BOX DE FACTOS
  • Data e local: 26 de Janeiro de 2026, Palácio da Bolsa (Porto).
  • O que é: Carteira Digital da Empresa, acessível via app gov.pt com Chave Móvel Digital.
  • Primeira fase: documentos-base (cartão/identificação da empresa, situação tributária, situação contributiva, RCBE).
  • Promessas futuras: criação de empresas, facilitação de contratação pública, acesso a fundos europeus.
  • Custo: gratuito no arranque; funcionalidades avançadas podem vir a ser pagas.
  • Contexto político: insistência no pacote laboral; silêncio sobre presidenciais.
  • Moldura europeia: enquadramento no eIDAS 2.0 (identidade e credenciais digitais).

Quando a incompetência dói — e muito

"Portugal está na moda", dizem. E, de repente, a solução para a vida real cabe num ícone: uma carteira. Só falta explicar porque é que, num país de carteiras vazias, insistem em vender-nos mais uma — desta vez com encriptação.

I — O país "na moda" e o velho hábito de vender nevoeiro

Há frases que são como perfume barato: entram fortes, deixam rasto, mas não curam nada. "Portugal está na moda" — um slogan que dá jeito em conferências, palácios e palcos com microfones alinhados. Só que a "moda" é uma luz de montra: brilha no vidro, mas não aquece quem está do lado de cá, a preencher formulários, a pedir certidões, a correr de portal em portal, como se a Administração Pública fosse um jogo de obstáculos com prémio invisível.

O lançamento da Carteira Digital da Empresa chega assim, embalado em optimismo institucional, como se a burocracia fosse uma criatura mística que morre ao primeiro toque do digital. E não morre. Adapta-se. Troca o carimbo por um botão. Troca o papel por um "erro inesperado". Troca a fila por um "tente novamente mais tarde".

II — A carteira: o novo altar do "faça você mesmo" administrativo

Na fase inicial, a carteira dá acesso a documentos que ajudam — sem dúvida. Identificar a empresa, comprovar situações fiscal e contributiva, mostrar o RCBE. A promessa é bonita: poupar tempo, reduzir idas e vindas, tirar peso morto às empresas. E isso, quando funciona, é progresso.

Mas Portugal tem um talento raro: transformar boas ideias em labirintos. A digitalização, cá, muitas vezes não é reforma — é maquilhagem. Não corta passos; apenas os reorganiza. Não simplifica; redistribui o cansaço. A pergunta é simples:o processo foi redesenhado ou apenas foi digitalizado?

III — O detalhe que denuncia tudo: "é grátis… por enquanto"

Há uma frase que devia vir impressa em letras gigantes em todo o "progresso" anunciado: "na versão seguinte paga." Porque é aí que o país real entra na sala e tosse. A carteira nasce gratuita, mas com o "futuro" a piscar o olho: funcionalidades avançadas poderão ser pagas. E aqui, a incompetência dói mesmo — porque o Estado não pode ser um vendedor de subscrições ao cidadão e ao empresário.

A modernização do Estado não é um "plano premium". É obrigação. Quando a Administração Pública pede eficiência às empresas, tem de começar por não lhes vender a eficiência de volta, como se fosse um extra opcional.

IV — O pacote laboral, o silêncio presidencial e a coreografia do poder

No mesmo sopro, garante-se que não se desiste do pacote laboral, e recusa-se falar das presidenciais. A política portuguesa tem esta arte: tocar todos os tambores sem dançar a música inteira. A carteira é o cenário perfeito: dá fotografia, dá narrativa europeia, dá "futuro". E enquanto todos discutem o ícone no telemóvel, as perguntas pesadas ficam para depois.

V — O que seria competência (e não moda)

Competência seria isto: menos portais, menos redundância, menos "traga a certidão que o Estado já tem". Competência seria o Estado a falar consigo próprio sem pedir ao cidadão que seja pombo-correio de dados. Competência seria ter processos desenhados para humanos, não para departamentos.

Porque a dor não vem do digital. A dor vem da cultura: a cultura do excesso, do medo, do carimbo mental, da micro-regra, do "não dá", do "sempre foi assim". E isso não se cura com apps. Cura-se com coragem — e com cortes.

Epílogo — uma carteira não faz um país

A Carteira Digital da Empresa pode ser útil. Pode até ser muito útil. Mas não nos enganemos: uma carteira não faz um país moderno — tal como um verniz não faz uma casa sólida. Se a modernização for só cosmética, o resultado será o de sempre: mais uma porta digital para o mesmo corredor infinito.

E, nesse dia, quando a "moda" passar, ficará o essencial: empresas cansadas, cidadãos exaustos, e um Estado a perguntar com ar inocente: "já tentou desligar e voltar a ligar?"

Francisco Gonçalves — Fragmentos do Caos
Co-autoria editorial: Augustus Veritas

Referências (para colar no fim do artigo)

  1. Jornal de Notícias — "Portugal está 'na moda'… e lança Carteira Digital da Empresa" (26/01/2026): https://www.jn.pt/nacional/artigo/montenegro-diz-que-pais-esta-na-moda-e-lanca-carteira-digital-da-empresa/18044768
  2. Renascença — "Empresas vão ter uma espécie de Cartão de Cidadão…" (26/01/2026): https://rr.pt/noticia/economia/2026/01/26/empresas-vao-ter-uma-especie-de-cartao-de-cidadao-saiba-tudo-sobre-a-carteira-digital/456777/
  3. ECO — "Novo 'cartão do cidadão da empresa'…" (26/01/2026): https://eco.sapo.pt/2026/01/26/novo-cartao-do-cidadao-da-empresa-vai-permitir-criacao-de-empresas-na-app-e-aceder-a-fundos-europeus-no-futuro/
  4. Jornal de Negócios — "Afinal, a Carteira Digital da Empresa é gratuita…" (26/01/2026): https://www.jornaldenegocios.pt/empresas/detalhe/afinal-carteira-digital-da-empresa-e-gratuita-proximas-funcionalidades-serao-pagas
  5. RTP — enquadramento eIDAS 2.0 (26/01/2026): https://www.rtp.pt/noticias/economia/lancada-carteira-digital-da-empresa-empresarios-com-acesso-a-quatro-documentos_n1712907
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