O Artista dos Ajustes — e a política como palco permanente

- O tema reaparece como fantasma recorrente: ajustes directos, ligações partidárias e ética em modo "explicador".
- A palavra "legal" surge sempre impecável; a palavra "decente" aparece, quando muito, em itálico invisível.
- O país oscila entre duas emoções: indignação instantânea e amnésia programada.
- A pergunta que fica: um Governo cai por factos… ou por narrativas?
O Artista dos Ajustes — e a política como palco permanente
O caso continua. Não é novidade: em Portugal, certas histórias não acabam — renovam. Trocam-se as falas, ajusta-se a luz do palco, muda-se o ângulo da câmara. E o enredo regressa com a mesma serenidade com que regressam as promessas de "rigor", "transparência" e "confiança".
A legalidade como perfume: cheira bem, mas não alimenta
A defesa é quase sempre a mesma, com pequenas variações de entoação: "foi legal". E eu acredito. A sério. O problema é que Portugal já não precisa apenas de legalidade — precisa de limites morais que não sejam facultativos, e de uma ética que não pareça um folheto turístico: bonita, mas só para inglês ver.
Quando um político se vê envolvido numa teia de contratos, relações e coincidências, o país é convidado a aceitar uma ideia genial: o conflito de interesses é uma superstição. E quem duvidar é "populista", "radical" ou — pecado mortal — "desconfiado".
O truque antigo: transformar perguntas em ataque
Em democracia madura, as perguntas são oxigénio. Em democracia cansada, as perguntas são tratadas como vandalismo. Assim, quando alguém pergunta "como foi?", "porquê assim?", "por que razão sempre os mesmos?", o sistema responde com a sua arma favorita: indignação performativa. Não para esclarecer — mas para cansar.
E o cidadão, que já trabalha o mês inteiro para pagar rendas e impostos, ainda tem de arranjar energia para decifrar o labirinto: subcomissões, pareceres, arquivamentos, explicações em série. É a burocracia como anestesia: a dor continua, mas o corpo adormece.
Então vai o Governo cair?
Pode. Mas repare-se na ironia: um Governo raramente cai só por um facto; cai quando o facto se torna intolerável no teatro público. E isso depende menos da verdade do que do vento: do desgaste, do ruído, do cansaço colectivo, da oposição a cheirar sangue, e da comunicação social a empurrar a bola de um lado para o outro como se fosse um campeonato.
O que me preocupa não é apenas a queda — é a normalização. Porque quando um país aceita que "é assim" — que ajustes aqui e acolá são folclore administrativo — então já não discute ética: discute apenas técnica de sobrevivência. E isso é o princípio de uma decadência elegante, com gravata e sorriso.
O fim (provisório) desta peça
Se este Governo cai ou não, é uma variável. Mas há uma constante cruel: enquanto a política for um palco onde a ética é figurante, e os negócios entram em cena pela porta lateral, o país continuará pobre — não apenas no salário, mas na própria ideia de futuro.
E assim seguimos: um país inteiro a pagar bilhete, para ver sempre a mesma peça — com actores diferentes e o mesmo guião.
Fontes & Referências
- O Jornal Económico — "Montenegro faturou 400 mil euros em ajustes diretos de autarquias do PSD": link
- Polígrafo — verificação sobre os 400 mil e contratos (Base / autarquias de Espinho e Vagos): link
- Portal do Governo — página oficial do Primeiro-Ministro (período de governação): link
- RTP — mensagem e enquadramento político (2026): link
- Reuters — contexto pós-eleitoral e formação de Governo em 2025: link
Fragmentos do Caos — crónica e sátira crítica. Co-autoria na pesquisa e investigação de Fontes credíveis : Augustus Veritas - Assistente de IA.