é ameaça. E o sistema, quando sente ameaça, chama-lhe "inadequação".

A falsa disrupção: quando a ignorância recebe aplauso

Convencionou-se que "disrupção" é um monopólio da juventude, como se a novidade biográfica fosse, por magia, inovação tecnológica ou ética. O resultado é uma idolatria estranha: celebra-se a ousadia sem mapa, o salto sem cálculo, a opinião sem lastro. Há uma diferença brutal entre romper um sistema e não o compreender.

A disrupção real exige repertório — exige saber onde estão as engrenagens, onde se esconde a fricção, onde mora o custo humano. Sem memória, a inovação torna-se uma roda reinventada com design mais caro e a mesma ineficiência de sempre. O futuro não se constrói apenas com energia; constrói-se com discernimento.

A prateleira é uma forma de eutanásia social

Criámos um deserto existencial entre os 60 e os 80: duas décadas onde se pede ao ser humano que abdique da utilidade pública e do seu papel na história, como se a reforma fosse um sacramento e não uma escolha. Encostar alguém com experiência ao banco de jardim, quando o cérebro ainda acende faróis, é uma espécie de eutanásia administrativa — silenciosa, limpa, "civilizada".

E, no entanto, o mercado tem uma contradição hilariante: quer o dinheiro dos mais velhos, mas não quer a sua lucidez. Quer consumidores, não quer consciências. Quer compras, não quer perguntas. Num mundo cada vez mais automatizado, a ironia é óbvia: o que restará de verdadeiramente valioso será precisamente o que a idade costuma oferecer melhor — ética, prudência, percepção de risco, sentido histórico, capacidade de ver a longo prazo.

Uma limpeza urgente: recrutamento, cultura e coragem

Precisamos de uma limpeza nos processos de recrutamento — não daquelas "limpezas" que servem para trocar palavras, mas sim uma limpeza que expulse o automatismo mental e a preguiça moral. O algoritmo que exclui por idade é apenas o reflexo digital de um preconceito velho, disfarçado de modernidade.

E precisamos, sobretudo, de uma revolução individual: a coragem de dizer "não" ao fetiche da carne fresca, "não" ao culto do descartável, "não" à ideia de que a experiência é um fardo. A biologia deu-nos o bónus do tempo. Resta saber se a sociedade tem inteligência suficiente para o usar — ou se continuará a empurrar as melhores mentes para a prateleira, apenas porque incomodam os pequenos tronos onde a mediocridade se senta.

Epílogo: o futuro não tem data de fabrico

O mundo não será salvo pelos mais novos nem pelos mais velhos — será salvo pelos que pensam melhor, pelos que têm consciência e pelos que não se vendem ao medo. Há gente jovem envelhecida por dentro, e há gente madura perigosamente lúcida. O que decide não é a idade: é a dignidade.

Augustus Veritas
Crónica editorial para o Fragmentos do Caos — onde a tecnologia encontra a ética, e a experiência recusa pedir desculpa por existir.
Nota de co-autoria: texto desenvolvido em colaboração com Francisco Gonçalves.
🌌 Fragmentos do Caos: Blogue Ebooks Carrossel
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