BOX DE FACTOS
  • Problema: dependência estrutural de fornecedores proprietários e "rendas" anuais em licenças.
  • Consequência: lock-in, custos recorrentes, migrações forçadas, menor autonomia tecnológica.
  • Solução: um movimento europeu open-source com financiamento, equipas, normas e comunidade activa.
  • Objectivo: pagar suporte e engenharia europeia — não tributos perpétuos.
  • Princípio: formatos abertos, interoperabilidade e portabilidade como obrigação em compras públicas.
  • Resultado esperado: poupança, resiliência, segurança auditável e soberania digital real.

Manifesto Open-Source Europeu
A Libertação do Software Público e Privado

A Europa não precisa de pedir licença para existir no século XXI. Precisa de escrever o seu próprio código, assinar o seu próprio destino, e trocar a servidão confortável pela liberdade exigente. Porque a liberdade, como o software bem feito, dá trabalho — mas compensa.

I. A Europa paga rendas — e chama-lhes "normalidade"

Há décadas que grande parte do tecido institucional e empresarial europeu vive numa economia invisível: a economia das licenças, das renovações, dos contratos que se multiplicam como hera nas paredes do orçamento. Não é apenas custo. É dependência. É agenda imposta. É migração forçada quando um fornecedor decide que o mundo tem de girar ao ritmo do seu calendário comercial.

Quando isto acontece, os países membros não escolhem: obedecem. E quando se obedece durante tempo suficiente, passa a parecer "natural". A isso chamam estabilidade. Eu chamo-lhe submissão tecnológica.

II. O open-source não é uma religião — é uma estratégia

Open-source não é "software gratuito". É software com soberania: auditável, evolutivo, partilhável, suportável por várias empresas, e não por um único dono. É a diferença entre uma casa com uma só chave (guardada por outro) e uma casa cujo projecto está na tua mão.

E a Europa tem todas as condições para transformar isto num movimento histórico: universidades, centros de investigação, empresas tecnológicas, integradores, e uma massa crítica de talento que só precisa de uma coisa: um plano com coragem.

III. O Movimento Europeu Open-Source: a "Airbus do Software", distribuída

O que propomos não é um projecto fechado, nem um "portal" que morre ao fim de dois relatórios. É um ecossistema: financiamento, normas, equipas de campo, certificação, compras públicas inteligentes e uma comunidade que não abandona ninguém a meio da travessia.

IV. Plano Europeu em 10 Pontos (com cronograma)

  1. Fundo Europeu de Migração Open-Source (FEMOS): financiar diagnóstico, piloto, migração e suporte.
  2. Corpo Europeu de Transição (equipas técnicas): especialistas em Linux, virtualização, redes, IAM, BD e segurança.
  3. Catálogo Europeu de Stack Certificada: listas de soluções testadas (SO, colaboração, BD, DMS, BI, etc.).
  4. Compras Públicas com regra anti-lock-in: formatos abertos, portabilidade e interoperabilidade obrigatórias.
  5. "Paga-se suporte, não tributo": trocar licenças por contratos de suporte europeus e engenharia local.
  6. Formação e certificação europeias: percursos oficiais para técnicos, gestores e decisores.
  7. Contribuição ao upstream como norma: cada euro público investido deve devolver melhorias à comunidade.
  8. Programa "PME Primeiro": kits de migração e apoio remoto para reduzir custos e dependências nas empresas.
  9. Segurança por desenho: auditorias regulares, hardening, SBOM, e resposta coordenada a vulnerabilidades.
  10. Métricas públicas: dashboards europeus com poupança estimada, progresso por sector e impactos em emprego qualificado.

V. Cronograma realista (sem poesia a mais, mas com ambição)

0–6 meses: criação do FEMOS, equipa central pequena e competente, catálogo inicial de stacks, regras de compra pública anti-lock-in.

6–12 meses: pilotos em 3 sectores por país (administração, educação, saúde) + programa "PME Primeiro" com suporte remoto.

12–24 meses: escalamento: migração progressiva de desktops, correio, colaboração e identidade; reforço do corpo de transição.

24–48 meses: consolidação: bases de dados, ERP/BI, normalização de formatos abertos e redução estrutural de custos recorrentes.

48+ meses: maturidade: ecossistema europeu auto-sustentado, com inovação contínua e menor dependência externa.

VI. O que isto faz às "multinacionais predadoras"

Não se trata de vingança. Trata-se de negociação equilibrada. Quando existe alternativa real, o mercado deixa de ser um corredor estreito e passa a ser uma praça aberta. E quando a praça abre, a renda cai, a arrogância diminui, e a inovação volta a ser obrigatória.

VII. Epílogo: a Europa como oficina de futuro

A UE nasceu para impedir guerras e criar convergência. Hoje, a convergência passa por tecnologia: por autonomia, por segurança auditável, por capacidade de decidir. Se a Europa quer ser adulta, tem de assinar o seu próprio código.

Este manifesto é um convite: menos medo, menos servidão, mais construção. A liberdade é um sistema operativo. E a Europa já tem processador, memória e rede suficientes para o correr.

Comparação Directa: Proprietário vs Open-Source

Dimensão Modelo Proprietário (licenças + lock-in) Modelo Open-Source (código + soberania)
Custos Custos recorrentes por utilizador/servidor; renovações; "bundles" forçados; aumentos imprevisíveis. Licença tipicamente sem custo; investimento desloca-se para suporte, serviços, engenharia e formação.
Dependência (lock-in) Forte dependência de um único fornecedor; saída complexa; formatos e APIs fechadas. Menor dependência: múltiplos fornecedores podem suportar; portabilidade e interoperabilidade mais fáceis.
Auditoria e transparência Código fechado: auditoria limitada; confiança por contrato e reputação. Código aberto: auditoria possível; correções verificáveis; maior rastreabilidade técnica.
Segurança Vulnerabilidades dependem do tempo de reacção do fornecedor; pouca visibilidade do processo. Comunidades e fundações com processos públicos; possibilidade de hardening e auditorias independentes.
Continuidade e risco Fim de suporte imposto; upgrades obrigatórios; mudanças de licenciamento; risco de descontinuação. Possibilidade de manter versões e forks; continuidade sustentada por comunidade e múltiplos actores.
Inovação e ritmo Roadmap definido por prioridades comerciais; features por "tier" e subscrição. Roadmap influenciável por contribuições; inovação distribuída; foco em necessidades reais.
Interoperabilidade Pode existir, mas muitas vezes condicionada por extensões proprietárias e dependências ocultas. Forte alinhamento com padrões abertos; integração facilitada; menor fricção entre sistemas.
Negociação e poder O fornecedor dita termos; o cliente gere danos e renovações. A alternativa existe: o cliente dita requisitos; o mercado ajusta-se; o poder equilibra-se.
Economia local Grande parte do valor "foge" em licenças para fora do país/UE. O investimento desloca-se para integradores e suporte locais; criação de emprego qualificado.
Exemplos típicos SO e suites proprietárias; bases de dados fechadas; middleware com licenças por core/CPU. Linux; LibreOffice; Nextcloud; PostgreSQL; Kubernetes; Apache; stacks auditáveis e suportáveis por múltiplos actores.
Leitura prática: no modelo open-source o custo não desaparece — muda de natureza: sai da "renda perpétua" e entra na "engenharia sustentável". É a diferença entre pagar portagem para sempre ou financiar a construção da estrada.

Fontes Open-Source e Comunidades de Referência

As fontes abaixo representam projectos, fundações e iniciativas open-source reconhecidas internacionalmente, amplamente utilizadas por administrações públicas, universidades e empresas críticas em todo o mundo. Todas assentam em código aberto, licenças livres e comunidades activas.

  • Linux Foundation
    Ecossistema global de projectos open-source empresariais (Linux, Kubernetes, OpenSSF, Hyperledger, etc.)
    https://www.linuxfoundation.org
  • Free Software Foundation (FSF)
    Fundadora do movimento do software livre — licenças GPL, ética e liberdade do utilizador.
    https://www.fsf.org
  • Free Software Foundation Europe (FSFE)
    Promoção do software livre no sector público europeu e soberania digital.
    https://fsfe.org
  • Open Source Initiative (OSI)
    Entidade responsável pela definição oficial de licenças open-source.
    https://opensource.org
  • OSOR — Open Source Observatory and Repository
    Repositório europeu de software open-source para o sector público.
    https://joinup.ec.europa.eu/collection/open-source-observatory-osor
  • European Open Source Academy
    Formação, governação e modelos de adopção open-source na Europa.
    https://www.opensourceacademy.eu
  • Nextcloud Project
    Plataforma open-source europeia de colaboração e cloud privada.
    https://nextcloud.com
  • LibreOffice / The Document Foundation
    Suite de produtividade open-source baseada em formatos abertos.
    https://www.libreoffice.org
  • PostgreSQL Global Development Group
    Sistema de bases de dados open-source de classe empresarial.
    https://www.postgresql.org
  • Apache Software Foundation
    Projectos estruturantes: HTTP Server, Kafka, Hadoop, OpenOffice, Airflow.
    https://www.apache.org
  • Eclipse Foundation
    Desenvolvimento open-source empresarial, IoT e cloud.
    https://www.eclipse.org
  • Debian Project
    Uma das distribuições Linux mais estáveis e usadas em servidores governamentais.
    https://www.debian.org
  • Fedora / Red Hat Open Source Ecosystem
    Inovação upstream e base de múltiplas plataformas enterprise Linux.
    https://getfedora.org
  • Kubernetes Project
    Orquestração open-source padrão mundial para cloud e edge computing.
    https://kubernetes.io
Francisco Gonçalves
com co-autoria de Augustus Veritas — Fragmentos do Caos News Team
🌌 Fragmentos do Caos: Blogue Ebooks Carrossel
👁️ Esta página foi visitada ... vezes.