BOX DE FACTOS
  • Frase-sintoma: "há percepção de caos no SNS, mas não é a realidade".
  • Tradução: quando a dor sobe, a política tenta descer a linguagem.
  • O país real: urgências, esperas intermináveis, macas nos corredores, profissionais exaustos.
  • O truque: trocar a palavra "crise" por "percepção" para aliviar a culpa sem resolver a causa.
  • O teste: um governante nas urgências, sozinho, sem cortejo, sem aviso, sem palco.

A "Percepção" do Caos: o País Real Não Cabe em Conferências de Imprensa

Chamam-lhe "percepção" para que a realidade fique sem nome. E quando a realidade fica sem nome, fica também sem culpados — e sem urgência de acção.

Há frases que são um diagnóstico. Não do país — mas de quem o governa. Dizer que existe "percepção de caos" no SNS, mas que isso "não é a realidade", é uma dessas frases: não descreve a saúde; descreve a distância. Distância de quem fala num púlpito, num auditório, num corredor de luz fria, enquanto o país real fala em cadeiras de plástico, em triagem, em horas que não passam, em medo que passa demais.

A política portuguesa tem um talento antigo: quando a realidade é dura, muda-se o dicionário. O caos vira "percepção". A falha vira "constrangimento". O colapso vira "desafio". E o sofrimento, esse, vira estatística — quando não vira silêncio. É o velho truque do poder deste sistema político patético -substituir a vida por semântica, como se a dor obedecesse a comunicados.

O país real não tem gabinete, nem assessoria, nem filtro

O país real não pede licença. Chega de madrugada às urgências, muitas vezes já derrotado. Leva uma criança ao colo, ou um idoso pela mão, ou leva a si próprio pela última réstia de força. O país real não quer discursos: quer tempo, quer médicos, quer enfermeiros, quer camas, quer resposta. Quer o mínimo civilizacional: não ficar pendurado entre a dor e a burocracia.

Quando um governante, como Montenegro diz "não é a realidade", ele está a falar de qual realidade? Da realidade do gabinete onde os problemas chegam em PowerPoint? Da realidade onde os números são escolhidos como gravatas: os que ficam bem na fotografia? Ou da realidade onde se entra com febre e se sai com a sensação de ter envelhecido uma semana numa noite?

O teste simples: descer ao país real, sozinho, sem cortejo

Há um teste que não precisa de comissões, nem relatórios, nem seminários sobre "governança". É um teste humilde e brutal: ir às urgências sem aviso. O primeiro-ministro, se tivesse a coragem de governar Portugal com seriedade e pata os portugueses, faria o seguinte : Sem telefonemas prévios, sem "visita preparada", sem fotografia ensaiada. Descer a "terra" que o povo pisa. Ir como vai o cidadão: senha na mão, olhar cansado, e a mesma espera que morde.

E, já agora, ficar. Ficar tempo suficiente para ver a verdade a sair do chão: os corredores cheios, as macas alinhadas como quem aceita a derrota, a exaustão dos profissionais que ainda assim tentam salvar o que podem salvar, e a indignidade que não cabe em discursos porque os discursos foram feitos para caber. A isso eu chamaria governar Portugal com chão e aí poderia anunciar o que era percepção e o que era verdade.

A mentira mais confortável: chamar "percepção" ao que devia chamar "vergonha"

A frase "há percepção" não é neutra. É uma almofada. Serve para amortecer a queda da responsabilidade. Porque se é "percepção", então a culpa é do povo: do povo que exagera, do povo que "não compreende", do povo que "cria alarmismo", do povo que "não tem paciência" — como se paciência fosse um tratamento.

Mas a verdade é mais simples: em saúde, a realidade é o que acontece ao corpo e à vida. E a vida não se governa por frases bonitas. Governa-se por capacidade, por planeamento, por investimento, por gestão séria, por respeito. E por uma justiça social básica:ninguém deve adoecer com medo de entrar no sistema que o devia proteger.

Epílogo: o país real não é percepção — é sentença

Quando o poder tenta rebaixar a realidade à categoria de "percepção", está a pedir ao povo que abdique de ver. E um povo que abdica de ver, abdica de exigir. É assim que a mediocridade governa: não precisa de vencer debates, basta-lhe cansar a cidadania.

Por isso, sim: ponham este "medíocre" no país real. Mas não em visita oficial. Não em cortejo. Não com passadeira e microfones. Ponham-no sozinho, sem aviso, sem porta de serviço, sem atalhos. E depois, quando voltar, que não venha falar de "percepções". Que venha falar de acção. Porque o país já não precisa de frases. Precisa de realidade — e de coragem.

Francisco Gonçalves
Fragmentos do Caos — crónica editorial
Co-autoria: Augustus Veritas (Assistente de IA) — estrutura, revisão e afinação estilística
🌌 Fragmentos do Caos: Blogue Ebooks Carrossel
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