BOX DE FACTOS
  • Ponto de partida: sempre fui exigente com os outros, mas nunca mais do que exigia a mim próprio.
  • O rótulo: quando a competência incomoda, chamam-lhe "mau feitio".
  • A táctica: atacar pelas costas para isolar, enfraquecer e prejudicar.
  • O alvo secundário: contaminar o meu staff com o mesmo estigma ("já está com o mau feitio do Francisco Gonçalves").
  • O princípio: "Antes ter mau feitio do que mau carácter".

O Crime de Brilhar

Nunca me perseguiram por roubar, mentir ou falhar. Perseguiram-me por uma coisa muito mais perigosa num país que vive de aparências: perseguiram-me por fazer bem e por pugnar sempre pela excelência. E como a cobardia é quase sempre a tinta oficial da mediocridade, os ataques raramente vinham de frente.

Sempre fui exigente. Com quem colaborava comigo, com quem me chefiava, e com quem eu coordenava. Mas havia uma regra que eu nunca traí: não exigir aos outros aquilo que eu não exigia a mim próprio. Eu não pedia heroísmo — pedia rigor. Não pedia perfeição — pedia método. Não pedia genialidade — pedia responsabilidade.

E foi aí que comecei a aprender a primeira grande lei invisível da maioria das organizações: o competente não é premiado; é observado. Primeiro com curiosidade, depois com desconforto, e por fim com um apetite voraz para o derrubar.

1) O brilho não é perdoado: é diagnosticado

Eu destacava-me, simplesmente porque estudava, experimentava, simulava, previa, antevia. E tudo isso custava muitas horas de sacrifício pessoal e aturado estudo e pensamento crítico. Já Einstein, que nele era modéstia, dizia " Que génio é 1% de inspiração e 99% de transpiração". Para ele eu acredito que talvez isso não fosse verdade, mas para mim sempre foi.

Sim, porque eu me preparava, revia alternativas, antevia falhanços, e tudo isto era trabalho árduo. Porque aprofundava. Porque não improvisava em cima do joelho, quando o assunto exigia cálculo, arquitectura, segurança, método e responsabilidade. O meu "brilho" não era vaidade nem coincidência ou acaso — era consequência.

Mas o que é consequência para uns, para outros é ameaça. Quem vive de rotina sente a competência como um espelho. E um espelho, para quem tem medo de se ver, é sempre agressivo.

E então surgia o diagnóstico social — não técnico, não factual, não demonstrável — o diagnóstico perfeito: "O Francisco Gonçalves tem mau feitio." Era a forma elegante de dizer: "O Francisco obriga-nos a pensar."

2) "Não se pode falar com ele": a arma dos que não têm argumentos

Ouvi vezes sem conta a sentença que os incapazes adoram porque lhes permite fugir ao conteúdo: "Não se pode falar com ele." Como se eu fosse uma tempestade emocional e não um homem que exigia justificação para decisões técnicas, coerência em projectos, responsabilidade em prazos e clareza em compromissos.

A verdade é que se podia falar comigo, sim. Só não se podia fazer uma coisa: falar vazio. E para muita gente, falar vazio é a profissão.

3) A cobardia organizacional: atacar pelas costas

Os ataques frontais eram raros. Por uma razão simples: de frente, eu respondia. E quando eu respondia, não respondia com insultos — respondia com factos, com lógica, com trabalho feito. Ora, factos são inconvenientes em ambientes onde a verdade é negociável.

Assim, a perseguição preferia o caminho do corredor: murmúrios, insinuações, frases plantadas, "ouvi dizer", "há quem ache", "tem cuidado". A cobardia tem sempre um tom de falsa preocupação.

O objectivo não era debater ideias. Era desgastar. Isolar. Criar clima. Tornar o competente "difícil", para que a incompetência pareça "leve" e "boa onda".

4) O ataque ao meu staff: quando a competência contagia

Houve uma parte particularmente reveladora — e, de certo modo, até cómica na sua miséria medíocre vigente ( eu pessoalmente sentia dó!) : começaram a atacar pessoas da minha equipa com frases do género: "O fulano X já está com o mesmo mau feitio do Francisco Gonçalves."

Traduzindo para português correcto: "Ele começou a trabalhar bem demais. Está a aprender rigor. Está a deixar de ser maleável. Está a tornar-se perigoso."

Na grande maioria das organizações em Portugal, a competência é vista como uma doença transmissível. E o "mau feitio" é apenas o nome popular que dão ao acto de recusar mediocridade, de recusar alinhar com o rebanho.

5) A minha resposta: uma linha vermelha

Eu sempre desvalorizei essas medalhas de papel. E quando alguém, raramente, me atacava de frente, eu respondia com a frase que resumia o meu código moral: "Antes ter mau feitio do que mau carácter."

Porque o "mau feitio" é uma etiqueta que os medíocres colam nos íntegros. Mau carácter é outra coisa: é sabotar, manipular, mentir, conspirar, prejudicar pelas costas, sorrir à frente e apunhalar no silêncio.

6) A lição final: o preço de não ser pequeno

Com o tempo, percebi que, há na sua maioria, lugares onde não se sobe por mérito, sobe-se por conformidade. E nesses lugares, quem mantém padrões torna-se um intruso. Não porque seja arrogante — mas porque a sua simples existência denuncia o resto.

A perseguição cobarde não dizia respeito a mim, no fundo. Dizia respeito ao medo que os outros tinham de ser confrontados com aquilo que não fizeram, com aquilo que não estudaram, com aquilo que não conseguiram sustentar.

Hoje olho para trás e vejo uma coisa com clareza: nunca fui perseguido por falhar; fui perseguido por recusar falhar. E se isso me custou paz em certos momentos, também me deu uma vantagem rara: a tranquilidade de poder viver sem me trair.

Epílogo: a minha "culpa"

Se a minha culpa foi ser exigente, aceito-a. Se a minha culpa foi insistir em rigor, aceito-a. Se a minha culpa foi brilhar por trabalho, estudo e competência, então sim:sou culpado.

Porque há uma forma de paz que eu nunca quis: a paz comprada ao preço da mediocridade, ou seja a "Paz dos cemitérios". NUNCA! E há um tipo de silêncio que eu nunca aceitei: o silêncio que protege os cobardes.

Memórias de uma vida bem vivida por : Francisco GonçalvesFragmentos do Caos
crónica pesdoal, mantendo responsabilidade humana pelo juízo, pela intenção e pelo progresso da humanidade.
🌌 Fragmentos do Caos: Blogue Ebooks Carrossel
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