NOTA EDITORIAL / ENQUADRAMENTO

O texto que se segue é uma crónica de reflexão cívica e um testemunho pessoal, escrito a partir de experiência directa vivida pelo autor e da sua memória dos acontecimentos, tal como foram então percebidos e hoje recordados.

Esta publicação não constitui nem pretende constituir imputação de factos criminais, acusação jurídica ou atribuição de responsabilidade penal a pessoas concretas. Qualquer referência a entidades, cargos ou figuras públicas surge apenas no plano histórico, institucional, político e moral, no âmbito do legítimo exercício da liberdade de expressão e do direito de crítica em democracia.

As interpretações e leituras apresentadas são de natureza opinativa, não substituem investigação oficial, auditoria forense ou apreciação judicial, e destinam-se exclusivamente a contribuir para o debate público, a memória colectiva e a exigência de transparência e responsabilização em matérias de interesse geral.

Por respeito aos leitores e ao rigor, evita-se aqui qualquer afirmação peremptória sobre a legalidade de procedimentos internos, limitando-se o autor a relatar o que viveu e a formular perguntas cívicas que, num Estado de direito, são não só legítimas como necessárias.
Por último, e num tom de provocação, pergunto-vos, caros leitores, altos magistrados da nação e políticos deste Portugal : É este o legado e o país que querem deixar como futuro, para os vossos filhos e netos?!
- Francisco Gonçalves

BOX DE FACTOS
  • Testemunho directo: em 2007/2008, todos os trabalhadores receberam um envelope com dinheiro vivo, rondando +€450 por pessoa. Cargos mais altos recebiam ainda mais. Tudo dinheiro vivo.
  • Universo: num banco nacional, isto significa centenas de milhares a mais de um milhão de euros em numerário físico.
  • Ruptura de padrão: o autor trabalha desde 1977 e nunca recebeu dinheiro vivo de entidade empregadora — excepto dos pais, quando estudante.
  • Anomalia operacional: prémios em numerário são incompatíveis com práticas modernas de compliance, auditoria e AML.
  • Tese: quando o dinheiro aparece sem história, a história já está a apodrecer por dentro.

O Banco dos Envelopes: anatomia de uma falência anunciada

Trabalhei desde 1977. Atravessei empresas, sectores, países, culturas. Nunca recebi dinheiro vivo de um empregador. Até ali. Quando o envelope apareceu, o banco já estava a morrer — só ainda não sabíamos.

Em 2007 e 2008 o mundo financeiro já ardia, e o cheiro a fumo entrava pelas portas giratórias como uma verdade mal disfarçada. Foi nessa altura — e isto não é rumor, é memória vivida — que um banco distribuiu, no fim de ano, a cada funcionário um envelope com dinheiro vivo. Não era transferência. Não era recibo detalhado. Não era "processamento normal". Era o velho ritual da nota dobrada: discreta, quente, quase íntima.

O valor rondava os 450 euros. Pode parecer "pouco". O diabo está no plural. Multipliquemos por um universo típico de um grupo bancário nacional: milhares. E de repente temos uma imagem absurda e, por isso mesmo, reveladora: mais de um milhão de euros em notas, a circularem em envelopes, num ambiente que vive de controlo, registo e rastreabilidade.

A prova que desmonta a desculpa: 1977 → nunca → Banif

Há um detalhe que destrói qualquer tentativa de normalização deste episódio. Comecei a trabalhar em 1977. Passei por informática pesada, indústria, banca, telecomunicações, gestão, projectos internacionais, culturas organizacionais diversas. Em mais de três décadas de carreira, nunca recebi dinheiro vivo de uma entidade empregadora ou outro qualquer cliente. Tudo através dos bancos e devidos impostos, elevados, liquidados.

Nunca. Nem em bónus. Nem em prémios. Nem em "gratificações". Nem em "mimos".

A única excepção na minha vida foi quando era estudante e os meus pais me davam algum dinheiro para ajudar. Isto é decisivo. Porque um banco não é pai. Um banco não dá mesadas. Um banco não educa. Um banco contrata, paga, regista e responde.

Quando uma instituição financeira começa a comportar-se como tio generoso de aldeia, não estamos perante cultura. Estamos perante ruptura de padrão. E em análise séria, as rupturas de padrão são sempre sinais.

A pergunta que não se faz é sempre a mais perigosa

De onde veio aquele dinheiro? Não "em teoria". Em concreto. Quem o mandou levantar? De que conta saiu? Em que rubrica entrou? Quem assinou a autorização? Quem transportou? Quem guardou? Quem conferiu? Que auditor viu? Que supervisor aceitou como normal?

Um banco não é uma quermesse. Não é uma feira. Não é uma junta de freguesia com caixa de sapatos. Um banco é, por definição, uma máquina de confiança, e a confiança tem um requisito técnico: rasto. Quando o rasto desaparece, não estamos perante generosidade. Estamos perante um sistema que já não acredita na sua própria limpeza.

O envelope como linguagem de regime

O envelope é mais do que dinheiro: é uma mensagem. Diz "toma" sem dizer "declaro". Diz "fica bem visto" sem dizer "presta contas" e "não contes a ninguém". É um carinho rápido, uma pequena anestesia, um gesto que cria sentinento de pertença e, ao mesmo tempo, evita perguntas.

E aqui entra o que custa admitir: em instituições que se aproximam do abismo, a gestão por vezes troca liderança por sedação. Não é preciso que seja conspiração. Basta que seja cultura. Uma cultura onde a normalidade se vai tornando elástica, até caber o inaceitável.

Marques dos Santos e a sombra maior

Este texto não é um julgamento em tribunal. É um julgamento moral e cívico. E é por isso que o nome de Marques dos Santos surge aqui como símbolo de uma pergunta maior: como é que se dirige um banco, ano após ano, sem que práticas anómalas gerem consequência pública, apuramento e responsabilidade?

Porque, quando um banco cai, dizem-nos sempre que a queda foi "inesperada". O país adora esta palavra: inesperado. O inesperado é a forma elegante de dizer "ninguém quis ver". Mas quem vive lá dentro vê os sinais: os desvios pequenos, os hábitos estranhos, o folclore que não é folclore — é alarme.

Portugal, o país onde o prejuízo não tem pai

Há uma doença nacional que não está nos livros de medicina: chama-se orfandade do erro. O erro acontece, o prejuízo cresce, o rombo abre, e no fim o país fica a olhar para a cratera como quem olha para uma tempestade: "foi o tempo". "foi a conjuntura". "foi a herança". "foi o mercado". "foi a vida".

E entretanto, o cidadão paga. Paga com impostos. Paga com serviços degradados. Paga com salários magros. Paga com a vergonha subtil de viver num lugar onde a responsabilidade é sempre de alguém "mais abaixo", "mais longe" ou "já reformado".

O que um país sério faria com esta memória

Um país sério trataria este episódio como o que é: um indício material de anomalia. Não para perseguir trabalhadores (que receberam), mas para investigar decisores (que decidiram) e processos (que permitiram). Com auditoria forense retroactiva. Com cruzamento de rubricas. Com identificação de autorizações. Com responsabilização, se houver matéria para isso.

Em Portugal, a resposta típica é mais discreta: uma sobrancelha levantada, um "não sei", um "não me lembro", e a vida segue. Mas a vida não segue: a factura acumula-se. E a factura, um dia, volta — sempre volta — sob a forma de resgate, de colapso, de austeridade, de empobrecimento colectivo.

Epílogo: o envelope não era prémio — era sintoma

O que hoje me inquieta não é o dinheiro que entrou no envelope. É a naturalidade com que se aceitou que um banco operasse, por instantes, como se a lei fosse uma cortina e a ética um adereço. O envelope não era um prémio. Era um sintoma. E os sintomas, quando são ignorados, tornam-se destino.

Se a prática foi só do Banif, ou outros bancos nacionais também usaram estes esquemas, é mais uma pergunta incómoda que vos deixo, como cidadão responsável, e que escreve e investiga com rigor, por uma democracia mais saudável e um país de dignidade e justiça para todos, sem excepções ou imunidades da ignominia.

Francisco Gonçalves
Fragmentos do Caos — memória, lâmina e responsabilidade. E para que a História se faça de memórias e da verdade vivida. E que no futuro este texto ajude a dissipar nevoeiros e venha sem opacidade e a impunidade seja castigada severamente.
Co-autoria editorial: Augustus Veritas [ assistente de IA ]
🌌 Fragmentos do Caos: Blogue Ebooks Carrossel
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