BOX DE FACTOS
  • Diplomas não são cidadania: pode haver escolaridade crescente e literacia cívica estagnada.
  • O poder económico em Portugal está muitas vezes encostado ao Estado: concessões, concursos, licenças, fundos, nomeações.
  • Opacidade + impunidade são o adubo da captura partidária.
  • Fiscalidade percebida como injusta destrói o contrato social: quem paga sente-se o único a pagar.
  • Sem literacia do poder, a democracia vira espectáculo; com literacia, volta a ser ferramenta.

Literacia e Poder: Portugal, o Estado-Labirinto e a Economia da Obediência

Em Portugal, o poder raramente se apresenta como poder. Apresenta-se como "processo", "parecer", "competência", "norma". E é nessa linguagem de corredores — a língua mansa do labirinto — que a cidadania se perde e a mediocridade se torna política de Estado.

Há uma confusão antiga — e muito conveniente — entre instrução e literacia. A instrução dá-nos certificados; a literacia dá-nos instrumentos. A instrução ensina a responder; a literacia ensina a perguntar. E a pergunta que mais assusta o poder é simples como um fósforo no escuro: "Quem ganha com isto?"

1) O diploma como cortina e a cidadania como deserto

O país colecciona licenciaturas, mestrados e doutoramentos — e, no entanto, tropeça numa verdade amarga: muitos cidadãos continuam sem ferramentas para ler a realidade política e económica. Sabem "opinar", papaguear, mas não sabem auditar. Sabem "torcer", mas não sabem medir. E um povo que não mede é um povo que pode ser governado por narrativas.

A cidadania exige coisas pouco glamorosas: ler um orçamento, perceber incentivos, reconhecer conflitos de interesse, distinguir "benefício público" de "renda privada", e fazer a pergunta proibida: "Isto serve o país ou serve uma rede?"

2) O Estado como labirinto: onde a opacidade se torna profissão

Em economias saudáveis, o Estado é árbitro e garante: cria regras, fiscaliza, pune o abuso e protege a concorrência. Em Portugal, demasiadas vezes, o Estado transforma-se em porta — e as portas criam porteiros. E onde há porteiro, nasce a tentação do favor; onde há favor, nasce a captura.

O labirinto não é só burocracia: é poder difuso. Ninguém decide sozinho; logo, ninguém responde. A responsabilidade dissolve-se em pareceres, despachos, subdelegações, e numa liturgia de assinaturas que parece racional mas frequentemente serve para esconder a origem da decisão.

3) Poder económico e proximidade ao Estado: a economia da licença

Quando o poder económico se alimenta da proximidade ao Estado — concessões, contratos recorrentes, ajustes repetidos, consultorias que substituem competência, fundos que premia "os de sempre" — a economia deixa de ser criação e passa a ser negociação de acesso.

O empreendedorismo digno (o que arrisca, inova, compete e cria riqueza real) fica asfixiado por duas forças: o peso do labirinto e a suspeita de que, sem padrinho, o mérito chega sempre tarde, ou nunca. E um país onde o mérito chega tarde é um país onde a juventude parte cedo.

4) A fiscalidade como ferida: quando o contrato social se rasga

A percepção — muitas vezes sustentada pela experiência quotidiana — de que "pagam sempre os mesmos" é dinamite social. Não porque os impostos sejam, por si, um mal absoluto, mas porque a injustiça fiscal é a mensagem silenciosa de um regime: "Tu és previsível; tu és cobrável; tu és o fundo da caixa."

Quando o cidadão sente que o esforço é punido e a esperteza é recompensada, nasce a pior forma de pobreza: a pobreza de confiança. E sem confiança, a democracia não tem sangue — tem apenas papel.

5) A mediocridade como estratégia de governação

A mediocridade não é apenas um retrato moral; é, muitas vezes, um modelo funcional. Um cidadão cansado, confuso e descrente é mais fácil de conduzir. Se não acredita que pode mudar, aceita. Se aceita, não exige. Se não exige, o sistema perpetua-se.

E assim se fecha o círculo: a opacidade protege a impunidade; a impunidade alimenta a corrupção; a corrupção reforça a captura; e a captura usa o Estado para se reproduzir. O povo, sem literacia do poder, olha para o círculo e vê apenas "azar", "fatalidade", "Portugal é assim". Não é. Foi feito assim.

6) O antídoto: literacia do poder em sete perguntas

Não precisamos de um país de génios. Precisamos de um país de cidadãos com método. Sete perguntas que qualquer pessoa pode usar — como uma lanterna numa caverna:

  1. O que prometeram e o que cumpriram (com datas e factos)?
  2. Quanto custou e quem pagou (impostos, dívida, cortes)?
  3. Quem ganha com a medida (sectores, grupos, empresas)?
  4. Quem perde (classe média, serviços públicos, jovens)?
  5. dados independentes a mostrar resultados?
  6. Que conflitos de interesse existem (porta giratória, nomeações, contratos)?
  7. Se eu fosse oposição, o que atacava com factos (e não com slogans)?

Se milhões de pessoas fizerem isto, a política deixa de ser futebol e volta a ser contabilidade moral:responsabilidade, consequência, evidência.

7) Portugal 2026: entre o cansaço e o despertar

O futuro não depende de um salvador, nem de um partido iluminado. Depende de uma coisa mais difícil: uma cidadania que não adormece. A máfia partidária — seja ela explícita ou disfarçada de "normalidade" — teme duas coisas: transparência e persistência.

Quando o povo aprende a ler o poder, o poder deixa de ser bruxedo. E um Estado-labirinto, quando iluminado, torna-se apenas aquilo que sempre foi: um conjunto de portas — e portas podem abrir-se, desde que o povo decida empurrar.

Referências e pistas de verificação

Para quem quiser confirmar números, tendências e comparações (sem se afogar em propaganda), aqui ficam fontes públicas e reputadas:

  • PORDATA — indicadores sociais e económicos em Portugal.
  • INE — estatística oficial (rendimento, emprego, contas nacionais, etc.).
  • Eurostat — comparações europeias (fiscalidade, rendimento, serviços).
  • Transparency International — CPI — percepção de corrupção e tendências.
  • OCDE — governança, administração pública, educação e economia.

O drama português não é falta de inteligência. É falta de ferramentas colectivas. E ferramentas, quando passam de mão em mão, mudam países. Primeiro mudam a conversa. Depois mudam o voto. E um dia — se insistirmos — mudam o próprio Estado.

Um povo que não lê e não pensa nunca poderá sonhar em viver em democracia.

Francisco Gonçalves
Crónica para Fragmentos do Caos — com co-autoria conceptual de Augustus Veritas.
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