BOX DE FACTOS
  • Gestão histórica: Horácio Roque (fundador/presidente) + Joaquim Marques dos Santos (director e depois presidente).
  • Offshore: presença do grupo BANIF em Caimão; menções nos Bahamas Leaks.
  • Mudança de ciclo: entrada de Jorge Tomé (ex-CGD e da confiança dos governos) em 2012, num banco já em estado crítico.
  • Pano de fundo judicial: Operação Monte Branco; foco mediático recai sobre Tomé.
  • Questão central: quem desenhou a arquitectura e quem paga o epílogo?

BANIF, Caimão, Monte Branco e a Arte Portuguesa de Culpar o Epílogo

Há países que exportam vinho, cortiça e engenho. Portugal exportou durante décadas uma especialidade mais discreta: nevoeiro institucional. E no nevoeiro, curiosamente, os mesmos corredores voltam sempre a ser percorridos pelos mesmos sapatos.

1) O eixo duro: Roque e Marques dos Santos

Durante décadas, o BANIF não foi um banco como os outros. Foi, na prática, um reino privado. Horácio Roque fundou, dominou, decidiu. Joaquim Marques dos Santos executou, geriu, consolidou. Não estamos a falar de gestores decorativos. Estamos a falar de arquitectos de sistema.

Quando um banco vive tantos anos sob a mesma dupla, não herda apenas decisões — herda cultura, métodos, reflexos. E isso é crucial para perceber tudo o que vem depois.

2) Caimão e o dinheiro que aprende a falar baixo

O grupo BANIF teve presença em jurisdições offshore como as Ilhas Caimão. Isto não é teoria — é documentação pública. Por si só, não é crime. Mas é uma escolha. E escolhas destas não são feitas para simplificar a vida ao cliente de balcão.

As offshores não existem para facilitar a transparência. Existem para optimizar a opacidade. E quando alguém diz "máquina de lavar dinheiro", entra-se no domínio do alegado — mas também no domínio do plausível, num sistema que escolheu geografias onde o segredo é serviço premium.

3) Bahamas Leaks: o espelho indiscreto

O nome de Joaquim Marques dos Santos surge associado aos Bahamas Leaks. Não é uma sentença. É um sinal. E em qualquer democracia madura, sinais destes desencadeiam alarmes — não bocejos.

Em Portugal, pelo contrário, a reacção é quase poética: "Não se passa nada… até se passar tudo."

4) A morte do rei e a sucessão do nevoeiro

Horácio Roque morre em 2010. O banco já estava fragilizado. Marques dos Santos assume a presidência. O modelo mantém-se. A arquitectura não é desmontada. Apenas muda a cortina.

E aqui começa a parte mais portuguesa da história: o banco entra em falência progressiva, mas o sistema reage como se fosse uma constipação.

5) 2012: entra Jorge Tomé — e entra a política, e a máquina do governo, pela porta lateral, e num banco privado!

Em 2012, surge Jorge Tomé, vindo da CGD. Não vem por acaso. Não vem por concurso público. Vem de um banco [CGD] que já tapava "buracos", que mais eram furos hertezianos, e num contexto em que o banco BANIF já respirava por tubos.

E aqui a pergunta moral e cirúrgica que se impõe : é normal um governo, directa ou indirectamente, influenciar a gestão de um banco privado e "indicar" um gestor que era público ? Não. Não é. Só é "normal" em países onde a fronteira entre banca e política é desenhada a lápis.

Formalmente, são os accionistas que aprovam. Informalmente, em Portugal, toda a gente sabe como funciona: o telefone toca antes da assembleia.

6) O truque de ilusionismo: entra o epílogo, sai o prólogo

E eis o momento mágico: o banco cai. O escândalo rebenta. E quem surge no foco mediático e judicial? Jorge Tomé.

O homem que entra quando a casa já está a arder passa a ser tratado como se tivesse acendido o fósforo. Enquanto isso, os arquitectos do edifício… evaporam-se na memória colectiva, do mapa e radar da justiça. Como diria alguém "porreiro ...pá!".

7) Monte Branco: o pano de fundo conveniente

A Operação Monte Branco é um megaprocesso de fraude fiscal e branqueamento. E é aqui que o nome de Tomé aparece como arguido. Estranho? Sim. Conveniente? Também.

Não porque Tomé seja um santo. Mas porque o padrão é sempre o mesmo: culpa-se o último capítulo e absolve-se o primeiro volume.

8) A pergunta que ninguém quer fazer

Se o banco foi gerido durante décadas por Roque e Marques dos Santos… se a arquitectura offshore foi criada nesse tempo… se a cultura interna nasceu aí… então porque é que o peso judicial e mediático aterra sempre no último gestor?

Porque em Portugal existe uma ciência exacta chamada deslocação de responsabilidade. É o único ramo da matemática em que somos verdadeiramente brilhantes.

Epílogo: o País que absolve o sistema e condena o figurante

O cidadão comum pede apenas isto: que a culpa tenha rosto e a verdade tenha morada. Mas o sistema responde com um clássico: "não há provas suficientes".

E assim se fecha o ciclo: o dinheiro desaparece, o banco colapsa, o contribuinte paga, e os arquitectos… escrevem memórias.

ADENDA DE REFERÊNCIAS
Conjunto de ligações úteis para documentação pública, peças jornalísticas e bases de dados que enquadram BANIF, presença offshore (incluindo Caimão), Bahamas Leaks e o pano de fundo do mega-processo Monte Branco.

1) Comissão Parlamentar de Inquérito ao BANIF (audições e cobertura pública)

2) Documentação institucional e relatórios (resolução BANIF e perímetro do grupo)

3) Bahamas Leaks / Offshore (menções e base de dados)

4) Operação Monte Branco (ligações mediáticas ao universo BANIF)

Nota editorial

Esta lista agrega fontes públicas e noticiosas para enquadramento. Onde existam alegações sem prova pública directa, deve usar-se linguagem prudente ("segundo…", "consta…", "foi noticiado…") para separar indignação legítima de afirmações factuais não documentadas.

Fica portanto o caro leitor avisado. Há factos, há eventualmente ilícitos, mas alegamente nenhum crime foi provado pela justiça, e com tal todos os nomes mencionados, não foram sequer indiciados, e menos ainda acusados pela justiça, nem declarados culpados de nenhuma injustiça ou ilícitos. É a vida!
Francisco Gonçalves in "memórias frescas de uma vida"
Co-autoria editorial: Augustus Veritas — lâmina e luz

NOTAS FINAIS :

Nas audições no Parlamento [Artigo no Jornal de Notícias sobre o título : 'Marques dos Santos: Banco de Portugal acompanhava "permanentemente" o Banif' ] — no âmbito do caso BANIF — ficou registado em acta e memória pública um dos momentos mais perturbadores da nossa história financeira recente.

O descaramento destes gestores, que tudo decidiram, tudo autorizaram e tudo controlaram — muitas vezes na fronteira e, alegadamente, para lá da legalidade — não é apenas chocante: é um atentado moral contra o povo português e um roubo de futuro às gerações que ainda não votam, mas já pagam.

A estratégia retórica é velha, gasta e previsível: "desconhecia", "fui surpreendido", "não estava na gestão", "soube pelos jornais". É a liturgia do álibi. Uma névoa burocrática cuidadosamente fabricada para transformar responsabilidade em neblina e culpa em vapor. E quando se trata de dinheiro público, essa névoa não é ingenuidade — é desrespeito. Não é ignorância. É a consciência desligada em modo avião.

Portugal não é um país de estúpidos, apesar do que muitos governantes parecem acreditar. É um país de gente inteligente, trabalhadora e lúcida, aprisionada num sistema que recompensa a mediocridade, protege a incompetência e promove a amnésia selectiva como política de Estado.

O país viu audições, ouviu negações e assistiu ao desfile do "não sabia", "não me lembro" e "fui surpreendido". Viu coimas do supervisor, idoneidades questionadas e arguidos noutros processos. O que não viu — e isso é o escândalo maior — foi uma responsabilização penal proporcional ao dano colectivo causado. Em Portugal, a ruína é pública, a culpa é difusa e a consequência é rara. E é nessa assimetria obscena entre prejuízo social e conforto individual que nasce a sensação de impunidade que corrói, em silêncio, a própria ideia de justiça. E também o criminoso empobrecimento colectivo da nação.

Se Portugal fosse um país sério, e a Justiça tivesse a dignidade que o nome exige, estes administradores bancários que, por acção ou omissão, conduziram instituições à falência e lançaram o Estado — isto é, o povo — para dentro do abismo financeiro, estariam hoje a cumprir longas penas de prisão.

E todos os seus bens — patrimónios, participações, offshores e confortos acumulados — estariam arrestados a favor do Estado, para ressarcir os contribuintes que pagaram, sem voto na matéria, a factura da sua ganância e da sua irresponsabilidade.

Mas Portugal não é um país sério. Não é, infelizmente, um país plenamente civilizado no que toca à responsabilização do poder. Aqui, mandam os poderosos. Mandam os que tudo podem. Mandam os que podem tudo — até roubar o futuro de um país inteiro.

E há algo que eles continuam a subestimar perigosamente:
👉 a memória pode ser lenta, mas quando acorda… é implacável.

A história ainda não foi escrita. Mas as contas estão. E a paciência não é infinita.

🌌 Fragmentos do Caos: Blogue Ebooks Carrossel
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