Manuel Serrão ‘insolvente’: o truque do cofre vazio e a liturgia da impunidade

- Notícia-base: Jornal de Negócios (08 Jan 2026) — "Manuel Serrão decretado insolvente com dívidas de milhões e sem bens nem dinheiro".
- Enquadramento: Serrão é referido como principal arguido na "Operação Maestro", num caso associado a alegado uso fraudulento de apoios comunitários.
- Nó moral: quando há milhões "a arder", a insolvência aparece demasiadas vezes como máscara — e não como destino.
- Ideia-chave: o problema não é a palavra "insolvência" — é o que, por trás dela, a Justiça consegue (ou não consegue) ver.
Manuel Serrão 'insolvente': o truque do cofre vazio e a liturgia da impunidade
1. A fórmula portuguesa: prejuízo real, património fantasma
A notícia descreve um contraste que, em Portugal, já nem choca — apenas cansa: um caso associado a valores gigantescos, a suspeitas graves, e, no desfecho patrimonial, uma pessoa "limpa" no papel, como se a realidade tivesse sido varrida com uma escova jurídica. O País fica com o rombo; o processo fica com a formalidade; e a verdade, essa, fica muitas vezes sem casa.
2. Insolvência não é absolvição — mas pode virar disfarce
Convém dizê-lo sem histerias: ser insolvente não é ser inocente. É, em teoria, um mecanismo para organizar credores e tentar recuperar o que for possível. O problema nasce quando a insolvência se torna uma espécie de chuva purificadora que lava tudo: responsabilidades, rastos, bens, ligações, transmissões. E então o "processo" passa a valer mais do que a Justiça — como se carimbar fosse o mesmo que investigar.
3. A lâmina: quando a impunidade deixa de ser acidente e vira sistema
Portugal transformou a corrupção em método, a impunidade em sistema e a justiça em figurante. Não é um país onde se combate o crime económico: é um país onde ele se administra, se prescreve e se arquiva com elegância. Milhares de Milhões evaporam-se, patrimónios dissolvem-se em nevoeiro jurídico, e os responsáveis reaparecem "insolventes", limpos como anjos fiscais. O resultado é sempre o mesmo: o povo paga, a elite escapa, o Estado finge surpresa. Este não é apenas o reino da corrupção legalizada — é o seu laboratório mais eficiente, onde se aperfeiçoa, geração após geração, a arte de empobrecer uma nação inteira sem nunca sujar as mãos.
4. O que devia acontecer num país sério
Num país sério, a grande questão não era "não tem bens" — era: como é que chegou a 'não ter'? Quem recebeu? Quando? Por que vias? Que património mudou de titularidade? Que relações existem? Que sinais bancários ficaram? Ou simplesmente "follow the money". A Justiça moderna não pode ser um tribunal com lupa do século XIX a olhar para crimes do século XXI. Quando há milhões em causa, a investigação patrimonial tem de ser uma lâmina cirúrgica: rápida, competente, persistente.
5. O País que paga sempre a conta
No fim, o cidadão comum aprende a lição mais amarga: para ele, há penhoras, juros, prazos e cobranças; para certos círculos, há sempre uma porta lateral — a da complexidade, a da demora, a da prescrição, a da "ausência de bens". E assim se constrói o empobrecimento nacional: não por falta de trabalho do povo, mas por excesso de protecção à elite que o saqueia.
Epílogo: o cofre vazio e o coração cheio de fúria
A história repete-se com uma precisão quase matemática: o dinheiro sai do País, a vergonha fica; os milhões desaparecem, a pobreza aumenta; e a Justiça, cansada, incompetente ou capturada, limita-se a certificar o óbvio — que já não há nada para recuperar. Mas há sempre algo: há a dignidade do Estado, há o exemplo público, há a confiança social. E quando isso morre, morre devagar o próprio futuro. O resto é liturgia — e Portugal já tem liturgia a mais e Justiça a menos.