BOX DE FACTOS
  • Protagonista: Luís Marques Mendes
  • Contexto: Projectos fotovoltaicos na Madeira
  • Empresa: Nutroton Energia
  • Ambiente: Política, negócios, silêncio institucional
  • Resultado: Nenhum inquérito judicial, nenhuma comissão, muita electricidade moralmente duvidosa

Marques Mendes e a Energia da Negociata ou como transformar o sol em subsídio

"Em Portugal não se aproveita o sol para secar roupa — aproveita-se para secar consciências."
Há países onde o sol nasce para iluminar. Em Portugal, o sol nasce para contratualizar. E eis que surge, reluzente como painel em encosta virada a sul, o nosso velho conhecido Luís Marques Mendes, agora em versão ecológica, sustentável e altamente rentável. O homem que atravessou décadas de política como quem atravessa salas de estar, aparece agora na fotografia oficial da energia renovável madeirense. Não como turista. Não como curioso. Mas como cara do projecto. A cara, repito. A fachada institucional com sorriso de confiança.

A Porta Giratória — agora com painéis solares

Em Portugal, a porta giratória não faz ruído. Desliza em silêncio, lubrificada a pareceres jurídicos, memorandos e "consultorias estratégicas". Sai-se do governo → entra-se na empresa. Sai-se da empresa → comenta-se na televisão. Comenta-se na televisão → legitima-se o sistema. E o sistema, agradecido, paga a factura. Não há corrupção. Há engenharia cívica de alta performance.

O milagre da multiplicação dos painéis

Dois parques solares na Madeira. Dois! Num país onde para abrir um café é preciso um estudo de impacto ambiental, parecer da junta, autorização da paróquia e bênção do Espírito Santo. Mas aqui, tudo fluiu. Como água benta em procissão oficial. Não houve inquérito judicial. Não houve comissão parlamentar. Não houve nada. O sol brilhou, os contratos assinaram-se, os contribuintes pagaram — e a República seguiu em frente como se nada fosse.

O socialismo da factura e o liberalismo do lucro

O modelo é genial: Lucros privados. Riscos públicos. Silêncio institucional. Memória curta do povo. Chama-se a isto "economia de mercado". Em Portugal chama-se destino. O cidadão comum paga a electricidade, a taxa, o imposto, a sobretaxa, a contribuição audiovisual e ainda agradece por viver numa democracia. Enquanto isso, os especialistas em transição energética transitam alegremente entre cargos, conselhos, empresas e campanhas presidenciais. É o verdadeiro carrossel sustentável.

A campanha presidencial à luz do sol… dos outros

Agora, em modo candidato, Marques Mendes surge com ar de estadista, voz pausada e discurso de responsabilidade. Uma espécie de avô da República, prudente, sensato, institucional. Só se esqueceu de dizer que, enquanto aconselhava o país sobre ética e governação, o país lhe servia de tabuleiro de jogo. Não é ilegal. É apenas profundamente português.

O país onde tudo é normal

Em qualquer democracia musculada, isto dava debate, investigação, escrutínio, manchetes durante semanas. Em Portugal dá uma notícia, dois comentários de rodapé e uma digestão lenta até ao esquecimento. Porque o problema não é Marques Mendes. O problema é que ele é apenas mais um. A engrenagem é maior. A mediocridade é sistémica. E o contribuinte é o único que nunca tem direito de veto.

Epílogo — Energia limpa, consciência suja

Portugal é um país onde se fala muito de transparência… em vidro fosco. Onde se invoca a ética… em rodapé. Onde se ergue a bandeira da sustentabilidade… com dinheiro alheio. E onde certas figuras atravessam regimes, décadas e negócios com a leveza de quem nunca suja os sapatos — porque caminha sempre sobre os ombros do contribuinte. O sol nasce para todos. Mas os contratos… esses escolhem bem a quem aquecer.
Francisco Gonçalves Fragmentos do Caos — Onde a ironia é uma forma de higiene mental Co-autoria: Augustus Veritas
🌌 Fragmentos do Caos: Blogue Ebooks Carrossel
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