Gestão em Portugal: o Culto da Submissão e a Falência do Empreendedorismo de Valor

- Problema central: numa cultura de obediência, a gestão troca valor por controlo.
- Efeito visível: promove-se a docilidade; penaliza-se a franqueza e a competência independente.
- Resultado económico: poucas empresas escalam; muitas sobrevivem a favores, não a mérito.
- Empreendedorismo: nasce com chama, mas morre em burocracia, dependência e medo de contrariar.
- Riqueza real: exige risco inteligente, confiança e liderança; o sistema prefere "paz" a progresso.
Gestão em Portugal: o Culto da Submissão e a Falência do Empreendedorismo de Valor
E quando a pergunta errada governa, a resposta certa emigra.
A gestão, quando é nobre, é uma arquitectura invisível: cria condições para que o talento floresça, para que a coragem não seja suicídio, para que a verdade não seja um crime de lesa-carreira. Mas em Portugal — demasiadas vezes, em demasiados sítios, por demasiado tempo — a gestão foi convertida num ritual de controlo, numa liturgia de hierarquia, numa missa quotidiana onde se reza ao altar do "sim, senhor".
Não é apenas um vício moral; é um sistema. E os sistemas, como os pântanos, não precisam de maldade para engolir: basta-lhes o hábito, a rotina, a complacência, e uma camada fina de medo distribuída por toda a pirâmide. O resultado é simples e devastador: a empresa deixa de ser máquina de valor e passa a ser máquina de conformidade. E tudo leva o carimbo "em confirmidade", ou a patética, moderna e mediocre frase " fizemos tudo segundo as melhores práticas.". A pergunta agora é minha "melhores práticas de quem e para quem?"
1. A Gestão como Teologia do Medo
Onde o poder é frágil, a crítica é vista como ataque. Onde a liderança é curta, a competência alheia parece insolência. Assim nasce a gestão defensiva: não contrata quem brilha; contrata quem não ofusca. Não promove quem resolve; promove quem não expõe o vazio. É uma forma de auto-preservação — e, no entanto, é uma forma de suicídio colectivo, porque mata a única coisa que sustenta uma organização viva: a inteligência activa.
Este fenómeno cria um tipo humano muito específico: o profissional que aprende cedo que, para subir, não é preciso construir — é preciso alinhar. A palavra "lealdade" é usada como perfume, mas muitas vezes significa apenas: não me contradigas. E assim se troca o motor por um espelho: a empresa passa a ver-se a si própria, a admirar-se, a celebrar-se… enquanto se imobiliza.
2. A Excelência como Anomalia Social
A excelência é incómoda por natureza. Não por ser arrogante, mas por ser comparativa: revela diferenças. E num ambiente onde a igualdade é confundida com nivelamento, a diferença é tratada como afronta. Quem pensa depressa é acusado de "complicar". Quem fala claro é acusado de "não saber jogar". Quem entrega resultados sem teatro é acusado de "não ter perfil", ou até acusado de "estar a ir depressa de mais".
A mediocridade, ao contrário, é socialmente confortável: não exige reforma, não exige vergonha, não exige mudança. É um sofá grande onde cabe toda a gente — e onde ninguém se levanta para abrir a janela. Daí a frase que se tornou quase lei natural: a excelência emigra. Emigra fisicamente, sim — mas também emigra por dentro: cala-se, retrai-se, desiste, ou vai criar valor longe do olhar do chefe e do ouvido do corredor.
3. Porque Falha o Empreendedorismo
Há um mito conveniente: o de que o empreendedorismo falha porque "os portugueses não arriscam". Meia verdade — e, por isso mesmo, perigosa. O problema não é ausência de coragem; é excesso de atrito. É o peso morto que se cola à sola de quem tenta andar: burocracia como lama, licenças como labirinto, regras como nevoeiro, prazos como castigo, fiscalizações como ameaça, e uma cultura onde o erro é pecado mortal.
O empreendedorismo precisa de três elementos para criar riqueza real: tempo, confiança e escala. Ora, o tempo é devorado por burocracias; a confiança é corroída por favoritismos; a escala é impedida por redes fechadas, por mercados pequenos e por uma mentalidade que prefere a "empresa de sobrevivência" à "empresa de conquista". Assim nasce a economia do "remendo": muitos projectos, pouca transformação; muita iniciativa, pouca ascensão.
E depois há o veneno mais subtil: a dependência. Quando o sucesso parece depender mais de portas do que de produto, o empreendedor deixa de ser engenheiro de valor e passa a ser gestor de proximidades. Aprende a linguagem dos "contactos", a gramática das "facilidades", o dialeto das "oportunidades". Não porque seja mau — mas porque quer viver. E o país perde, porque a riqueza real raramente nasce do favor: nasce do mérito repetido, do erro corrigido, do risco medido, da invenção teimosa.
4. A Tragédia da Liderança Pequena
A liderança pequena não é aquela que tem pouca gente; é aquela que tem pouco horizonte. Vive de trimestre em trimestre, de fotografia em fotografia, de título em título. É uma liderança que confunde "gestão" com "posição" e "autoridade" com "voz levantada". Não constrói cultura; distribui medo. Não cria equipas; cria dependências. E, quando tudo falha, faz o que o sistema ensinou: procura culpados, não causas.
Uma nação pode sobreviver a crises económicas. O que raramente sobrevive é uma nação que se habituou a punir os melhores e a premiar os mais adaptados à submissão. A longo prazo, isto não é apenas injusto; é antiproducente: dissolve ambição, seca inovação, torna o trabalho um acto de resignação.
5. O que Seria uma Gestão Digna
Uma gestão digna não pede vassalagem; pede responsabilidade. Não exige silêncio; exige rigor. Não recompensa bajulação; recompensa clareza. E sabe uma coisa essencial: o chefe não é o dono da verdade — é o guardião do ambiente onde a verdade pode existir.
Países que criam riqueza real não são feitos de "génios" por milagre; são feitos de sistemas onde o talento não precisa de pedir licença para respirar. E isso começa na célula base: a empresa, a equipa, o líder, o hábito diário de preferir o real ao teatral.
Epílogo: A Pátria que Ainda Não Foi
Se há algo profundamente português — no melhor sentido — é a capacidade de resistência. Mas resistência sem direcção é apenas desgaste. O futuro não se faz com resignação. Faz-se quando uma geração decide que o "sempre foi assim" é apenas a forma educada do desespero.
O país não precisa de mais discursos sobre empreendedorismo; precisa de condições para que ele não seja um desporto radical. Precisa de gestão com espinha, de líderes com humildade, de estruturas que tolerem a franqueza e premiem a competência. De lideres que premiam grandes falhanços e punem quem não arrisca e se acomoda. Porque a riqueza real é teimosa: não cresce em salões de submissão. Cresce em terrenos onde a liberdade de pensar não é afronta — é fundamento.
1) Clássicos que definiram a Gestão Moderna
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Peter F. Drucker — pai da gestão moderna; foco em objectivos, conhecimento e eficácia.
Obras-chave: The Practice of Management (1954), Management: Tasks, Responsibilities, Practices (1973), The Effective Executive (1967). -
W. Edwards Deming — qualidade, melhoria contínua e sistemas; influência decisiva no Japão do pós-guerra.
Obras-chave: Out of the Crisis (1982), The New Economics (1993). -
Joseph M. Juran — trilogia da qualidade (planeamento, controlo, melhoria); gestão por processos.
Obras-chave: Juran's Quality Control Handbook (1951, edições posteriores), Juran on Leadership for Quality (1989). -
Michael E. Porter — estratégia competitiva, cadeias de valor, vantagens sustentáveis.
Obras-chave: Competitive Strategy (1980), Competitive Advantage (1985). -
Henry Mintzberg — crítica das simplificações da gestão; papéis reais do gestor no terreno.
Obras-chave: The Nature of Managerial Work (1973), Managers Not MBAs (2004). -
Frederick W. Taylor — gestão científica (com limites e controvérsia), base histórica da organização do trabalho.
Obra-chave: The Principles of Scientific Management (1911).
2) Execução, Cultura e Alto Desempenho
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Andrew S. Grove (Intel) — execução, disciplina e foco; "só os paranóicos sobrevivem".
Obras-chave: High Output Management (1983), Only the Paranoid Survive (1996). -
Jim Collins — empresas de excelência sustentada; "Level 5 Leadership".
Obras-chave: Good to Great (2001), Built to Last (1994, com Jerry I. Porras). -
John P. Kotter — mudança organizacional; liderança vs. gestão.
Obra-chave: Leading Change (1996). -
Stephen R. Covey — hábitos de eficácia pessoal e organizacional (influência cultural forte).
Obra-chave: The 7 Habits of Highly Effective People (1989). -
Patrick Lencioni — disfunções das equipas; confiança, conflito saudável e responsabilidade.
Obra-chave: The Five Dysfunctions of a Team (2002).
3) Inovação, Startups e Gestão em Ambientes de Risco
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Clayton M. Christensen — inovação disruptiva; porque empresas "bem geridas" falham.
Obra-chave: The Innovator's Dilemma (1997). -
Eric Ries — Lean Startup; ciclos curtos, aprendizagem validada e iteração.
Obra-chave: The Lean Startup (2011). -
Steve Blank — "customer development"; sair do edifício e aprender com o mercado.
Obra-chave: The Four Steps to the Epiphany (2005). -
Ben Horowitz — gestão dura no mundo real; decisões em crise.
Obra-chave: The Hard Thing About Hard Things (2014).
4) Pessoas, Motivação e Organização Humana
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Abraham Maslow — hierarquia de necessidades; impacto na motivação e cultura.
Obra-chave: Motivation and Personality (1954). -
Frederick Herzberg — factores de motivação vs. higiene; desenho do trabalho.
Referência: teoria dos dois factores (anos 50/60; várias publicações). -
Douglas McGregor — Teoria X e Teoria Y; suposições do gestor sobre as pessoas.
Obra-chave: The Human Side of Enterprise (1960). -
Daniel H. Pink — autonomia, mestria e propósito (motivação no trabalho do conhecimento).
Obra-chave: Drive (2009).
5) E para concluir
Onde a verdade pode circular, o mérito respira, a inovação acontece, e a riqueza deixa de ser promessa para ser produto.
A verdadeira excelência é inovadora, é disruptiva e destrutiva [de modelos que são normalmente aceites por todos]. Ignora a burocracia, tenta sempre superar-se a si própria, persiste, persegue a complexidade e transforma-se em modelos geriveis. Em suma, transforma burocracia e complexidade em produtividade acrescida e automatização engenhosa.
Como disse Einstein "Fazer as coisas sempre do mesmo modo, e ainda assim esperar resultados diferentes de cada vez que se tenta, é sinónimo de pura loucura".
E acredite-se ou não, em Portugal este tipo de loucura (considerada como normal) governa o país há décadas e décadas, com os mesmos resultados de sempre !
- Francisco Gonçalves