O Apocalipse Vende, a Água Não: tecnologia, medo e a arte de governar pela escassez

- O apocalipse dá audiências. A água potável não se fabrica com conferências.
- Dessalinização e transporte de água são tecnologias conhecidas — o que falha é a escala e a decisão.
- A narrativa da escassez serve o medo, e o medo serve o controlo.
- Inovação não é magia: é engenharia + energia + logística + manutenção.
- O futuro não pertence aos que anunciam catástrofes; pertence aos que constroem soluções.
O Apocalipse Vende, a Água Não
Há dias em que a realidade portuguesa (e não só) parece um palco de opereta: luzes fortes, discursos inflamados, gravatas alinhadas — e, por detrás do pano, a máquina continua velha, rangendo como um elevador que nunca viu manutenção. Fala-se com solenidade do "apocalipse da água", do "colapso climático", do "fim inevitável", como se a História tivesse fechado a porta e atirado a chave ao mar.
E depois acontece o escândalo maior: alguém faz o que sempre se fez quando o desespero é verdadeiro e a inteligência ainda respira — constrói. Um país de deserto olha para o mar e diz: "eu não aceito a sentença". E a sentença, de repente, começa a tremer.
A indústria do fim do mundo
A tragédia, quando é repetida todos os dias, torna-se produto. Há quem viva dela: vende-se a catástrofe em pacotes, em relatórios, em painéis, em "estratégias", em logótipos com folhas verdes e promessas a dez anos que nunca chegam a ser presentes.
O apocalipse tem uma vantagem política: dispensa resultados. Basta anunciar, lamentar, convocar, e no fim pedir mais uma dose de "responsabilidade" ao cidadão comum — como se o cidadão fosse ministro da energia, director de infraestruturas, ou administrador de bacias hidrográficas.
O óbvio esquecido: água é engenharia
A água não é poesia — embora possa ser. A água é também mecânica, tubagem, pressão, filtração, energia, manutenção. O planeta está cheio de água; o desafio é torná-la utilizável onde faz falta. E isso faz-se com tecnologia, com investimento, com planeamento, com coragem.
Não há "milagre". Há método. Há ciência. Há a humildade de reconhecer que um problema real não se resolve com um slogan, mas com um projecto: fases, custos, riscos, redundâncias, auditoria técnica, e uma gestão que não seja um concurso de vaidades.
O miúdo e o ministro
Um miúdo faz regos na terra e percebe o essencial: se a água não chega, cria-se um caminho. Um ministro faz regos em palavras e esquece o essencial: se a água não chega, cria-se um projecto. O miúdo quer resolver. O ministro quer gerir a narrativa. O miúdo pensa em função. O ministro pensa em fotografia.
O que nos falta, muitas vezes, não é tecnologia: é a mentalidade que a permite. Uma sociedade que educa para obedecer, para aceitar, para repetir — acaba governada por gente que confunde prudência com imobilismo. E o imobilismo, no século XXI, é apenas um nome elegante para decadência, pobreza e repressão civilizacional.
O medo como ferramenta de governo
A narrativa da escassez é útil. O medo é útil. O cidadão com medo aceita mais facilmente o inevitável, paga mais facilmente o imposto, cala mais facilmente a pergunta inconveniente: "Mas por que razão não estamos a construir soluções à altura do tempo em que vivemos?"
Repare-se: quando há vontade política e alinhamento estratégico, as obras aparecem. Quando não há, aparecem os "planos". Um plano é uma promessa sem betão. Um plano é uma ponte desenhada num guardanapo. Um plano é, tantas vezes, o nome técnico da procrastinação.
A água do futuro tem quatro ingredientes
Se quisermos falar sério — sem teatralidade — a água do futuro exige quatro coisas simples e difíceis: energia abundante (idealmente limpa), infraestrutura robusta, gestão honesta e competência técnica. Onde falhar uma delas, entra o espectáculo. Onde existirem as quatro, entra a vida.
E sim: a tecnologia pode — e vai — ganhar esta batalha. Mas não sozinha. Precisa de uma sociedade que respeite quem constrói, quem mede, quem testa, quem mantém. Precisa de governos que deixem de ser clubes de retórica e passem a ser oficinas de solução.
Epílogo: o apocalipse não é destino
Eu recuso o fatalismo. Recuso a liturgia do "não há alternativa". O apocalipse é uma narrativa confortável para quem não quer mexer no sistema. Mas a água, essa, não quer saber de narrativas. A água responde a válvulas, a membranas, a bombas, a equações, a quilómetros de decisão.
E quando alguém, algures no deserto, prova que é possível — não está apenas a dessalinizar água. Está a dessalinizar a mentira: a mentira de que somos pequenos, impotentes, condenados. Não somos. Só fomos, demasiadas vezes, governados por gente que tem medo do futuro — e por isso o vende em pedaços.
O século XXI não pede resignação. Pede imaginação aplicada. Pede tecnologia com ética. Pede um país que volte a ser adulto.
Crónica para Fragmentos do Caos — co-autoria Editorial por Augustus Veritas.