BOX DE FACTOS
  • Nas mensagens de quadra, admite-se um País frágil, cansado, com demasiada pobreza — mas o remédio soa a "esperança" e "coesão".
  • O Primeiro-Ministro insiste em "mentalidade" e "ambição"; o Presidente apela à coesão e à paz no mundo.
  • Para quem vive a factura real, isto pode soar a conselho de balcão dado por quem nunca paga a conta.
  • Quando a política pede que o povo "faça melhor", convém lembrar: governar não é desejar — é decidir, executar, responder.

Montenegro aterra de Marte — e pede-nos que rezemos

Há discursos que são pão. E há discursos que são espuma: brilham um instante, e depois desaparecem — deixando o mesmo prato vazio.

Houve, nesta quadra, uma espécie de confissão sem penitência: Portugal, disseram-nos, está parado; a economia, frágil; a pobreza, teimosa. E até aqui — veja-se — não há mentira: há realidade. O problema começa no segundo acto, quando a realidade é tratada como paisagem inevitável, e a responsabilidade é empurrada para o povo como quem empurra um sofá velho escada acima.

O Primeiro-Ministro fala ao País como quem abre a escotilha de uma cápsula interplanetária: chega, olha, descreve o cenário, e conclui que devemos "ter uma nova mentalidade". O Presidente, com a solenidade habitual, pede coesão e bons sentimentos, como se a coesão se comprasse ao quilo e os bons sentimentos substituíssem reformas, metas, prazos, e a coragem de cortar privilégios onde eles se escondem. 1

O País não precisa de votos — precisa de actos

Há um tipo de retórica que se disfarça de humildade: "o País é isto, mas juntos conseguiremos". Bonito. Quase religioso. Só que, quando a política pede oração, frequentemente é porque não quer prestação de contas. Porque a oração não tem auditoria. A esperança não tem tribunal. A palavra "coesão" não tem cronograma.

E depois há o insulto silencioso — o mais corrosivo: a ideia de que os governantes "observam" o País, como se não fossem parte do mecanismo, como se não tivessem mãos no volante, como se tivessem aterrado ontem, vindos de Marte, sem mapa, sem passado, sem heranças, sem assinaturas, sem escolhas. 2

A pobreza não é meteorologia

A pobreza não "acontece" como chuva. A pobreza é arquitectura: faz-se com leis, com prioridades, com impunidades, com burocracias que esmagam os pequenos e acariciam os grandes. Faz-se com discursos que pedem sacrifícios ao mesmo tempo que preservam a bolha — essa redoma onde tudo é "reforma" e nada é consequência.

Quando um povo é chamado a "fazer melhor", convém perguntar: com que ferramentas? com que salário? com que casa? com que escola? com que serviços públicos? Com que justiça? E, acima de tudo: com que exemplo vindo de cima?

O futuro não se reza: constrói-se

Um povo não é um coro para entoar esperança enquanto os maestros se protegem atrás de frases polidas. Um povo é uma força soberana — e quando desperta, muda o roteiro.

Se Portugal está cansado de ser empobrecido, então a resposta não pode ser um "voto" — tem de ser um voto: o voto lúcido, exigente, que escolhe competência, que expulsa a complacência, que não se deixa embalar por moralismos de ocasião. Porque governar não é recitar. É servir. E quem serve, responde.

Epílogo

A cada Ano Novo, pedem-nos fé. Eu peço outra coisa: memória. Porque um País sem memória é um País eternamente disponível para ser enganado — com a mesma ternura, a mesma música, o mesmo nada.

Crónica de : Francisco Gonçalves
Fragmentos do Caos
(crónica em co-autoria com Augustus Veritas)
🌌 Fragmentos do Caos: Blogue Ebooks Carrossel
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