José Sócrates em Bruxelas — o colapso moral da justiça portuguesa

- José Sócrates responde em tribunal por corrupção, branqueamento e fraude fiscal.
- O processo arrasta-se há mais de uma década.
- O ex-primeiro-ministro realizou uma conferência de imprensa em Bruxelas para se defender.
- Nenhum antigo governante português foi condenado por corrupção de grande escala.
- O caso tornou-se símbolo internacional da impunidade política em Portugal.
José Sócrates em Bruxelas — a democracia sentada no banco dos réus
Há momentos em que um país perde a face. Hoje, Portugal perdeu-a em directo, com tradução simultânea.
José Sócrates, antigo primeiro-ministro da República, figura central do maior saque político desde 1143, decidiu que o palco adequado para se defender da justiça portuguesa não era um tribunal — mas Bruxelas.
Não foi um erro de comunicação. Foi um acto simbólico devastador.
O homem acusado que acusa o Estado
Enquanto o julgamento decorre em Portugal, o arguido atravessa fronteiras e apresenta-se como vítima internacional de uma justiça persecutória.
Não fala como cidadão. Não fala como arguido. Fala como quem sabe que o sistema foi moldado para nunca o alcançar.
E fá-lo com a tranquilidade de quem conhece demasiado bem as entranhas do poder — porque as habitou todas.
Durante o seu governo, foram instrumentalizadas instituições, nomeados cúmplices, silenciados alertas, normalizada a promiscuidade entre política, banca, grandes obras públicas e interesses privados.
Foi o laboratório perfeito da cleptocracia moderna.
O maior roubo não foi financeiro
O maior roubo não foi apenas o dinheiro.
Foi a confiança pública. Foi a degradação do Estado. Foi a ideia de que a democracia protegia os cidadãos.
Desde então, Portugal aprendeu uma lição cruel: quem rouba pouco vai preso; quem rouba milhões escreve livros.
A justiça portuguesa transformou-se num teatro processual onde os grandes casos nunca chegam ao último acto.
Prescrevem. Arrastam-se. Diluem-se. Morrem por exaustão.
Quando o arguido internacionaliza a impunidade
Ao escolher Bruxelas, Sócrates não procurou defesa jurídica — procurou legitimidade política.
Falou para fora porque dentro ninguém já acredita.
E nessa escolha deixou o país inteiro nu perante a Europa:
- um Estado incapaz de julgar os seus poderosos;
- uma justiça lenta até à irrelevância;
- uma democracia que protege quem a saqueou.
Não foi apenas uma conferência de imprensa.
Foi uma certidão pública de falência institucional.
A verdadeira acusação
Hoje, o réu não é apenas José Sócrates.
É o Ministério Público que deixou o tempo apodrecer a verdade. É o sistema judicial que permitiu a impunidade virar norma. É a classe política que fingiu indignação enquanto tratava de sobreviver ao escândalo.
Portugal não falhou porque um homem foi corrupto.
Falhou porque o sistema permitiu que ele fosse intocável.
Epílogo — o país que se habituou
O mais trágico não é o espectáculo.
É o silêncio cansado do povo.
A normalização da ignomínia. A resignação perante a indecência. A aceitação de que a justiça existe apenas para os pequenos.
Quando um antigo primeiro-ministro se defende em Bruxelas de um julgamento em Portugal, não é ele que humilha o país.
É o país que já se deixou humilhar sozinho.
E enquanto assim for, nenhuma reforma salvará a democracia.
Porque um regime onde o poder não responde pelos seus actos não é uma democracia falhada.
É uma democracia de fachada — com eleições regulares, discursos solenes e impunidade permanente.
Co-autoria: Augustus Veritas — Fragmentos do Caos