BOX DE FACTOS
  • Tema: o novo analfabetismo cívico e a erosão lenta da liberdade.
  • Gatilho: "Isso era antes do 25 de Abril", respondeu-me um jovem arrogantemente — dito como se a liberdade fosse um objecto museológico.
  • Tese central: a liberdade não se herda; aprende-se, exercita-se e defende-se.
  • Diagnóstico: educação útil ao mercado, mas insuficiente para formar consciência histórica e pensamento crítico.
  • Risco: quando a memória desaparece, o autoritarismo regressa com luvas de veludo e sorriso institucional.

Liberdade Não É Uma Data

"Isso era antes do 25 de Abril." — dito assim, com a leveza de quem confunde liberdade com feriado e memória com pó.

Há frases que são pequenos acidentes de viação moral: não se ouve o estrondo, mas fica o metal torcido por dentro. "Isso era antes do 25 de Abril" é uma dessas. Não é apenas desconhecimento: é a prova de que a liberdade, quando não é ensinada, vira ornamento. Fica bonita nos discursos. Morre na prática.

O erro fatal: tratar a liberdade como património garantido

Muitos jovens foram educados a crer que a liberdade é um estado permanente, uma propriedade do ar — como oxigénio ou rede móvel. Mas a liberdade é mais parecida com fogo: ilumina, aquece, e apaga-se se ninguém a alimentar. O problema não é a falta de capacidade. É a falta de experiência histórica e de alfabetização cívica.

Antes do 25 de Abril não havia apenas ausência de direitos: havia medo organizado, silêncio imposto e futuro racionado. Depois do 25 de Abril, a liberdade não ficou "concluída". Ficou confiada. E a confiança exige guardiões.

Como se fabricam gerações que não entendem o essencial

Portugal não falhou por falta de inteligência. Falhou por excesso de negligência naquilo que não dá lucro imediato: História, Filosofia, debate sério, leitura lenta, confronto de ideias. Em muitas salas de aula, o país ensinou a "fazer", mas não ensinou a "pensar". E quando o "pensar" desaparece, o "fazer" vira ferramenta — nas mãos de quem manda.

Resultado: gerações tecnicamente mais rápidas, mas historicamente órfãs. Capazes de navegar em qualquer interface, mas incapazes de reconhecer quando a realidade é manipulada. Sabem optimizar processos — mas não sabem defender princípios.

A nova censura não vem com lápis azul

A censura moderna raramente chega com carimbo e proibição explícita. Chega com cansaço, precariedade, dependência, ruído permanente, e a sensação de que "não vale a pena". Chega com o medo de perder oportunidades por dizer o óbvio. Chega com a normalização do conformismo, embalado em linguagem polida.

Há quem pense que, porque não há PIDE, não há perigo. Mas a história é esperta: muda de roupa. O autoritarismo de hoje pode não ter botas; pode ter software, algoritmos, clientelas e um sorriso de marketing.

O país não progride quando forma apenas "recursos humanos"

Um país progride quando forma cidadãos capazes de dizer não. Capazes de distinguir estabilidade de dignidade. Capazes de exigir transparência sem pedir licença. Capazes de ler, desconfiar e verificar. A educação que só serve o mercado cria pessoas úteis — mas não cria pessoas livres.

E quando um povo não consegue reconhecer a própria liberdade, torna-se presa fácil de quem promete "segurança" em troca de obediência. A história repete-se sempre do mesmo modo: primeiro riem-se de quem alerta; depois perguntam como foi possível.

O que fazer: reconstruir memória, treinar consciência

Não se trata de culpar os jovens. Trata-se de culpar o abandono. O país precisa de uma reeducação cívica simples, concreta e diária: ensinar o que foi o medo, o que custa o silêncio, e como a liberdade se defende em pequenas decisões.

A liberdade não é uma medalha. É um músculo. E músculos atrofiados não resistem quando chega a tempestade. Se Portugal quer progredir, tem de voltar a formar gente que lê devagar, pensa fundo, e não confunde "opinião" com "verdade".

Epílogo: Abril não foi o fim — foi a vigília

Há quem use o 25 de Abril como ponto final. Mas ele foi uma vírgula histórica: abriu uma frase que ainda está por escrever. E escrever liberdade exige mãos, coragem e memória. Se a memória falhar, a frase pode ser reescrita por outros — com tinta bonita e intenção sombria.

Francisco Gonçalves
Sobreda, 24 de Janeiro de 2026
🌌 Fragmentos do Caos: Blogue Ebooks Carrossel
👁️ Esta página foi visitada ... vezes.