‘Keep on dreaming’: A NATO, a Europa e a coragem que falta

- O gatilho: Mark Rutte afirmou no Parlamento Europeu que, se alguém acha que a Europa se consegue defender sem os EUA, "está a sonhar / keep on dreaming".
- O subtexto: a autonomia europeia exigiria investimentos massivos (incluindo capacidades estratégicas) e evitar duplicações que enfraqueçam a NATO.
- O risco: transformar uma verdade operacional em sentença moral — e, com isso, anestesiar a vontade política europeia.
- O dilema: realismo geopolítico vs. resignação confortável.
- A pergunta: a Europa quer continuar protegida… ou quer finalmente ser adulta na sua própria defesa?
"Keep on dreaming"
ou a arte de confundir realismo com rendição
I — O "realismo" que sabe a medo
Um dirigente pode dizer uma verdade e, ainda assim, falhar no essencial: o tom. Não é o conteúdo que irrita — é a postura. A frase "keep on dreaming" tem o sabor de um adulto impaciente a falar com uma criança. Só que aqui a criança não é o povo europeu; é a vontade política europeia, que há décadas se comporta como criança mimada: exige segurança total, paga metade, discute tudo, decide pouco, e depois reclama do preço do futuro.
E sim: há um facto duro — a Europa depende de capacidades norte-americanas em múltiplas dimensões estratégicas. Mas transformar esse facto numa frase que parece um "acabou-se, não vale a pena", é atirar água fria ao único fogo que poderia salvar o continente: a coragem para investir, coordenar e reformar.
II — A verdade operacional: o que a Europa ainda não tem (em massa)
A defesa moderna não é só soldados e bandeiras. É logística, inteligência, satélites, defesa aérea integrada, munições em escala, comando e controlo, mobilidade estratégica, reabastecimento, interoperabilidade real. É aquilo que não dá fotografia — mas ganha guerras e evita guerras.
A Europa tem peças. Falta-lhe massa crítica, coordenação e, sobretudo, ritmo industrial. O problema não é "falta de ideias". É falta de execução. E falta de uma frase que assuste ministros: "não podemos continuar a depender do mesmo seguro… com um prémio que pagamos a meias."
III — O perigo da frase: a tutela como destino
Há uma diferença entre dizer "a Europa precisa dos EUA, hoje" e dizer "a Europa não pode sem os EUA, ponto final". A primeira frase é diagnóstico. A segunda é destino.
E um continente que aceita o destino como argumento torna-se eternamente dependente: na energia, na tecnologia, na defesa, na moeda, no discurso, na auto-estima. Uma civilização que vive de tutela acaba por desaprender a governar-se.
IV — Autonomia europeia: não é um slogan, é uma factura
"Autonomia estratégica" tornou-se palavra de conferência — bonita, leve, quase decorativa. Mas autonomia não é palavra: é factura. E inclui coisas que assustam: compras conjuntas, normalização de equipamentos, fecho de redundâncias, planeamento de longo prazo, e o fim da "indústria de vaidades nacionais" em que cada país quer o seu brinquedo, a sua versão, o seu logotipo.
Autonomia exige uma Europa adulta: capaz de dizer "vamos fazer menos tipos de tudo, mas muito mais quantidade do que interessa". Exige uma política industrial de defesa com escala. Exige prazos. Exige disciplina. E exige o pecado mortal de Bruxelas :decidir.
V — O que seria liderança (em vez de sarcasmo)
Se Rutte quisesse soar a líder, não diria "keep on dreaming". Diria isto:
"Hoje, a Europa não se defende sem os EUA. Mas amanhã pode — se fizer o que nunca fez."
- Escala industrial: munições, defesa aérea, drones, peças, manutenção — sem romantismo, com contratos e linhas de produção.
- Compras conjuntas e standardização: menos modelos, mais interoperabilidade, menos desperdício.
- Comando e mobilidade: logística europeia, transporte estratégico, reabastecimento, treino comum real.
- Resiliência: ciber-defesa, infra-estruturas críticas, comunicações, energia.
- Responsabilização: compromissos com calendário, penalizações políticas para quem falha, transparência para quem paga.
Liderança não é rir do sonho. É transformar o sonho em plano — e o plano em execução.
Epílogo — a Europa não precisa de tutela: precisa de verdade
Sim: a Europa, hoje, depende dos EUA. Mas o ponto não é aceitar a dependência como natureza. O ponto é aceitar a dependência como vergonha temporária — e usá-la como motor.
A NATO é uma aliança; não deve ser uma desculpa. E uma Europa que se quer livre não pode ficar eternamente a pedir licença para existir. O continente que inventou catedrais, universidades e revoluções não pode terminar como apêndice estratégico.
Se há um sonho que vale a pena, não é o de "defender-se sozinho" por orgulho. É o de ser capaz — para nunca mais precisar de mendigar protecção ao preço da sua própria voz.
Referências (notícias internacionais)
- Associated Press — NATO chief wishes "good luck" / Europe cannot defend itself without US (26/01/2026): https://apnews.com/article/c1575be708cbd813f1c7d97c87628ff6
- Reuters — Rutte "keep on dreaming" / rejeita exército europeu separado (26/01/2026): https://www.reuters.com/world/nato-boss-rutte-slaps-down-calls-european-army-prompted-by-trump-fears-2026-01-26/
- Euronews — Rutte no Parlamento Europeu / "keep on dreaming" (26/01/2026): https://www.euronews.com/my-europe/2026/01/26/rutte-defies-meps-and-praises-trump-as-very-important-to-nato
- The Guardian — live updates / citação "keep on dreaming" (26/01/2026): https://www.theguardian.com/world/live/2026/jan/26/ukraine-russia-us-greenland-europe-trade-deal-nato-latest-news-updates
Co-autoria editorial: Augustus Veritas