BOX DE FACTOS
  • O quê: Encerramento da maior biblioteca de investigação da NASA, no campus Goddard (Maryland).
  • Quando: Sexta-feira, 2 de Janeiro de 2026.
  • Como: "Reorganização" com encerramento previsto de 13 edifícios e de mais de 100 laboratórios até Março de 2026.
  • Depois do fecho: Revisão do acervo por semanas/meses; parte armazenada, parte descartada segundo regras federais.
  • O que está em jogo: Memória técnica, continuidade científica, e o princípio simples de que civilização é biblioteca — não é berraria.

Livros ao Lixo, Estrelas ao Frio
— a Biblioteca da NASA e a política da ignorância

Quando uma potência espacial fecha bibliotecas para "poupar", não está a cortar custos: está a cortar futuro. E futuro não se recompra em saldo, nem se reimprime com slogans.

Há notícias que parecem sátira, mas vêm com carimbo oficial. A maior biblioteca de investigação da NASA, em Goddard, fecha portas. Não por incêndio, não por colapso estrutural inevitável, não por uma tragédia natural. Fecha porque a política — essa arte ancestral de confundir músculo com inteligência — decidiu que o conhecimento pode esperar.

Chamam-lhe "reorganização". Um termo macio, como uma almofada sobre o rosto da ciência. Fecha-se um edifício, dizem; consolidam-se recursos, explicam; racionaliza-se, repetem. É a liturgia burocrática do corte: uma missa rápida onde se sacrifica o que não vota, o que não grita, o que não dá manchetes em formato reality show.

A biblioteca: o motor invisível da máquina espacial

Um foguetão é espectacular, claro. Mas o foguetão é apenas o músculo. A biblioteca é o sistema nervoso: relatórios técnicos, documentação histórica, actas, periódicos raros, mapas de erro, lições aprendidas, soluções antigas para problemas novos. Sem isto, a engenharia volta a tropeçar nas mesmas pedras — e as pedras, em ciência, custam milhões e custam vidas.

A ironia é amarga: enquanto se sonha com Marte, arruma-se a memória numa cave. Enquanto se fala em "liderança" tecnológica, faz-se a contabilidade do futuro com lápis partido. E depois admiram-se de um país perder primazia científica: não se perde por falta de talento, perde-se por excesso de ruído.

O troglodita moderno: gravata, slogan, tesoura

O troglodita do século XXI não anda de clava. Anda de gravata e de frases curtas. Não odeia apenas a ciência — odeia a complexidade, porque a complexidade exige humildade. E humildade não dá palco.

A ciência trabalha com dúvidas. A política-espectáculo trabalha com certezas a metro. E quando estas duas forças colidem, a dúvida perde. Fecha-se uma biblioteca, desmantela-se um laboratório, empurra-se a equipa para reformas antecipadas, e vende-se a história como "eficiência". É a estética do curto prazo: o futuro que trate de si.

"Poupar" é a palavra preferida de quem nunca pagará a factura

Quando se fecha um centro de conhecimento, o custo não aparece no dia seguinte. Aparece mais tarde, em atrasos, duplicação de trabalho, falhas repetidas, decisões sem memória e projectos sem lastro. A factura chega sempre — só muda o destinatário: deixa de ser um gabinete e passa a ser uma geração.

E há ainda um detalhe que devia envergonhar qualquer país que se proclame "líder": livros e materiais que não foram devidamente digitalizados ou preservados podem ser descartados. É como apagar arquivos para "limpar espaço". Só que aqui o arquivo é a própria história técnica de uma civilização que decidiu ir ao espaço.

A pergunta que fica: como deixaram?

Como é que um país capaz de pôr instrumentos no olho do universo aceita ser governado por quem trata bibliotecas como entulho? Talvez porque a democracia, quando adormece, é facilmente sequestrada por vendedores de simplificações. Talvez porque o cansaço colectivo abre caminho ao grito. E o grito, por definição, não lê.

Mas há uma certeza: cada biblioteca encerrada é uma fronteira recuada. Cada laboratório fechado é um silêncio a crescer. E cada silêncio destes, somados, acaba por formar um coro: o da mediocridade satisfeitíssima com a própria ignorância.

Epílogo: as estrelas não perdoam amnésias

O universo é exigente. Não aceita propaganda. Não aceita bravatas. Não aceita "verdades alternativas". Se esquecemos o que aprendemos, voltamos a aprender — mas com maior custo e menor tempo.

Uma sociedade que fecha bibliotecas para abrir palcos está a escolher o barulho em vez do rumo. E o barulho, por muito patriótico que soe, não põe satélites em órbita — apenas põe sombras na cabeça.

Francisco Gonçalves
Fragmentos do Caos — onde a memória não se deita fora.
🌌 Fragmentos do Caos: Blogue Ebooks Carrossel
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