BOX DE FACTOS
  • O Governo anuncia um "IA Fast Track" (visto acelerado) para atrair talento em inteligência artificial.
  • Promete incentivos à adopção de IA nas empresas e centros sectoriais (primeiros: saúde e indústria).
  • Portugal volta ao vício nacional: velocidade no anúncio, lento na execução.
  • A pergunta real: o país vai criar ecossistema… ou só mais um cartaz?

IA Fast Track: Portugal em Modo Cristiano Ronaldo

"Acelerar" é a palavra do ano. Acelera-se o visto, acelera-se o slogan, acelera-se a fotografia. Só não se acelera aquilo que interessa: a máquina do Estado, a justiça do mérito, a cultura de execução.

1. O país do "SIUUU!" institucional

Temos o Governo em modo Cristiano Ronaldo: peito feito, frase curta, e a promessa de velocidade. "IA Fast Track" — soa a corredor de pista, a aeroporto sem filas, a futuro sem papelada. Em Portugal, tudo o que começa por "fast" costuma acabar em "falta".

Não nos iludamos: a ideia de atrair talento altamente qualificado é boa. O mundo está em corrida aberta, e quem trouxer bons cérebros, boa investigação e bons produtos ganha competitividade. O problema é o velho do Restelo… mas desta vez com razão: nós anunciamos muito e entregamos pouco.

2. Um visto rápido não cria um país rápido

Um visto acelerado é apenas uma porta. E depois da porta vem a casa. E a casa chama-se: salários, habitação, estabilidade fiscal, carreiras, laboratórios, financiamento, burocracia, previsibilidade e — sim — uma cultura que não trate o talento como suspeito só porque pensa mais depressa. Em Portugal a mediocridade é mais poderosa e manda no país. E os medíocres são inimigos figadais da inteligência e de quem ousa pensar. Se não se romper com esta "cultura dos medíocres", Portugal estara condenado à porta dos fundos, também em sistemas tecnológicos.

Se a casa for fria, cara e cheia de formulários, o visto "fast track" transforma-se num "fast exit". Atrair talento é fácil no PowerPoint. Difícil é mantê-lo quando se confronta com o quotidiano: serviços lentos, decisões adiadas, concursos que não abrem, compras públicas que emperram, e um país onde a excelência é quase sempre vista como afronta. E como tal tem sido obrigada a emigrar. Agora, assim de repente, por um qualquer passe de mágica politica, querem que ela volte!? Será talvez um sonho...

3. Centros sectoriais: a promessa e o risco do costume

O plano fala em criar centros para desenvolver produtos em sectores estratégicos — e começa por saúde e indústria. Óptimo. É aí que a IA pode poupar tempo, reduzir erros, detectar padrões invisíveis e criar produtividade real.

Mas em Portugal há um risco endémico: o "centro" virar um sítio onde se produz relatório, conferência, painel e fotografia — e o "produto" ficar sempre para a próxima legislatura, que é o nosso prazo preferido.

4. A ironia fatal: fast track para uns, slow track para o país

Esta é a contradição que dói: queremos atrair os melhores do mundo com um corredor rápido, mas mantemos o cidadão português no corredor do fundo, aquele onde a fila é eterna e o "volte amanhã" é uma espécie de hino nacional não oficial.

O país precisa de IA? Precisa. Mas precisa ainda mais de uma coisa que não se compra com fundos: um Estado que funcione, com regras claras, prazos reais, responsabilidade e sanção para quem falha. E sobretudo passar a ser um país capaz de abraçar a mudança, acolher a inteligência e penalizar a nediocridade exa incompetência que campeia em Portugal. Se não houver isso, a IA vira mais um adorno tecnológico em cima de uma estrutura cansada. Um motor novo num carro com rodas quadradas.

5. O que seria "modo Ronaldo" a sério

Se o Governo quer mesmo estar em "modo Ronaldo", então que faça o essencial: treino, disciplina e execução. Menos palco, mais oficina. Menos anúncio, mais entrega.

Porque no fim, o país não precisa de slogans rápidos. Precisa de instituições rápidas. E isso, infelizmente, não se resolve com um visto. Resolve-se com coragem — e com trabalho arduo e persistência.

Epílogo: o futuro não entra com um carimbo

A inteligência artificial pode ser uma oportunidade histórica. Mas Portugal tem um pecado recorrente: confunde declaração com realidade. O futuro não entra com um carimbo. Entra com estrutura, rigor e mérito.

Se esta Agenda for executada com seriedade, aplauso merecido. Se for apenas mais um cartaz, então sim: "SIUUU!" — mas de ironia.

Francisco Gonçalves
Coautoria editorial com Augustus Veritas — porque, em Portugal, até a esperança precisa de nervo e de prova de vida.
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