Falências, Insolvências e o País do Anúncio: 2025 em números, 2026 em sinais

- 2025 (Iberinform): 3.640 insolvências registadas (-2% vs 2024); 2.014 empresas efectivamente declaradas insolventes.
- 2025 (GEE/DGPJ): no 3T25, 462 insolvências decretadas (-7,8%); acumulado até 3T25: 1.432 (-8,4%).
- 2026 (Coface): tendência global de aumento de insolvências (+3% a +4%), com sectores vulneráveis como construção e hotelaria/restauração.
- O sinal social: quando a economia abrandar, o primeiro "corte" é sempre o mesmo: despedimentos, congelamentos e fecho discreto de portas.
Falências, Insolvências e o País do Anúncio
Há um tipo de país que usa a lei como bússola. Portugal, demasiadas vezes, usa a lei como catavento. Muda ao sabor do vento político, da urgência orçamental e do instinto de sobrevivência do aparelho. E depois espanta-se que o investimento sério olhe para isto como quem olha para um terreno sísmico: com respeito, sim — mas de longe.
Em 2025, os números não gritam "apocalipse", mas também não cantam "saúde". A Iberinform registou 3.640 insolvências no ano (-2% face a 2024) e 2.014 empresas efectivamente declaradas insolventes. Tradução humana: milhares de histórias a fechar a persiana — e, com elas, salários, projectos, pequenas esperanças.
O truque dos números: "registadas" vs "decretadas"
Em Portugal, até a desgraça tem burocracia. Uma coisa é a insolvência registada (entrada no sistema, acção iniciada). Outra coisa é a insolvência decretada (sentença/decisão em tribunal). No 3.º trimestre de 2025, o GEE (com base na DGPJ) reportou 462 insolvências decretadas (-7,8%). E, até ao final do 3T25, 1.432 decretadas (-8,4%).
Isto parece "melhoria" e pode ser — mas também pode ser atraso, filtro e arrasto. Porque, quando a justiça é lenta, a economia não espera: adapta-se. Fecha. Despede. Emigra.
2025 teve picos: quando o Verão trouxe calor, as insolvências trouxeram febre
Houve meses em que a pressão subiu à superfície. Em Julho de 2025, foi noticiado um aumento homólogo e a referência a 2.255 pedidos de insolvência desde Janeiro. Este tipo de pico mensal não é detalhe: é um sinal de stress em cadeia, como quando um motor começa a falhar por episódios antes de falhar de vez.
E 2026? A tendência é clara: mais fragilidade, menos tolerância ao erro
Para 2026, a Coface antecipa um aumento global de insolvências na ordem dos +3% a +4% (a subir, mas a um ritmo inferior a 2025), com sectores vulneráveis como construção e hotelaria/restauração. A mensagem é simples: juros, custos, margens curtas e consumo nervoso criam um cenário onde a empresa "normal" passa a viver à beira do precipício.
E aqui entra o factor português — o nosso "extra" que não vem no folheto turístico: Estado pesado, leis instáveis, burocracia predadora, justiça tardia. Num país eficiente, uma PME aguenta uma maré difícil. Num país labiríntico, a PME afoga-se em papel — e morre antes de chegar a terra.
Radar de crise: sinais que costumam aparecer antes do estrondo
- Despedimentos preventivos (não por "maldade", mas por tesouraria).
- Incumprimentos em cadeia (clientes a pagar tarde, fornecedores a cortar crédito).
- Queda de novas empresas e "adiamento" de investimento (ninguém planta quando a terra treme).
- Construção e subempreitadas a tensionar (cadeia longa, margem curta).
- Transportes/logística a sofrerem com custos e procura (um termómetro sensível).
Epílogo: o país que queria ser estável, mas prefere ser "anunciável"
A economia portuguesa não precisa de mais slogans. Precisa do banal — e o banal é revolucionário: regras estáveis, licenças com prazo, justiça com tempo útil, Estado com métricas. Sem isto, o investimento sério não "se apaixona". O investimento sério calcula — e, se a conta não fecha, vai para onde fecha.
E assim ficamos: um país que sabe fazer cerimónias como poucos… mas ainda não aprendeu a fazer, silenciosamente, aquilo que dá futuro.
Referências (fontes e séries estatísticas)
- Iberinform (Portugal) — balanço anual 2025: "Insolvências diminuem 2% em 2025; constituições de empresas crescem 5". (3.640 insolvências registadas; 2.014 efectivamente declaradas insolventes.)
- GEE (Ministério da Economia) — insolvências decretadas (tribunais): Painel de Demografia, Insolvências e Revitalização de Empresas n.º 4/2025 (PDF). (3T25: 462 decretadas; acumulado até 3T25: 1.432.)
- DGPJ — anúncio e enquadramento estatístico: "Estatísticas sobre insolvências decretadas" (DGPJ).
- Coface (Portugal) — perspectiva global 2026 (insolvências): "Perspectivas económicas para 2026: preparar as empresas europeias para a turbulência". (+3% a +4% insolvências globais em 2026; sectores vulneráveis.)
- Leitura de contexto (picos mensais 2025 — pedidos de insolvência): ECO — "Insolvências sobem 18% em julho".